Drauzio Varella

drauzio@cartacapital.com.br

Médico cancerologista, foi um dos pioneiros no tratamento da AIDS no Brasil. Entre outras obras, é autor de "Estação Carandiru", livro vencedor do Prêmio Jabuti 2000 na categoria não-ficção, adaptado para o cinema em 2003.

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Longevidade e metformina

Boas práticas alimentares e atividade física são mais eficazes na prevenção de doenças crônicas que o medicamento usado para diabetes tipo 2

Longevidade e metformina
Longevidade e metformina
Custo. Cada centavo gasto em saúde eleva a expectativa de vida. Foto: IstockPhotos
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Estou para conhecer alguém que deseje viver pouco. Por mais que reclamem da vida, todos querem ficar por aqui o máximo de tempo possível. Mas não a qualquer preço. Ninguém considera razoável passar os últimos dias jogado numa cama, com uma sonda no estômago, outra na bexiga, sem controlar os esfíncteres nem reconhecer os filhos, dando trabalho para a família.

Todos nós sonhamos com uma pílula mágica, um alimento qualquer ou uma intervenção milagrosa que nos permita chegar aos 100 anos com lucidez, vigor físico e liberdade de movimentos – se possível, sem fazer esforço.

Embora a sociedade aguarde ansiosa, a ciência não consegue dar essa resposta. Não por má vontade, mas pela ­dificuldade­ de conduzir estudos que permitam tirar conclusões definitivas.

Por exemplo, será que a dieta vegetariana aumenta a expectativa de vida? Um estudo observacional consistiria na avaliação dos anos vividos pelos vegetarianos, comparando-os com os dos que consomem carnes e outros derivados.

Veja quantos erros podem envolver um estudo desse tipo. Vamos imaginar que ele mostre que vegetarianos vivem mais tempo. Será porque os vegetarianos são mais cuidadosos, fazem exercícios, não fumam nem tomam álcool e vão ao médico com mais regularidade? Os participantes teriam obedecido com rigor as dietas dos grupos, para os quais foram alocados? Não seriam essas as verdadeiras causas da maior expectativa de vida desse grupo?

Além dessas e muitas outras dificuldades há outra maior: para tirar conclusões, não bastariam dois ou três anos de acompanhamento. Qual seria o custo de um trabalho que envolvesse a coleta de informações de milhares de pessoas por 20 anos? Quem estaria disposto a patrocinar? Os pesquisadores investiriam 20 anos de suas carreiras num estudo tão longo e de resultados incertos?

Acaba de ser publicado na revista Journal of the American Medical ­Association (JAMA) o resultado de um grande estudo randomizado para testar o impacto de mudanças no estilo de vida e do medicamento metformina na longevidade.

Amplamente empregada no tratamento do diabetes tipo 2 e na redução do risco de desenvolver a doença em pessoas com pré-diabetes (glicemia de jejum entre 100 e 125 ou hemoglobina glicada entre 5,7% e 6,4%), a metformina ativa uma enzima (AMPK) que atua nas mitocôndrias, organelas celulares que funcionam como centrais energéticas das células.

Em sistemas experimentais, a metformina mostrou aumentar a longevidade de vermes e de drosófilas (as mosquinhas que sobrevoam as bananas maduras).

No estudo, os participantes foram divididos em três grupos: controle, estilo de vida e metformina.

O grupo controle nada recebeu. O grupo de estilo de vida recebeu recomendações frequentes para diminuir o consumo de gordura animal, reduzir 25% das calorias ingeridas por dia e manter 150 minutos de atividade física por semana. O terceiro recebeu metformina na dose de 850 mg de 12/12 h, por via oral.

Os participantes foram acompanhados por 20 anos. A maioria estava com mais de 65 anos no fim do estudo.

O objetivo foi o de contar o número dos que apresentaram multimorbidades – co-ocorrência de duas ou mais doenças crônicas, como AVC, infarto do miocárdio, insuficiência renal, hipertensão arterial e outras –, condição relacionada com o aumento de mortalidade.

Os resultados revelaram que 85% dos participantes desenvolveram duas ou mais das condições crônicas citadas. Em relação ao grupo controle (placebo), os que foram orientados em relação às mudanças de estilo de vida tiveram redução de 29% no risco de apresentar duas ou mais comorbidades. Nos que tomaram metformina a redução foi de 9%, diferença não significativa.

Prezado leitor, as práticas alimentares e de atividade física citadas no estudo são ferramentas muito eficazes para reduzir o número e a gravidade de doenças crônicas. Ao adotá-las, sua probabilidade de desenvolver doenças que incidem preferencialmente nos mais velhos – ainda que não somente entre eles – vai diminuir e melhorar sua qualidade de vida.

O estudo, no entanto, não prova que esses cuidados aumentarão sua longevidade.

Por essas razões, toda vez que você ouvir falar que uma vitamina, um alimento ou determinada intervenção faz pessoas saudáveis viverem mais tempo, desconfie. •

Publicado na edição n° 1418 de CartaCapital, em 24 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Longevidade e metformina’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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