Fora da Faria

Uma coluna de negócios focada na economia real.

Fora da Faria

A gangorra macabra de juros altos e produtividade baixa

Como falar seriamente em competitividade e produtividade com uma Selic nesse nível?

A gangorra macabra de juros altos e produtividade baixa
A gangorra macabra de juros altos e produtividade baixa
Foto: José Cruz/ Agência Brasil
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O novo recuo do Brasil nos rankings internacionais de produtividade expõe um problema estrutural que precisa ser enfrentado: produzir menos do que podemos, com um custo mais elevado e sob um regime de juros que funciona, na prática, como um imposto sobre o investimento e o emprego. É hora de olhar para o quadro maior: uma economia que perde posições em eficiência enquanto mantém uma das taxas básicas de juros mais altas do mundo também perde oportunidades de empregos e renda.

Os rankings de produtividade – elaborados por organismos como a Organização Internacional do Trabalho (OIT), em que o Brasil ocupa a 94ª posição global – mostram o País sistematicamente na parte de baixo da tabela. Em diferentes levantamentos recentes, aparece da metade para trás, muitas vezes abaixo de outros emergentes com renda similar e até de nações mais pobres em renda per capita mas mais eficientes na relação entre trabalho, capital e tecnologia. Em termos simples: enquanto outras economias aprendem a produzir mais com o mesmo esforço, o Brasil patina.

Essa baixa produtividade tem implicações diretas para a indústria nacional. A competição hoje não é apenas com o vizinho, mas com cadeias globais integradas, que combinam logística eficiente, sistemas tributários menos caóticos, infraestrutura adequada e, sobretudo, crédito barato para financiar tecnologia e inovação. A indústria brasileira, por outro lado, opera sobre uma base de custos distorcida: tributos complexos, gargalos logísticos e uma taxa básica de juros que, em pleno 2026, continua em patamar de dois dígitos, em 14,25% ao ano. Isso significa que qualquer projeto de investimento de longo prazo parte com um “pedágio” financeiro que poucos conseguem pagar.

Em uma coluna de negócios, é impossível fugir dessa pergunta: como falar seriamente em competitividade e produtividade com uma Selic nesse nível? Juros tão altos encarecem o capital de giro das empresas, tornam financiamentos de máquinas e equipamentos proibitivos e desestimulam projetos de expansão e inovação. O resultado é conhecido no chão de fábrica: linhas de produção que não se modernizam, automação adiada, tecnologia que chega atrasada e produtividade estagnada. A questão é se vale a pena investir em produção diante do custo do dinheiro.

Os efeitos se espalham pelo mercado de trabalho e pela renda. Com o crédito caro, empresas reduzem ou adiam investimentos, cortam turnos, freiam contratações e enxugam quadros. Menos investimento hoje significa menos produtividade amanhã, menos empregos de qualidade e salários mais baixos no futuro. A política monetária, que deveria ser um instrumento para estabilizar preços, acaba se transformando em um freio permanente sobre a atividade produtiva. Na prática, o País troca crescimento, empregos industriais e inovação por um conforto financeiro de curto prazo na rolagem da dívida pública e na remuneração de aplicações financeiras.

Do ponto de vista da indústria, o recado é claro e preocupante. Em um mundo em que os competidores financiam suas fábricas com juros reais baixos, o Brasil continua exigindo que o empresário pague taxas dignas de economias instáveis para investir em máquinas que só se pagam em muitos anos. Nesse ambiente, não surpreende que as empresas optem por sobreviver, e não por ousar. O horizonte de planejamento encolhe, a aposta em novos produtos diminui e a porta para a concorrência externa se escancara: quem chega de fora, produzindo com crédito barato e escala global, naturalmente leva vantagem.

Uma política macroeconômica que aceita juros estruturalmente elevados não é neutra para a produtividade: ela a corrói. Ao encarecer o investimento e reduzir o ritmo de modernização da economia, o país consolida uma posição desastrosa no ranking de produtividade, ao mesmo tempo em que vê a indústria perder participação no PIB. O resultado é um Brasil que trabalha muito, mas rende pouco. Um país que paga caro pelo dinheiro e investe pouco em futuro.

Taxas de juros elevadas são a fórmula de controle da inflação. Mas também formam uma armadilha que empurra o País para a estagnação, a renda para uma seara obscura e a perspectiva para um tanque de areia movediça. E um sonho de que se não nos movermos, nada de grave acontecerá.

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