Do Micro Ao Macro
Reforma tributária esconde desafios além do cálculo de impostos
Especialistas apontam que mudança no sistema fiscal vai exigir ajustes em tecnologia, fluxo de caixa, contratos e gestão de pessoas
O debate sobre a reforma tributária ainda gira, em boa parte, em torno de alíquotas e obrigações fiscais. Mas especialistas ouvidos por CartaCapital apontam que a adaptação das empresas brasileiras vai além da conta de impostos e deve afetar tecnologia, fluxo de caixa, integração de sistemas, contratos e gestão de pessoas.
Para profissionais de diferentes áreas, o período de transição entre o modelo atual e o novo sistema tributário exige planejamento que ultrapassa o departamento fiscal e passa por times de tecnologia, finanças e recursos humanos.
Operações internacionais pedem mais integração
Empresas com atuação internacional, importação de serviços ou operações digitais devem sentir o peso da mudança na integração entre sistemas fiscais, financeiros e operacionais. Durante a transição, regras antigas e novas vão funcionar ao mesmo tempo, o que exige cuidado redobrado no tratamento de notas fiscais, cálculo de tributos e conciliação de dados entre plataformas e países diferentes.
Lisandro Vieira, CEO da WTM, empresa que atua com operações internacionais e apoio à internacionalização de companhias de tecnologia, afirma que parte das empresas trata a reforma apenas como um tema jurídico. “Empresas com operações internacionais vão precisar de integração maior entre dados fiscais, financeiros e comerciais. O desafio envolve calcular tributos, mas também garantir rastreabilidade, compliance e consistência entre sistemas e jurisdições”, diz.
Segundo o executivo, a transição deve cobrar investimento em automação fiscal, revisão de processos e adequação de ERPs. “A reforma deve acelerar uma agenda que muitas empresas tratam como secundária: automação fiscal e governança de dados. Na importação de serviços digitais, o risco está em não conseguir comprovar e rastrear corretamente cada etapa da operação”, completa Vieira.
Reforma pressiona contratos e margens
A mudança no sistema tributário também deve forçar revisão de contratos e margens. Caroline Aun, head administrativo-financeira da Mirante Tecnologia, avalia que o erro mais comum é tratar a reforma como assunto restrito à área fiscal. “A reforma altera a forma de calcular impostos, mas também pede revisão de contratos, ajuste de preços e reavaliação de margens”, afirma.
Para Caroline, parte das empresas opera com baixa integração entre as áreas financeira, fiscal e tecnológica, o que pode ampliar riscos durante a adaptação. “Quando a liderança acompanha dados de custos e margens de forma integrada, fica mais fácil ajustar contratos e decisões”, diz. “Empresas que deixam a adaptação para a última hora tendem a ter custos mais altos e mais risco operacional”, completa a executiva.
Fluxo de caixa sente impacto do split payment
Outro ponto de atenção está no fluxo de caixa, em especial com a chegada do split payment. Israel Malheiros, sócio e COO da Vertrau Tecnologia, explica que o imposto passa a afetar o fluxo financeiro no momento da liquidação. “Isso exige revisão de processos de cobrança, conciliação financeira e integração entre sistemas fiscais e financeiros”, afirma.
Segundo Malheiros, empresas com estruturas fragmentadas podem perder eficiência durante a adaptação ao novo modelo. “O desafio será ter uma infraestrutura capaz de conectar dados fiscais, financeiros e operacionais de forma automatizada e auditável”, diz.
Gonzalo Parejo, CEO da Kamino, plataforma de gestão financeira para médias empresas, reforça o alerta sobre falta de visibilidade do caixa. “O desafio será manter a previsibilidade financeira em um ambiente onde parte dos recursos deixa de passar integralmente pela empresa, o que pede acompanhamento mais rápido sobre o impacto financeiro das operações”, afirma Parejo.
Sistemas antigos travam adaptação
Parte das empresas ainda depende de sistemas com pouca padronização de dados, o que deve dificultar a rastreabilidade exigida pela reforma. Raquel Coser, diretora de ERP da Zucchetti no Brasil, multinacional italiana de sistemas de gestão, afirma que dados descentralizados tendem a complicar a consistência das informações. “Empresas com dados descentralizados ou pouca padronização tendem a enfrentar mais dificuldade para garantir consistência e segurança das informações”, diz.
Para Frederico Matias, CFO da Triven, o convívio entre tributos atuais e futuros, somado ao split payment, será o ponto mais sensível da transição. “Será preciso garantir que os sistemas operem em ambiente de fiscalização em tempo real, sem inconsistências em cadastros ou parametrizações fiscais”, afirma. “Sem automação e governança de dados, as empresas podem enfrentar bloqueios fiscais e perda de créditos tributários”, completa Matias.
Gestão de pessoas entra na conta da reforma
Embora a maior parte do debate fique em tecnologia e fiscal, a reforma deve afetar também a gestão de pessoas. A transição amplia a demanda por profissionais preparados para lidar com rotinas novas e integração entre áreas fiscal, financeira, tecnológica e operacional.
Bruno Cortez, CEO da Elofy, plataforma de gestão de desempenho e jornada de trabalhadores, diz que empresas que investirem desde já em tecnologia e capacitação de equipes devem atravessar a mudança com menos dificuldade, considerando que regras antigas e novas vão coexistir nos próximos anos. “Tecnologias de gestão vão dar visibilidade à adaptação dos times e ao alinhamento entre áreas que precisarão trabalhar de forma mais conectada durante a transição”, afirma Cortez.
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