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Tormenta à vista

O Brasil corre contra o tempo para reforçar as ações de prevenção diante da chegada do Super El Niño

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Alerta. Nos últimos anos, as inundações no Rio Grande do Sul e os incêndios na Amazônia deram uma amostra do potencial de destruição do El Niño, que promete se manifestar com intensidade ainda maior neste ano, segundo diversos institutos climáticos – Imagem: Gustavo Vara/Prefeitura de Pelotas e Marcelo Carnaval/Agência Brasil
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O Brasil mal se recuperou das sequelas deixadas pelo El Niño, que nos últimos anos provocou secas severas na Amazônia, graves incêndios florestais no Cerrado e enchentes históricas no Sul do País, e já se depara com a ameaça de uma versão intensificada desse fenômeno natural, que ocorre em consequência do aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico, desde a Austrália até a costa da América do Sul, capaz de alterar os padrões de temperatura e de chuvas em diversas partes do planeta. Indicadores dos centros climáticos da Europa (ECMWF), Estados Unidos (NOAA) e Austrália (BOM) revelam que o El Niño tem potencial para superar os índices registrados em 1877/1878, um dos mais severos da série histórica.

No Brasil, na Região Sul, especialmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, cresce o temor de novas enchentes em uma área ainda marcada pela tragédia de maio de 2024. Na Amazônia e no Cerrado, a redução das chuvas e o aumento das ondas de calor podem criar condições favoráveis à propagação de incêndios florestais, repetindo um cenário trágico que se tem tornado cada vez mais frequente nos últimos anos. No Nordeste, a seca, tão massacrante para o território, poderá ser ainda mais intensa e, no Sudeste e no Centro-Oeste, o clima seco e as ondas de calor tendem a piorar.

Diferentemente de anos anteriores, o Brasil começa a se preparar para o El Niño, que deve chegar ao País neste segundo semestre, ganhando força a partir da primavera e atingindo o auge no fim do ano e no primeiro semestre de 2027. “O aquecimento máximo deve ocorrer no verão, entre dezembro e janeiro. Depois, diminui até se dissipar em maio ou junho do próximo ano”, explica o climatologista e pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), José Antônio Marengo Orsini.

Desde o início do ano, o País ligou o sinal de alerta. Em fevereiro, a então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, assinou uma portaria decretando estado de emergência ambiental em algumas regiões do País, obrigando estados, municípios e órgãos federais a criarem programas específicos para mitigar os efeitos do El Niño. Em maio, o Supremo Tribunal Federal cobrou do governo Lula e dos estados mais atingidos pela última edição do fenômeno a apresentação de um plano de trabalho para conter os impactos do evento. Por parte do governo federal, a resposta está sendo construída pela Advocacia-Geral da União e pela Casa Civil, em diálogo com outras pastas.

O temperatura do Pacífico pode ficar 2 graus acima da média habitual, favorecendo os desastres climáticos

Como parte da estratégia, na segunda-feira 15, o governo federal publicou uma Medida Provisória com um crédito extraordinário de 337,5 milhões de reais para reforçar ações de prevenção e combate a incêndios florestais e de fiscalização ambiental. O valor se soma a pouco mais de 1 bilhão previsto para o combate a incêndios florestais ao longo de 2026.

“Já temos disponíveis 1,023 bilhão de reais para o enfrentamento dos incêndios florestais em 2026, um valor recorde e 28% superior ao do ano passado”, afirma João Paulo Sotero, diretor de Políticas de Controle do Desmatamento e Incêndios do Ministério do Meio Ambiente. O montante representa um salto expressivo em relação a 2022, último ano do governo Bolsonaro, quando foram destinados 337 milhões para essa finalidade.

Segundo Sotero, o orçamento federal voltado ao combate aos incêndios florestais vem crescendo de forma contínua: 430 milhões de reais em 2023, 627 milhões de reais em 2024 e 799 milhões de reais no ano passado. Além disso, o governo federal destinou quase 600 milhões de reais do Fundo Amazônia aos Corpos de Bombeiros dos estados mais vulneráveis, para a capacitação de brigadistas e a aquisição de equipamentos de atuação na Amazônia Legal e no Cerrado, com atenção especial ao Pantanal. Em maio, o ministro João Paulo ­Capobianco participou, em Brasília, de uma cerimônia de entrega de cerca de cem veículos e equipamentos de combate ao fogo para Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, Bahia, Piauí, Distrito Federal e a Força Nacional.

O reforço faz parte da estratégia do governo de não apenas ampliar a capacidade de resposta a eventos extremos, mas também de fortalecer ações preventivas. Trata-se de uma mudança de enfoque em relação ao que predominou nos últimos anos, quando a maior parte dos recursos públicos foi destinada a medidas emergenciais após a ocorrência dos desastres. Dados do Greenpeace Brasil mostram que, entre 2015 e 2025, o País investiu muito mais em respostas a desastres do que em prevenção. Segundo o estudo, que analisou a destinação de verbas da Lei Orçamentária Anual ao Programa de Gestão de Risco e Desastres, apenas 3,28% dos recursos federais foram aplicados em ações de monitoramento e mitigação de riscos, enquanto 37% foram destinados a ações de defesa civil voltadas à resposta a eventos climáticos já ocorridos.

Prevenção. O ministro interino João Paulo Capobianco está reforçando as equipes de brigadistas na Amazônia – Imagem: Rogério Cassimiro/Ministério do Meio Ambiente

“O governo definiu um planejamento de atuação específico para o El Niño, que prevê reuniões periódicas com as defesas civis estaduais, além da intensificação do monitoramento e do alerta em áreas de maior atenção”, ressalta Tiago Schnoor, coordenador-geral de Gerenciamento de Desastres da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil. “O País conta hoje com boa capacidade de antever situações que possam impactar a população.”

Dois anos após a maior enchente da história, o Rio Grande do Sul também vem se preparando para enfrentar o El Niño. Na quarta-feira 17, o governador Eduardo Leite (PSD) lançou um programa específico para lidar com o fenômeno. A iniciativa prevê a transferência de 32,9 milhões de reais, por meio do Fundo Estadual de Defesa Civil, aos municípios, para aquisição de sistemas de monitoramento, alerta e alarme, obras de drenagem de pequeno porte, sinalização de rotas de evacuação e pontos de encontro protegidos.

“Temos observado tentativas de implementar políticas de adaptação, algo que não existia até pouco tempo atrás. Há um grande contingente de habitantes em áreas de risco, às margens de rios sujeitos a inundações ou em encostas vulneráveis a deslizamentos. Os governos precisam estar preparados para retirar essas populações”, afirma o climatologista Carlos Nobre, da Universidade de São Paulo. “O setor de agricultura também precisa preparar-se e tentar cultivar o mais rapidamente possível, principalmente na Amazônia e no Nordeste, porque uma megasseca leva a uma grande queda na produtividade.”

Neste ano, o governo destinou 1 bilhão de reais para o combate a incêndios florestais

O pesquisador Francisco Aquino, climatologista e diretor do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, reforça que o período mais crítico do El Niño será entre o fim de 2026 e o início de 2027. Segundo ele, o aquecimento das águas do Pacífico tende a elevar as temperaturas no Centro-Norte do País e favorecer chuvas mais intensas na região Centro-Sul. “É por volta de maio de 2027, na fase final do El Niño, quando atingimos o auge do acúmulo de águas mais quentes e do acoplamento entre atmosfera e oceano, que poderemos observar eventos extremos de tempestades e precipitações no Sul do País”, diz.

Para Thaynah Gutierres, secretária-executiva da Rede por Adaptação Antirracista e integrante do Observatório do Clima, os efeitos de um novo El Niño devem levar em conta os problemas estruturais do País. “A gente não pode dissociar a crise climática das desigualdades históricas. As populações em situação de vulnerabilidade enfrentam adversidades severas no dia a dia e, quando ocorre um evento climático extremo, elas se aprofundam. Na iminência de um El Niño de grande intensidade, veremos esses territórios sendo atingidos primeiro e de forma mais dura, justamente porque as injustiças históricas que marcam essas regiões nunca foram efetivamente reparadas”, afirma.

Aquino ressalta que a sociedade precisará aprender a conviver com o fenômeno. “Se o El Niño vem, não há como impedi-lo. O que podemos fazer é nos preparar. Precisamos investir em adaptação e prevenção”, diz. A avaliação é compartilhada por Marengo. Segundo ele, embora o El Niño seja um fenômeno sem relação direta com as mudanças climáticas, seus efeitos tendem a ser potencializados pelo aquecimento global. “Independentemente da intensidade, seus impactos estão se tornando cada vez mais severos.” •

Publicado na edição n° 1418 de CartaCapital, em 24 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Tormenta à vista’

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