Cultura
Zeca Baleiro a todo vapor
Para celebrar os 60 anos, o cantor e compositor, que lançou cinco álbuns em 2026, prepara dois livros autobiográficos
Depois de um show em Santa Cruz do Sul, cidade do Rio Grande do Sul em que Belchior vivia recluso, longe do público e da mídia, Zeca Baleiro decidiu ir à casa do colega. No encontro, tentou convencê-lo a voltar a gravar um disco, oferecendo seu estúdio em São Paulo. Não teve sucesso.
Baleiro foi o último artista do primeiro time da música brasileira a encontrar-se com Belchior. O artista cearense manteve-se isolado naquela cidade até morrer, em 2017. À época do encontro, pediu ao colega maranhense que não divulgasse seu paradeiro.
Esta é uma das histórias contadas pelo cantor e compositor em A Casca no Caibro, autobiografia a ser publicada em julho, de forma independente, por sua própria editora, a Ponto de Bala. Em seguida, será lançado outro livro, no qual relata o burnout que o acometeu há dez anos.
“Tive um apagão por excesso de trabalho. Fui fazer tratamento, um quase retiro, porque artista proletário não pode se dar ao luxo de não fazer show – eu fazia tomando antidepressivo”, conta em entrevista a CartaCapital.
Os dois livros fazem parte das realizações do cantor e compositor para marcar seus 60 anos, completados em abril. Nesse mês, ele lançou o projeto Zeca 60, uma revisitação de sua obra em 60 canções divididas em quatro álbuns.
Em maio, ele apresentou um novo disco, dessa vez em dupla com o baiano Vicente Barreto, uma de suas referências musicais, intitulado Sembal.
O músico acredita que a autobiografia tenha “uma postura bem honesta”. Diz isso, muito provavelmente, porque trata de forma aberta do período em que vivenciou o consumo excessivo de álcool e drogas. Mas não só. Há muito de íntimo em seu texto.
Um desses momentos íntimos recupera o início dos anos 1990, quando o artista saiu do Maranhão, acompanhado de sua companheira, para vir morar em São Paulo. Pouco mais de um ano depois de terem chegado à nova cidade, ela morreu de câncer.
Baleiro tinha então 25 anos. Estava tentando deslanchar a carreira musical na capital paulista e teve de atravessar o sofrimento com a doença e a perda distante da família.
Não muito tempo depois da morte da companheira, passou a dividir uma casa com o paraibano Chico César. Naquele momento, entre 1993 e 1995, Chico também buscava espaço na música. Os dois construiriam uma forte amizade.
Foi apenas em 1997, aos 31 anos, que Baleiro lançou seu primeiro disco solo: Por Onde Andará Stephen Fry? Em 1999, veio o segundo, Vô Imbolá. Os dois trabalhos ganharam repercussão com os sucessos Bandeira, Flor da Pele, Mamãe Oxum, Lenha e Samba do Approach – todas composições do próprio cantor.
Nesses álbuns, Baleiro imprimiu seu estilo em uma geração da qual também fazem parte Cássia Eller, Lenine e Marisa Monte, que foi marcada pela junção de influências da tradição popular, da bossa nova, do tropicalismo e do rock aliadas à modernidade.
Baleiro atribui a mistura de gêneros ao fato de a sua geração ter ouvido de tudo quando ainda era muito jovem: “As rádios tocavam de Led Zeppelin a Luiz Gonzaga”.
Os álbuns Líricas (2000), considerado melancólico, mas profundo, e Baladas do Asfalto e Outros Blues (2005), um trabalho reflexivo, firmariam seu reconhecimento como um cantor e compositor versátil.
“Compor se tornou um trabalho ingrato. A gente tem de bancar a gravação e, depois, o retorno financeiro do disco é zero”
O Disco do Ano (2012) também é considerado inspirado. Já Canções d’Além Mar (2020), com obras de autores portugueses, rendeu-lhe o Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Popular.
O recente trabalho em dupla, com Vicente Barreto, reproduz algo que se tornou constante na carreira do compositor nos últimos anos: os duos.
Em 2022, ele lançou um disco com Vinicius Cantuária; em 2024, com Chico César e, depois, com Wado. As parcerias, segundo o músico, têm muito a ver com a pandemia: “Ela me aproximou mais das pessoas”.
Outro disco em dupla, O Céu de Giz (2025), foi marcado por uma perda. Baleiro foi convidado pelo mineiro Lô Borges, seu ídolo do Clube da Esquina, para que os dois compusessem juntos as dez faixas – dessas, cinco foram gravadas pelos dois, e cinco apenas por Borges.
O plano era fazerem, também juntos, uma turnê do disco. Três meses depois do lançamento, no entanto, Borges morreu.
Na conversa com CartaCapital, ele lembra que, antes de se mudar para São Paulo, passou um ano em Belo Horizonte. O que o levou à cidade foi, justamente, a atração que o som do Clube da Esquina exercia sobre ele.
Baleiro achava que, frequentando a cena mineira, talvez conseguisse absorver a potência musical do grupo liderado por Milton Nascimento. “No fim, 40 anos depois, me tornei parceiro do Borges”, reflete.
Um novo disco autoral é algo que Baleiro não descarta nem promete – diz ser algo que, hoje, pensa duas vezes antes de se envolver.
“A gente faz mais para mostrar trabalho, dizer que está ativo”, afirma. “Compor se tornou um trabalho ingrato. A gente tem de bancar a gravação e, depois, o retorno financeiro do disco é zero, porque o que as plataformas pagam é irrisório.” •
Publicado na edição n° 1418 de CartaCapital, em 24 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Zeca Baleiro a todo vapor’
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