Augusto Diniz | Música brasileira
Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.
Augusto Diniz | Música brasileira
Em grande disco, Juliana Linhares faz do cansaço matéria de invenção
O novo disco da cantora potiguar é um dos grandes lançamentos do ano
Havia uma expectativa imensa para o lançamento do segundo trabalho solo da potiguar Juliana Linhares. O primeiro, Nordeste Ficção (2021), havia deixado uma impressão muito positiva.
Quando estreou em carreira solo, Juliana já não era exatamente uma promessa: vinha chamando atenção à frente da banda Pietá e também construía uma trajetória consistente no teatro. Com Nordeste Ficção, provou que poderia sustentar, sozinha, um projeto autoral de fôlego.
Agora, com Até Cansar o Cansaço, Juliana dá um passo adiante. O álbum é espetacular e já se impõe como um dos grandes lançamentos do ano.
Se Nordeste Ficção investigava os clichês construídos sobre a região, Até Cansar o Cansaço nasce de um lugar mais íntimo. A cantora esbanja talento como intérprete e compositora, mas também como narradora de si mesma.
“Foi um disco atravessado pelo meu emocional, diferente de Nordeste Ficção, que tem uma história da relação do Brasil com o Nordeste na questão política, social e artística”, explica ela, em entrevista a CartaCapital.
O ponto de partida foi o esgotamento acumulado depois de uma longa temporada de shows, viagens e compromissos em torno do disco anterior.
“Não sou filha de gente rica nem com herança. Então, quando a oportunidade veio, trabalhei muito. Era a oportunidade de crescer”, ressalta.
A artista levou o repertório para diferentes cantos do País e também para fora dele. “Fui para tudo que é canto desse país. Fui bater na China com Nordeste Ficção. Só que, claro, fiquei cansada. O cansaço emocional de lidar com muita coisa nessa falta de tempo foi muito forte. Falei muito de cansaço com meus amigos. Isso virou um tema para mim.”
Dessa exaustão surgiu o eixo do novo trabalho. Juliana decidiu fazer do disco não uma rendição ao cansaço, mas uma espécie de enfrentamento.
“É um disco que chorei muito para fazer do início ao fim. É um disco de emoção. Mas é também um disco de sonho”, ressalta. O sonho, segundo ela, aparece no sentido proposto pelo neurocientista Sidarta Ribeiro: não como fuga, mas como força construtiva.
Juliana Linhares reconhece que havia uma pressão e expectativa grande para gravar o segundo disco, mas que buscou incessantemente uma narrativa que a satisfizesse: “Tive muito cuidado”.
De fato, o trabalho é aplicado e revela a luz de uma cantora sensível, expressiva e profunda, uma das melhores de sua geração. A produção de Até Cansar o Cansaço é de Juliana Linhares e Elísio Freitas, com Marcus Preto na concepção artística.
Assista à entrevista completa a CartaCapital:
Faixa a faixa
A faixa-título, composta por Juliana em parceria com Jef Lyrio, condensa esse conceito logo nos versos de abertura: “Vamos dançar até cansar o cansaço/ Até que vire do avesso/ Até um novo começo”.
A matriz nordestina atravessa as 11 faixas do álbum. Depois da faixa-título, que abre o disco, vêm Depois do Breu, parceria de Juliana com Rafael Barbosa, e Tanto Buliço, composta com Khrystal e gravada com participação de Agnes Nunes. São duas canções luminosas, marcadas por certa esperança que não ignora o peso do mundo, mas se recusa a sucumbir a ele.
Na sequência, aparece a belíssima Emaranhada, de Juliano Holanda. Juliana conta que o compositor escreveu a canção para ela. “Me sinto honradíssima”, diz.
Logo depois, Anastácia, a Rainha do Forró, divide os vocais com Juliana no ótimo baião Vida Virada, parceria da cantora com Josyara e Elísio Freitas.
Em Tempos Temporais, composição de Juliana com Juliano Holanda, o álbum alcança um de seus pontos mais altos. A interpretação da cantora é intensa, quase confessional, amparada pela sanfona exuberante de Bebê Kramer e pelo violão preciso de Elísio Freitas. A faixa é uma das mais belas canções lançadas este ano.
“Tempos Temporais tem a ver com travessias pessoais, meus sentimentos que estavam batendo no meu coração”, explica.
Em Mistério do Óbvio (Luiz Gabriel Lopes), Juliana canta com Ney Matogrosso em um registro enigmático.
Na parte final do álbum, a cantora explicita algumas de suas referências. Ela revisita O Rabo do Jumento, de Elino Julião, Conseguiram, Parabéns, de Manduka, e A Palo Seco, de Belchior.
“O Rabo do Jumento meu pai cantava para mim”, lembra Juliana. Ela destaca a originalidade e o humor da obra de Elino Julião, também potiguar. Sobre Belchior, afirma que, ao cantar A Palo Seco, sente a força de resistência presente na canção de um artista nordestino que também conheceu a experiência da marginalização.
O álbum se encerra como uma oração cantada: Futuro (Novos Erros) + Oração pro Sonho, faixa composta por Juliana e Carlos Posada. A gravação conta com a participação da mãe, da avó e da madrinha da artista. “Três mulheres de fé”, diz. “Fiquei pensando como fazer uma oração que desse esperança.”
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