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França: onda de calor adia Marchas do Orgulho e reacende discurso da extrema-direita

Sucessão de adiamentos e cancelamentos de eventos de grande porte sinaliza que os impactos da crise climática já ultrapassam os limites ambientais e sanitários no país

França: onda de calor adia Marchas do Orgulho e reacende discurso da extrema-direita
França: onda de calor adia Marchas do Orgulho e reacende discurso da extrema-direita
Marcha do Orgulho em Lyon é esperada desde maio. Evento "Lyon Est Fière" (Lyon é Orgulho) será sediado na Place des Terreaux, no centro da cidade. Foto: Danilo Queiroz
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Lyon — Pela primeira vez, uma onda de calor extrema levou autoridades francesas a alterar o calendário de importantes celebrações do Mês do Orgulho LGBTQIA+. A poucos dias das mobilizações previstas para o fim de junho, organizadores em diversas cidades anunciaram o adiamento de marchas e eventos diante das temperaturas recordes que atingem o país.

A decisão frustrou ativistas, que veem o mês de junho como um marco histórico da luta pelos direitos LGBTQIA+, mas também evidenciou um novo desafio para movimentos sociais europeus: a necessidade de adaptar manifestações de massa aos efeitos cada vez mais intensos das mudanças climáticas.

Há vários dias, hospitais e serviços de emergência registram aumento no número de atendimentos relacionados à hipertermia, desidratação e complicações cardiovasculares provocadas pelo calor extremo. Ao mesmo tempo, o país contabiliza ao menos 55 mortes por afogamento, em um contexto em que rios, lagos e áreas de banho improvisadas se tornaram alternativas para escapar das altas temperaturas.

“A nossa vigilância está particularmente voltada para as pessoas isoladas em casa”, afirmou à imprensa o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, ao anunciar medidas emergenciais voltadas aos grupos mais vulneráveis. Entre elas está a mobilização da rede nacional de carteiros, a LaPoste, para identificar situações de risco e apoiar os serviços municipais de assistência social.

Inicialmente previstas para este fim de semana em cidades como Paris, Marselha, Toulouse e Lyon, diversas marchas foram adiadas para o fim do verão europeu ou ainda aguardam definição de novas datas.

A principal mobilização na capital parisiense, organizada pela Inter-LGBT Paris, reuniu cerca de um milhão de pessoas em sua edição anterior. Agora, a organização trabalha com a possibilidade de transferir o evento para setembro.

“Estamos seguindo as recomendações das autoridades. A hipótese de setembro está sendo considerada, mas ainda precisamos reunir nossa equipe para avaliar os próximos passos”, afirmou em comunicado Anouk Veyret, copresidente da Inter-LGBT.

Embora tenha criticado a decisão, a dirigente reconheceu o contexto de emergência sanitária.

“Consideramos que as autoridades acabaram impondo o cancelamento. Estávamos confiantes no nosso esquema de segurança e não acreditávamos que haveria um grande número de vítimas, mas compreendemos a preocupação com a saúde pública e a pressão sobre os hospitais.”

Marcha do Orgulho LGBTQIA+ em Paris, em 24 de junho de 2023. Foto: AFP – Julien de Rosa

A onda de calor também afetou o festival Solidays, um dos maiores eventos musicais da França e tradicional arrecadador de recursos para programas de combate ao HIV/Aids desenvolvidos pela ONG Solidarité Sida.

O diretor do festival, Luc Barruet, lamentou os impactos financeiros da suspensão das atividades.

“É uma notícia muito, muito ruim, ainda que entendamos como chegamos a esse ponto”, declarou.

O evento, que costuma reunir entre 200 mil e 250 mil pessoas por edição no hipódromo de Paris-Longchamp, deixará de arrecadar cerca de 3 milhões de euros destinados a projetos em aproximadamente 20 países.

Em Lyon, terceira maior cidade da França, o contexto é ainda mais complexo. Neste ano, divergências entre organizações LGBTQIA+ locais resultaram na convocação de duas marchas distintas.

A primeira, organizada pelo Collectif Fiertés en Lutte (CFL) – coletivo Orgulho em Luta, em tradução para o português – estava marcada para 27 de junho e possui caráter explicitamente político. A segunda, promovida por setores que defendem um formato menos militante e mais festivo, permanece prevista para 11 de julho.

Diante da onda de calor, o CFL anunciou o adiamento de sua mobilização, após recomendação das autoridades lyonesas. A decisão é consequência de complicações causadas em eventos realizados no fim da primavera. Nas primeiras semanas de junho, centenas de manifestantes desmaiaram em trechos de uma caminhadas de cinco quilômetros que reuniu cristãos em prol da Marcha Para Jesus na cidade.

“Preferimos garantir a saúde e a segurança dos voluntários e manifestantes a correr o risco de um acidente ou de uma tragédia”, afirmou um dos organizadores da CFL.

Mais de 15 mil pessoas eram esperadas para participar da 30ª edição da Parada do Orgulho de Lyon. Mesmo antes do adiamento, os organizadores haviam preparado um plano especial para enfrentar as temperaturas extremas, incluindo distribuição gratuita de água ao longo do percurso e voluntários equipados com ventiladores para refrescar os participantes.

Em comunicado divulgado nas redes sociais, o coletivo justificou a decisão afirmando que a defesa dos direitos da população LGBTQIA+ não pode ignorar os riscos impostos pela emergência climática.

Comunidado emitido dia 26 de junho de 2026 no blog do Collectif Fiertés en Lutte (CFL). Foto: Divulgação

“Estamos determinados a marchar para defender nossos direitos, mas isso não pode ser feito deixando de lado aqueles que não têm condições de participar por causa do calor.”

A nota conclui com uma frase que rapidamente se tornou símbolo da decisão: “Não pode haver liberdade em um inferno climático.”

A nova data ainda será definida. Caso as condições meteorológicas permitam, Lyon deverá realizar ao menos uma marcha no dia 11 de julho.

Dois terços do país sob calor extremo

A França atravessa uma das mais severas ondas de calor de sua história recente. Cerca de dois terços do território permanecem sob alerta para temperaturas extremas, em um episódio que especialistas já comparam, em intensidade, à histórica onda de calor de 2003, responsável por aproximadamente 15 mil mortes no país.

O fenômeno é agravado por um padrão atmosférico conhecido como bloco ômega, formado por uma área de alta pressão persistente entre duas áreas de baixa pressão. Essa configuração impede a circulação normal das massas de ar e mantém o calor estacionado sobre a mesma região durante vários dias.

Embora as autoridades ainda não consigam estimar o número de mortes diretamente relacionadas à atual crise climática, profissionais da saúde alertam para o risco crescente entre idosos e pessoas isoladas.

Após o pico registrado na véspera, quando 155 cidades bateram recordes históricos de temperatura, os termômetros apresentam leve recuo nesta sexta-feira. Ainda assim, regiões do centro da França continuam registrando máximas próximas de 40°C, enquanto Paris permanece sob calor intenso, com temperaturas em torno de 39°C.

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