Ricardo Pieralini

Ricardo Pieralini é escritor. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2024.

Colunas

Que os livros invadam as missas, os cultos e até as escolas

Não é coincidência a queda dos livros e a subida de uma figura abjeta como Donald Trump

Que os livros invadam as missas, os cultos e até as escolas
Que os livros invadam as missas, os cultos e até as escolas
Foto: Nilton Fukuda
Apoie Siga-nos no

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.

Quem escreveu o parágrafo acima foi Jorge Luis Borges, o genial argentino que é um dos pais do realismo fantástico. O trecho faz parte do ensaio “O Livro”, que deveria ser obrigatório em todas as aulas nas escolas e faculdades, em missas, cultos e afins, mesmo nas celebrações de casamentos e festivais de música e carros de som e supermercados e farmácias e salões de beleza. Muitos livros, não apenas Borges.

Sim, o livro é isso tudo e se você duvida, camarada, é porque tem passado distante da literatura. O caminho de sua vida provavelmente será uma linha reta e míope.

Livros são objetos perigosíssimos. Eles têm o poder de transformar um cara como o Wesley Barbosa, que nasceu no fundão de São Paulo com muita probabilidade de seguir pela trilha errada, em um escritor relevante, uma mente agitada, criativa, que tem transformado a periferia da cidade com, veja só, seus livros. Se você não conhece o Wesley, pare de ler e vá comprar os livros dele, siga-o nas redes sociais.

Livros são objetos perigosíssimos. Eles transformam um poeta chamado Eduardo Lacerda em um editor que batalha arduamente para lançar livros independentes por sua Patuá, que não come nem dorme direito, mas expande a literatura com as centenas de obras que lança todos os anos. Recentemente, n’A Feira do Livro, em São Paulo, Eduardo passou duas semanas movido a café, conversas e leituras. Saiu do evento com milhares de títulos vendidos, autores realizados e, mais importante, muitos novos leitores formados.

Livros são objetos perigosíssimos. Moro em uma cidade do interior de São Paulo com cerca de 40 mil habitantes e leitura por aqui é quase um palavrão. Não é culpa das pessoas, mas de uma cultura que transforma obras em raridades e de um tempo que faz a atenção ser tratada como esforço máximo. E veja: é uma cidade com vocação literária. O patrono é um poeta, Gustavo Teixeira, a praça tem o nome dele, há um museu espetacular e uma biblioteca linda, mas com pouquíssimo uso. Enfim, aqui nesta cidade reside minha filha, uma pessoa de 13 anos que tem o hábito subversivo de ler todos os dias. Aí vem o perigo, porque a melhor amiga dela dizia que ler era chato, mas achava bonito ter ao lado minha filha com um livro nas mãos. Tem seu charme. Pois hoje essa amiga dela se tornou uma leitora engajada, devoradora de páginas, e se abriu todo um universo para pensamentos e assuntos.

Livros são perigosos, mas minguam. Dados recentes mostram que o hábito da leitura despencou mais de 40% nos últimos 20 anos nos Estados Unidos e mantém um recuo anual de cerca de 3%. Não é coincidência a queda dos livros e a subida de uma figura abjeta como Donald Trump.

Aqui no Brasil, uma pesquisa do Instituto Pró-Livro (“Retratos da Leitura no Brasil”) aponta que há mais não-leitores do que leitores. Outro estudo (“Panorama do Consumo de Livros”) diz que 18% da população com 18 anos ou mais adquiriu ao menos um livro nos últimos 12 meses.

Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto ao livro.

Quem diz isso também é Borges. E ele é um gênio que deveria, como tantos outros autores e autoras, estar em escolas e igrejas e festas e pontos de ônibus e padarias e, por que não, de forma diária em todas as escolas deste nosso país. Alguém do MEC está lendo isso?

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

2026 já começou

Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.

Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.

Assine ou contribua com o quanto puder.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo