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A indiferença também mata
Em tempos de violência normalizada, a cumplicidade deixa de ser omissão e passa a integrar o mecanismo da destruição
“O camarada começa a ver um pivete levando choque, spray de pimenta no ânus, no escroto, dentro da boca e não sente pena nenhuma. Pelo contrário, ele ri, acha engraçado. E tem um motivo: nesse momento que o mais antigo pega o pivete e começa a fazer isso, se você ficar sentido, comovido por aquela prática, pode ter certeza que vai virar comédia no batalhão, vai ser tido como fraco. Vai ser tido como inapto para o serviço policial. E aí você vai começar a ser destacado, a ser visto como um elemento discordante desse ideal que a tropa criou.”
— Rodrigo Nogueira, em Como nasce um miliciano, de Cecília Olliveira (Bazar do Tempo)
A citação é brutal. E ajuda a nomear uma das lutas centrais do Brasil e do mundo: impedir que a violência se transforme em rotina, piada ou método.
A literatura pode contribuir — e muito — para esse esforço. Os escritores russos do século XIX talvez sejam o melhor exemplo. Dostoiévski, Tolstói e Tchekhov são os nomes que primeiro saltam aos olhos, mas Gogol e Turguêniev também integram essa constelação. Todos, cada um à sua maneira, buscavam curar pela literatura.
Tchekhov, médico, sanitarista e epidemiologista, transformou o levantamento que realizou na distante ilha de Sacalina — onde funcionava uma das maiores e mais terríveis prisões czaristas — em uma obra-prima da literatura russa. Mas não se deteve ali. Em Os mujiques (Todavia), ingressa no terrível e perigosíssimo universo das relações afetivas abusivas.
Vai, assim, do coletivo ao individual com precisão cirúrgica: enfrenta e descreve tanto as patologias sociais quanto as íntimas.
Dostoiévski, filho de médico, realiza movimento semelhante, alcançando ainda uma dimensão espiritual, como Tolstói. É interessante notar que Marx teve dificuldade para apreender, inicialmente, a importância daquela riqueza cultural para a eclosão revolucionária.
Num primeiro momento, julgava que a Rússia não dispunha de proletariado urbano-industrial suficiente e que a população rural, recém-liberta da semiescravidão de caráter feudal, em 1861, não teria condições de liderar um processo revolucionário. Mais tarde, ao estudar em profundidade as relações rurais na Rússia czarista, relativizou esse determinismo.
Seriam Rosa Luxemburgo e Antonio Gramsci, porém, que aquilatariam a importância daquela literatura extraordinária para a Revolução Russa de 1917 — com a vantagem de terem sobrevivido a ela, ao contrário do filósofo alemão, morto em 1883.
Com a distância de um século e meio, podemos visualizar com mais clareza o peso daquelas reflexões coletivas e individuais na Revolução de Outubro, que alteraria para sempre o curso da história humana, apesar de todas as suas contradições.
Em que momento a humanidade começou a perder a própria humanidade? Como um acervo tão espetacular de pensamento pôde ser desperdiçado, dentro e — principalmente — fora da Rússia?
Em sua autobiografia, publicada pela Fontanar, o papa Francisco cita Albert Einstein a propósito da permanência das guerras e dos conflitos armados:
“Estimo tanto a humanidade a ponto de estar persuadido de que esse fantasma maléfico teria desaparecido muito tempo atrás se o bom senso dos povos não fosse sistematicamente corrompido […] pelos especuladores do mundo político e do mundo empresarial.”
Francisco responde à questão com outra citação, não menos contundente:
“Quando perguntaram a Liliana Segre — senadora vitalícia da República Italiana, que tinha 13 anos quando foi deixada em Auschwitz junto com os avós e o pai, a quem nunca mais viu — qual palavra deveria ser inserida na plataforma 21 da estação ferroviária de Milão, da qual partiam os trens para os campos de concentração nazistas, ela não teve dúvida: ‘Indiferença’. Ninguém havia pensado nessa palavra. Mas foi na indiferença covarde de tantos que se consumou o massacre de ao menos 15 milhões de pessoas, e muitas vezes é no silêncio e em nossa indiferença globalizada que se cumprem os massacres de hoje.”
Não é a indiferença que nos faz passar reto por alguém que busca alimento no lixo? Não é ela que nos faz calar quando um candidato à Presidência condecora o chefe do Escritório do Crime no Rio de Janeiro, Adriano da Nóbrega, posteriormente morto em circunstâncias que alimentaram suspeitas de queima de arquivo? Não foi esse mesmo candidato que, ao empregar a mãe e a ex-mulher daquele assassino, fez o contribuinte fluminense pagar os salários delas?
Sim, nossa indiferença mata. A cumplicidade mata. E o silêncio pode ser mortal.
Ainda nas palavras de Francisco: “A liberdade também é risco”.
Não há gesto heroico que não envolva risco. Não foi assim na Revolução Russa, na Revolução Cubana, na resistência vietnamita e, mais recentemente, na resistência iraniana?
Ao enfrentar o dragão da injustiça e da iniquidade, somos confrontados por forças poderosas. O temor que elas inspiram, no mais das vezes, nos induz à indiferença e à inação.
Acovardamo-nos diante do medo da violência física, moral ou psicológica. Não nascemos covardes: somos induzidos à covardia pelo medo.
Como escreveu São João: “No amor, não há medo; pelo contrário, o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo implica castigo”.
No amor, portanto, não cabe indiferença — seja diante das injustiças individuais, seja diante das coletivas. Num mundo marcado pela violência, pela injustiça e pela iniquidade, derrotar a indiferença, nas urnas e nas ruas, tornou-se uma necessidade absoluta.
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