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ONU: Crise no Haiti é a mais grave do hemisfério ocidental

Violência de gangues deixou mais da metade da população dependente de ajuda humanitária para ter o que comer, e produziu 1,5 milhão de deslocados internos. ONU só conseguiu arrecadar 24% dos fundos contra crise

ONU: Crise no Haiti é a mais grave do hemisfério ocidental
ONU: Crise no Haiti é a mais grave do hemisfério ocidental
Registro de Porto Príncipe, no Haiti, em 27 de março de 2025. Foto: Clarens Siffroy/AFP
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Haiti “enfrenta a crise mais grave do hemisfério ocidental”, alertou nesta terça-feira 17 o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, durante viagem ao país caribenho.

Segundo Guterres, a nível global, a situação no Haiti só não é pior que no Sudão e nos Territórios Palestinos.

Numa coletiva de imprensa com jornalistas, o chefe da ONU apontou a violência de gangues que “aterrorizam” a população como causa da crise que levou 1,5 milhão a fugirem para o interior do país e deixou mais da metade de seus 11,7 milhões de habitantes dependendo de ajuda humanitária para ter o que comer.

“Cada dia é uma luta pela sobrevivência”, disse Guterres sobre os haitianos. “Falei com muitos homens, mulhares e crianças que têm apenas uma refeição por dia.”

A violência no país produziu 2,3 mil mortos só neste ano, segundo a ONU. Em 2024, o país era líder mundial em homicídios, de acordo com um levantamento da ONG Igarapé.

Em média, mais de 20 mulheres e meninas foram agredidas por dia no primeiro trimestre deste ano, e o número de crianças recrutadas pelas gangues triplicou, informou Guterres. “Agora um em cada dois membros das gangues é uma criança.”

Guterres critica “indiferença” da comunidade internacional

País mais pobre das Américas, o Haiti sofre há anos com a instabilidade, enquanto gangues poderosas assassinam, estupram, saqueiam e sequestram de forma desenfreada.

“Vamos deixar claro: as gangues têm aterrorizado o Haiti. As instituições foram enfraquecidas”, disse Guterres. “Mas a maior vergonha é a indiferença – a indiferença de um mundo que tem olhado para o outro lado.”

Guterres lamentou que o plano de resposta da ONU para o Haiti é o programa humanitário das Nações Unidas “menos financiado”. Até agora, a entidade só conseguiu arrecadar 24% dos 880 milhões de dólares previstos para endereçar a crise.

“O Haiti não pede caridade. O Haiti pede que o mundo cumpra sua palavra. E o Haiti não pode esperar”, declarou.

Ele destacou que a Força de Repressão de Gangues (GSF, na sigla em inglês), aprovada pelas Nações Unidas em setembro passado para combater as gangues armadas e que prevê um efetivo máximo de 5,5 mil soldados de vários países, oferece uma “possibilidade real de fazer recuar a violência e restabelecer a autoridade do Estado”.

Até agora, Jamaica, Chade, El Salvador e Guatemala enviaram tropas menos de mil soldados para formar a GSF, que deve começar a operar nas próximas semanas. A força deve atuar em conjunto com a polícia nacional e as Forças Armadas.

“Devo dizer que, ao ver as tropas que participam na Força de Repressão de Gangues, vi chadianos, jamaicanos e vamos ver bengalis. Não vejo os países desenvolvidos contribuírem. Penso que está na hora de os países em desenvolvimento começarem a participar neste tipo de operações”, pontuou Guterres.

Haiti sem eleições desde 2016

A crise de segurança no Haiti se agravou no início de 2024, quando gangues lançaram uma onda de violência que forçou o primeiro-ministro do país, que não havia sido eleito, a renunciar.

Ele foi substituído por um conselho presidencial interino, mas, quando o mandato do conselho expirou em fevereiro, o poder Executivo passou para o primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé — que recebeu Guterres na chegada.

O Haiti não realiza eleições desde 2016, principalmente por causa da insegurança. Seu último presidente, Jovenel Moïse, foi assassinado em julho de 2021.

A posição estratégica do país, suas extensas fronteiras terrestres e marítimas — assim como seus numerosos portos públicos e privados, estradas precárias e pistas de pouso clandestinas — tornaram o país particularmente vulnerável ao tráfico de mercadorias contrabandeadas, especialmente armas de fogo, munições e drogas.

O Haiti também depende fortemente de importações, com quase todos os setores de sua economia ligados a bens vindos do exterior. Como resultado, há um intenso fluxo de bens e serviços através de suas fronteiras e portos — o que oferece aos atores criminosos amplas oportunidades para contrabandear mercadorias ilegais.

Gangues dominam cadeias de suprimentos e extorquem rotas comerciais e de transporte humanitário, o que lhes dá enorme poder para desviar recursos do Haiti e desestabilizar sua economia. E como são mais bem armadas que as próprias forças de segurança, elas conseguem se impor pela força.

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