Presley Vasconcellos

Economista, mestre em Economia e criador de conteúdo nas redes sociais (@eupresley), onde traduz economia, finanças e investimentos de forma didática, popular e acessível.

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PIB em crescimento, mas para quem? 

Por que não sentimos o crescimento econômico aumentar também o nosso bolso? 

PIB em crescimento, mas para quem? 
PIB em crescimento, mas para quem? 
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
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O PIB brasileiro cresceu 1,4% no segundo trimestre de 2026, impulsionado pelo consumo das famílias, agronegócio, indústria extrativa e pelo desempenho do setor de serviços. No entanto, se observar mais a fundo, o que mais se vê são pessoas reclamando que a ida ao mercado se tornou quase tão assustadora quanto dois homens em cima de uma moto numa rua escura. O Brasil cresce, mas é um crescimento que, quase ironicamente, parece ter alergia ao andar de baixo.

Enquanto os relatórios do Banco Central são emitidos acima da expectativa da entidade “mercado”, o IPCA de alimentos segue pressionando o orçamento de quem gasta a maior parte da renda na mesa. De imóvel até carne bovina, a classe média brasileira tem dificuldade para fazer coisas que são sinais de prosperidade: o consumo cotidiano e a construção de patrimônio. 

A alimentação em casa subiu 1,65%, com influência de itens básicos da mesa do brasileiro como a batata-inglesa (+44,69%), o tomate (+20,62%) e a cebola (+16,80%), de acordo com o IBGE.  A taxa Selic, mantida em patamares restritivos, opera como uma âncora que trava o crédito para pequenas e médias empresas. Não se compra imóvel, não se amplia negócio, não gera empregos e não se cria renda. Ao se deparar com a euforia dos dados do crescimento do PIB, percebe-se que entre os números agregados esconde-se a desigualdade.

Quando o crescimento é puxado por setores que concentram capital e dependem de tecnologia importada ou preços internacionais de commodities, o “efeito transbordamento” na ponta não dá nem para o cheiro. O dinheiro entra no país se concentrando nas planilhas de poucos computadores e raramente se converte em emprego de qualidade ou aumento real do salário para quem está na base. Isso não acontece por acaso.

Celso Furtado, em obras como Formação Econômica do Brasil, nos ensinou que o subdesenvolvimento não é uma etapa anterior ao desenvolvimento, mas uma estrutura que se retroalimenta. Ou seja, exportamos soja e minério de ferro, investimos em educação superior, criamos profissionais qualificados por décadas que, quando saem para o mercado de trabalho, se deparam com uma base industrial e produtiva incapaz de absorver a mão de obra com salários dignos. É o mecanismo perfeito para que continuemos sendo um grande fazendão com wi-fi. 

O crescimento econômico não é uma orquestra em harmonia ou um passeio no parque… é uma briga de foice. Sem uma intervenção que direcione o crédito e a política industrial para o mercado interno a fim de proteger quem entra nesta briga usando garfo, a rentabilidade do setor financeiro especulativo acaba prevalecendo sobre a força de quem realmente produz, gera emprego e renda na economia real. 

Diferente do que fora prometido, o bolo cresce, mas não é repartido – talvez uma frase familiar para muitos. O endividamento das famílias brasileiras atinge quase 80% dos lares e mostra que o consumo atual não é reflexo de prosperidade ou otimismo, mas de sobrevivência financiada em 12x sem juros. A reforma tributária, que tanto prometeu, ainda patina na necessidade de uma tributação progressiva sobre o patrimônio e lucros, enquanto o peso do consumo sobre os mais pobres continua desproporcional.

Para o Brasil se desenvolver de verdade, é preciso investimento em política industrial que não apenas absorva a mão de obra qualificada gerada pelo acesso à educação, como também traga base sólida para promover autonomia e independência tecnológica. Enquanto a concentração de capital escolher a música, o crescimento continuará distante.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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