Política

TSE registra ‘boom’ de pesquisas eleitorais em 2026; alta é de mais de 80%

Com quase seis levantamentos por dia, 2026 supera com folga os ciclos anteriores e reacende o debate sobre financiamento, metodologia e uso político das sondagens

TSE registra ‘boom’ de pesquisas eleitorais em 2026; alta é de mais de 80%
TSE registra ‘boom’ de pesquisas eleitorais em 2026; alta é de mais de 80%
O presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro, candidatos à Presidência. Fotos: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil e Evaristo Sá/AFP
Apoie Siga-nos no
Eleições 2026

Em 2026, o Tribunal Superior Eleitoral já registrou 1.028 pesquisas que tentam medir os sentimentos da população brasileira em relação aos candidatos que vão tentar ocupar o Congresso, Planalto e os governos estaduais. O volume equivale a quase seis levantamentos por dia e representa uma alta de 86% em relação ao mesmo período de 2022, quando havia 552 sondagens registradas — cerca de 3,2 por dia.

Quando a comparação é com os dados de 2018, quando Jair Bolsonaro (PL) saiu vencedor, o crescimento é ainda maior: 301%. Durante o pleito que inaugurou a era do bolsonarismo, foram 301 pesquisas eleitorais registradas até 22 de junho de 2018.

Para o cientista político Antonio Lavareda, a multiplicação das pesquisas eleitorais acontece devido a dois fatores: novas tecnologias e mais veículos de comunicação, possibilitando a disseminação de mais levantamentos.

“De um lado, existe a efervescência de novas metodologias de entrevista — telefônicas com entrevistadores e com robôs, e as pesquisas on-line — todas muito mais baratas que as entrevistas face a face que vão se tornando obsoletas”, explica, em contato com CartaCapital. “Além disso, o mercado vive a fragmentação das mídias, acabando com a centralidade dos grandes veículos.”

Mas há também um componente político. Para Neale El-Dash, fundador e diretor metodológico da plataforma Polling Data, a indefinição em torno do nome que herdaria o eleitorado bolsonarista ajudou a aquecer o mercado de pesquisas nos primeiros meses do ano.

“Em 2022, o mercado começou a fazer mais pesquisas em maio e junho. Já em 2026,  você teve mais pesquisas sendo feitas em março, abril e maio e, em junho, houve uma redução”, avalia. “É um indicativo de que os cenários eleitorais em 2026 estavam mais indefinidos, principalmente se a gente pensar no nível de presidente”

No início do ano, Tarcísio de Freitas (Republicanos) despontava como favorito à vaga do bolsonarismo na corrida. O governador de São Paulo testava as águas, sem se comprometer publicamente com uma candidatura. De lá pra cá, também se lançaram para tentar ocupar esse vácuo Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão), Aécio Neves (PSDB) e Joaquim Barbosa (DC).

“Isso fez com que se tivessem mais pesquisas eleitorais no começo do ciclo eleitoral para tentar entender quem eram os pré-candidatos viáveis. Principalmente se comparado com 2022, onde já era bem claro que a disputa seria entre Bolsonaro e Lula”, afirma.

Para ele, o boom de pesquisas não é necessariamente negativo. O problema está na forma como os números são lidos e usados no debate público. “Do ponto de vista de melhorar o mercado de pesquisa e da  informação precisa, quanto mais pesquisas, melhor”, pondera. “Mas é preciso saber como usá-las e como tirar a informação delas.”

Interesse do mercado financeiro

O sociólogo e diretor do Instituto Vox Populi, Marcos Coimbra chama atenção para outro aspecto do fenômeno: o avanço das instituições financeiras no financiamento de pesquisas eleitorais. Para ele, a maior presença dos bancos no setor não apenas amplia a circulação de dados, mas também pode influenciar a narrativa em torno das candidaturas.

“Passaram a investir mais nesses produtos para se aproveitar dessa informação e atuar politicamente”, afirma. “Há um modo de usar pesquisas nas eleições que aumenta a suspeita desse interesse em trabalhar a ideia de fragilidade da candidatura de Lula.”

A desconfiança de Coimbra ganha peso quando se observa quem financia os levantamentos. Em 2026, assim como em 2022, o Banco Genial lidera os gastos com pesquisas registradas no TSE. Desde o início do ano, foram 7,1 milhões de reais destinados a sondagens — mais que o dobro dos 3 milhões investidos no mesmo período de 2022. Em 2018, a Folha de S.Paulo liderava esse ranking.

Para Coimbra, o protagonismo dos bancos no financiamento de pesquisas é uma particularidade da democracia brasileira e deve ser observado com cautela.

“Vantagem ou desvantagem em pesquisa, a essa altura, não quer dizer nada. Interessa aos patrocinadores criar essa imagem de que ‘fulano vai perder’, porque isso pode contribuir para que a realidade se ajuste ao que se quer que aconteça”, completa.

Entre os partidos, apenas o PL aparece entre os principais financiadores. A sigla investiu 940 mil reais em pesquisas registradas no TSE neste ano. O valor não inclui os chamados trackings, levantamentos internos que não precisam ser comunicados à Justiça Eleitoral. No mesmo período de 2022, quando tentava reeleger Bolsonaro, o partido havia gasto 80 mil reais.

Coimbra também critica a expansão de metodologias digitais e o modo como parte da imprensa cobre os levantamentos.

“Vejo com preocupação essas novas metodologias de pesquisa. Fomos involuindo no modo de contratação e de divulgação”, afirma. “O modo de lidar com as pesquisas está cada vez mais frouxo, negando o bê-á-bá da análise: a margem de erro e a comparação entre levantamentos de períodos diferentes.”

Para ele, a responsabilidade não recai apenas sobre os financiadores. “Isso não é uma culpa dos bancos. É a imprensa que deveria zelar por isso.”

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

2026 já começou

Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.

Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.

Assine ou contribua com o quanto puder.

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo