Mundo
Em busca de luz
Com longos apagões, sobreviver torna-se uma epopeia
Quando o dia amanhece, as nossas vidas não acompanham. Um amanhecer sem eletricidade paralisa tudo, por isso saímos à procura de luz. Percorremos ruas de um município a outro que compõem a província de Havana em busca de ligação para carregar as baterias esgotadas dos nossos celulares. “Antes não tínhamos celulares, não estávamos, como agora, ligados o tempo todo e éramos felizes. Agora temos os aparelhos, mas estamos incomunicáveis e infelizes”, resume uma amiga. Conversamos animadamente, não parecemos preocupadas nem que tenhamos percorrido longas distâncias desde a periferia, com transportes quase inexistentes, para procurar eletricidade no centro da cidade.
Ninguém, entre aqueles que nos observam, diria que a ausência de energia nos afeta e limita nossas vidas de maneira quase absoluta. Apenas duas ou três horas durante a noite, quando há luz, têm de ser suficientes para satisfazer todas as expectativas pessoais, domésticas e profissionais possíveis, pois nesse curto período a vida parece emergir.
Quando a madrugada desce, lutamos contra a incerteza que nos oprime. É preciso afastar o sono, deixá-lo para mais tarde, porque “ligaram a luz” – o grito da vizinhança celebra a chegada – após um dia inteiro ou mais sem eletricidade.
A falta de energia acarreta escassez de água, o que agrava a falta de higiene e abre caminho para doenças antes erradicadas
Tem início então uma corrida contra o relógio: lavar, cozinhar, carregar os aparelhos, tentar terminar um artigo, concluir a revisão das teses dos estudantes, rever as correções de um projeto, comer, tomar banho, correr, simplesmente correr, pelo filho, pelo pai, pela mãe, pelo avô, por si próprio, acumulada em semanas e semanas de desgaste emocional numa incerteza incalculável que, por mais que tenha sido anunciada, não deixa de ser uma tortura psicológica por tudo o que implica viver sem eletricidade num país que não conseguiu equilibrar os seus padrões de vida.
A opção, na falta de luz, é sair à rua para resolver pendências. Caminham-se longas jornadas pela cidade em busca de ligação. Os dias com um serviço de energia elétrica precário atrasam as soluções. Carina, minha amiga, busca notícias do filho emigrado. Se não sairmos do bairro, ela não terá notícias nem ele poderá confirmar se, enfim, ela conseguirá viajar.
Caminhamos até a Calzada del Cerro, antiga rua sinuosa, em Havana Velha, em busca de opções de mobilidade. A ausência de transportes públicos nos obriga a recorrer a serviços privados, cujos preços são condicionados pelas cotações do dólar no mercado paralelo, que sobe diariamente.
O sistema de saúde em Cuba tem sido um dos setores mais afetados pela crise. Segundo a vice-ministra da Saúde Pública, Carilda Peña García, entre março de 2024 e fevereiro de 2025, o bloqueio elevou as perdas do setor a 288 milhões de dólares, que se somam a 4,1 bilhões acumulados em mais de seis décadas. Mais de 100 mil pacientes aguardam cirurgias.
As limitações têm um impacto direto na aplicação de protocolos médicos, como exames diagnósticos, tratamentos especializados e processos de reabilitação. O problema estende-se para a rede de consultórios médicos e equipe de enfermeiros de família. “É evidente que não vamos conseguir cumprir os objetivos de cuidados previstos para este semestre”, lamenta a vice-ministra.
O racionamento energético afeta os serviços. A população vaga pelas ruas à procura de itens básicos e de formas de se comunicar – Imagem: Yamil Lage/AFP e Adalberto Lage/AFP
Os doentes com insuficiência renal crônica estão inscritos no programa de cuidados. Atualmente, 2.888 cubanos recebem tratamento de hemodiálise. Entre as medidas adotadas para manter o serviço está o aumento da reutilização dos dialisadores, procedimento complexo e instável por força dos apagões. Sonya, uma viúva de 75 anos sem família, conhece bem as dificuldades. Sair de casa para realizar o tratamento numa cidade sem transportes tornou-se uma epopeia que entre a ida e a volta à casa toma um dia inteiro. A precarização do outrora eficiente serviço de saúde pune pacientes e sacrifica médicos, enfermeiros e outros profissionais.
“Alguns dos nossos hospitais não dispõem de elevadores para doentes graves. Para produzi-los em Cuba, é preciso ter matéria-prima. A indústria tem de ter energia, tem de ter água e tem de ter trabalhadores”, sublinha a vice-ministra num programa de tevê.
A falta de energia acarreta escassez de água, o que agrava a falta de higiene geral, abrindo caminho para a volta de doenças desaparecidas da vida social, como a hepatite e a tuberculose. A esse panorama junta-se a precariedade na coleta de lixo, que agrava o quadro epidemiológico nas cidades, nas quais aumentam os casos de dengue, ebola, hantavírus e febre amarela.
“Temos agora 35 horas e 19 minutos ininterruptos sem eletricidade. Onde estás, vida?”, queixa-se uma avó com a netinha. Ela acrescenta: “Enquanto a fome não for a tua fome, nunca compreenderás a gravidade do que vivemos”.
Aos cortes de energia somam-se problemas de transporte e as dificuldades em se garantir a chegada de materiais e recursos básicos para diversas comunidades. Marcia, jovem de 27 anos, vive em função do filho de 6. O menino é autista, diabético e sofre de deficiência de ferro e problemas respiratórios. O marido emigrou para o México e, graças ao que envia, ela pode comprar insulina, ministrada a cada 12 horas, vital para o garoto, a preços cada vez mais altos. O número de mães solteiras em Cuba é elevado. Dara é enfermeira e depende da ajuda da mãe ou dos vizinhos para poder fazer turnos duplos na policlínica em que trabalha. Seu filho Milán, de 1 ano, chora na sua ausência durante os longos cortes de energia.
Enquanto escrevo, não consigo evitar sustos com os silêncios, quando algo deixa de funcionar à minha volta. A primeira reação é olhar para o teto para confirmar se há luz. A tensão apressa os meus toques no teclado, o nervosismo aumenta, mas tenho de continuar. A vida lá fora continua e as vozes dos pregadores dão ânimo à vida.
O governo, por meio da Unión Eléctrica, empresa de energia, organiza subdivisões geográficas por áreas residenciais em seis blocos, na cidade de Havana, com o objetivo de distribuir os horários dos cortes de energia. Isso obriga a população a viver atenta às orientações oficiais.
A situação do setor elétrico reside no fato de todos os canais de abastecimento sofrerem com o cerco patrocinado por Donald Trump. Para piorar, inúmeras centrais termoelétricas atingiram sua plena capacidade de funcionamento e estão desgastadas pela falta de acesso à manutenção ao longo dos últimos anos.
“Enquanto a fome não for a tua fome, nunca compreenderás a gravidade do que vivemos”, afirma uma senhora
Nota da redação: Com o iminente acordo no Irã, o governo Trump volta suas atenções para a ilha. O ministro da Guerra, Pete Hegseth, visitou tropas norte-americanas em Guantánamo, nas proximidades de Cuba. Uma invasão não está descartada.
Há um pensamento médio na população que pode ser resumido na seguinte frase de uma cubana na internet: “Apoiamos todas as declarações do governo sobre a política norte-americana e o bloqueio energético cada vez mais intenso dos últimos meses. Mas e agora? Nós, como povo, queremos e precisamos que vocês nos digam o que fazer”. Há um desabafo geral nas redes sociais. “Pergunto e quero compreender: se ficamos com cortes de energia de até 20 horas por dia, por que as tarifas são cobradas como se tivéssemos todo o tempo? Quando o serviço era melhor, as tarifas eram muito mais baixas”, escreve outro internauta. O que dizer desta outra mensagem? “As pessoas no bairro de Santos Suárez (município de 10 de Outubro, próximo a Havana) só têm três horas de eletricidade ao dia. A população, exausta, esgotada, mal alimentada e em más condições de vida, reclama com o pouco ânimo que lhe resta de dois governos em confronto, o dos Estados Unidos e o de Cuba.”
O custo social pago por um país que parece ter perdido o rumo, que vive sob assédios e ameaças constantes, é elevado, em especial na juventude. Julio González Pagés, da Rede Ibero-Americana de Masculinidades, grupo de ativistas sociais contra a violência de gênero e homofobia, publicou recentemente em suas redes: “O acompanhamento (…) de suicídios de homens cubanos registou, em maio, mais de 20 casos e, em junho, nos primeiros 11 dias, já se contam nove. Recorde-se que Cuba é o segundo país da América Latina com a maior taxa de suicídios, apenas superada pelo Uruguai. Os jovens estão cada vez mais expostos às drogas, à delinquência e aos crimes. A economia de um país pode melhorar, mas a deterioração social demora muito mais tempo a se recuperar”.
As carências acarretam todos os tipos de ações que oscilam entre os extremos, das mais cruas e dolorosas às mais promissoras. A partir de um dos bairros centrais da capital, um dos endereços gastronômicos mais emblemáticos, o Restaurante-Bar La Torre, situado no topo do icônico Edifício Focsa, deu início no fim da primeira quinzena de junho a um ciclo de refeições preparadas para a comunidade a preços acessíveis.
O governo não tem deixado de buscar soluções e a população procura resistir a partir do coração dos seus bairros e comunidades, com solidariedade de porta em porta. Com a possibilidade de se melhorar a geração de energia por meio de parques solares fotovoltaicos em construção, o ministro de Energia e Minas, Vicente Levy, mostra realismo: “Isto não significa que os cortes de energia vão ser totalmente eliminados. Trata-se de um processo gradual, dispendioso, um processo de investimento em que se vê, de fato, a luz ao fundo do túnel”.
Assim vivemos em Cuba, superando muros, escassez de água, comida, remédios, eletricidade e todo tipo de limitação que desacelera a vida, e procurando uma forma de não paralisar o curso dos eventos socioculturais que possam incentivar o fio do cubano que não para de sorrir e continua tão inquebrável quanto suas palmas reais, a árvore nacional. O cubano tem a linhagem de um guerreiro, e sempre, sob qualquer circunstância, estamos e estaremos em busca de luz. •
*Jornalista, historiadora e documentarista cubana.
Publicado na edição n° 1418 de CartaCapital, em 24 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Em busca de luz’
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