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‘Somos países irmãos’: Marrocos quer vencer o Brasil, mas não deixa de vestir amarelo

Comerciantes e torcedores marroquinos veem no futebol brasileiro um espelho distante. Mas apostam, ainda assim, em vitória sobre a Seleção

‘Somos países irmãos’: Marrocos quer vencer o Brasil, mas não deixa de vestir amarelo
‘Somos países irmãos’: Marrocos quer vencer o Brasil, mas não deixa de vestir amarelo
Anas é proprietário de um das lojas especializadas em artigos esportivos no centro de Marrakech. Foto: Danilo Queiroz
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Marrakech | A poucas horas de enfrentar o Brasil na Copa do Mundo de 2026, o Marrocos também veste verde e amarelo. Nas ruas de Marrakech, a chamada Cidade Vermelha, a camisa da Seleção Brasileira aparece em lojas de souvenirs, barracas de artigos esportivos, vitrines de mercados populares e no corpo de turistas e moradores.

A cena tem sua ironia: o Brasil é adversário em campo, mas segue como objeto de desejo nas ruas. Muito além do uniforme da Seleção, os símbolos brasileiros aparecem associados a uma estética que ganhou força nas redes sociais sob o nome de “Brasilcore” — uma mistura de cores, música, futebol e imaginário tropical que circula por diferentes partes do mundo.

A partida entre Brasil e Marrocos está marcada para este sábado 13, no estádio de New Jersey, nos Estados Unidos. Válido pela primeira rodada do Grupo C, o confronto é tratado por muitos moradores como um dos grandes jogos do início do torneio. Em Marrakech, porém, a rivalidade vem embalada por um sentimento curioso de proximidade.

“Somos países irmãos. O Brasil é muito parecido com o Marrocos, e o meu país também parece com o seu”, afirma, entre risos, o comerciante Anass, de 28 anos.

A CartaCapital, ele conta que nunca deixou o Marrocos e ainda não conhece o Brasil, mas cultiva forte admiração pelo País. O fascínio começa no futebol, passa pelas músicas que dominam suas redes sociais — especialmente no TikTok — e se completa na imagem de simpatia e acolhimento associada aos brasileiros.

Anas é dono de uma loja especializada em camisas de seleções nacionais. Segundo ele, as vendas cresceram neste ano, embora ainda não tenham alcançado o volume registrado durante a Copa do Mundo do Catar, em 2022. Na avaliação do comerciante, a proximidade geográfica e cultural entre o Marrocos e o mundo árabe ajudou a impulsionar os negócios naquela ocasião.

“Tenho trabalhado da meia-noite até o meio-dia. Depois disso, meu irmão assume o meu lugar. Somos os responsáveis pela loja. Cada camisa custa cerca de 150 dirhams [o equivalente a aproximadamente 15 euros ou 90 reais]. Como sou o proprietário, não tenho salário fixo. Trabalho muito, mas gosto de futebol”, diz.

A loja, localizada nas imediações da principal mesquita da cidade, foi inaugurada há quatro anos, em meio à nova visibilidade internacional do futebol marroquino. A campanha de 2022, quando o Marrocos se tornou a primeira seleção africana a disputar uma semifinal de Copa do Mundo, ainda alimenta o orgulho nacional.

“Isso tem um valor simbólico enorme para nós. Quem se lembra da África quando se fala em reconhecimento e vitórias? Até nossos jogadores foram levados pelos antigos colonizadores”, afirma Anass.

Nos arredores da praça Jemaa el-Fna e da Place des Épices, onde se concentram mercados, barracas e lojas de artesanato, o clima é de festa permanente. Com a aproximação da Copa, comerciantes relatam aumento no movimento e jornadas de trabalho mais longas. Entre tapetes, especiarias, luminárias e artigos de couro, as camisas de futebol ocupam espaço de destaque.

A relação dos marroquinos com o esporte lembra, em muitos aspectos, a vivida no Brasil. Crianças jogam bola em campos improvisados depois da escola e nos fins de semana. Durante a apuração, a reportagem encontrou grupos de meninas jogando futebol no bairro de Palmeraie, ao norte de Marrakech, inclusive algumas usando véu — cena que contraria certos estereótipos ocidentais sobre o cotidiano no país.

Para muitos moradores, a Copa de 2026 prolonga uma confiança inaugurada nos últimos anos. A seleção marroquina deixou de ser tratada apenas como promessa e passou a ocupar um lugar mais ambicioso no futebol mundial. No país, esse salto ganhou contornos de autoestima coletiva.

Kenach, um dos seis vendedores contratados neste ano para administrar uma loja que reúne camisas de futebol, cintos, tapetes e especiarias, diz que a camisa marroquina é naturalmente a mais procurada. Mas o Brasil nunca sai de moda.

“Obviamente, a camisa do Marrocos é a que mais vendemos aqui, mas é muito comum que turistas procurem os nomes dos nossos jogadores para estampar nas camisas”, conta.

Na loja onde trabalha, convivem dezenas de modelos brasileiros. Há camisas do Santos, frequentemente associadas ao nome de Neymar, e de clubes menos conhecidos internacionalmente, como Bahia, Ceará e Grêmio. A presença desses uniformes ajuda a explicar que a ligação afetiva entre brasileiros e marroquinos começou muito antes do apito inicial.

Para Kenach, o crescimento do turismo ampliou oportunidades econômicas, mas também reforçou uma visão limitada sobre o país. Contraditoriamente, o país tem recebido muitos turistas europeus em virtude das companhias aéreas low coast. No entanto, o a livre circulação de Marroquinos ao Espaço Schengen, que reúne os 28 países da União Europeia e 4  associados é impedida. Para isso, é necessário um visto que custa o equivalente ao salário mínimo marroquino. Ou seja, poucos têm essa oportunidade.

“Ficamos felizes em ver o turismo movimentando nossa economia e criando oportunidades de mobilidade social. Ao mesmo tempo, é frustrante pensar que muita gente resume o Marrocos apenas a Marrakech. É parecido com o Brasil: existe muito mais para conhecer além do Rio de Janeiro.”

A comparação com o Brasil aparece com frequência nas conversas. Marroquinos citam a música, a alegria, o futebol, o acolhimento e até as desigualdades sociais como pontos de contato entre os dois países. O Brasil é visto, ao mesmo tempo, como potência futebolística, referência cultural e espelho distante.

A cerca de três horas de Marrakech, Essaouira oferece outro cenário, mas a presença do futebol se repete. Conhecida por sua tradição musical e pela paisagem à beira do Atlântico, a cidade exibe seus próprios souks repletos de camisas de seleções e clubes. Próximo ao porto, artigos esportivos dividem espaço com bandeiras palestinas, artesanato, peças de bronze, prata, ouro, porcelanas, ervas medicinais e especiarias usadas no preparo do tradicional chá marroquino.

Mesmo num ambiente mais tranquilo que o de Marrakech, o futebol segue onipresente. Entre as camisas expostas nas vitrines, o vendedor Kenach afirma que, depois da seleção marroquina, Brasil, França e Argentina lideram a preferência dos consumidores.

Quando o assunto é a equipe brasileira, um nome se impõe. “Neymar é quem todo mundo pede”, resume Ayoub, 17

Segundo o estudante de ensino médio, o camisa 10 permanece como a principal referência do Brasil entre crianças e adultos. Depois dele, aparecem ídolos históricos como Pelé e Kaká, cujos nomes seguem vivos no repertório afetivo dos marroquinos. “A procura foi tão grande que já disse ao chefe da loja que precisamos fazer novos pedidos á Casablanca, só há apenas uma camisa do Brasil. Enquanto isso, há bastante do Leão-do-Atlas [como é chamado o mascote marroquino]”, explica ele, que, com a chegada das aulas escolares, trabalha 12h ao dia. Entre os seus jogadores admirados da Seleção Real do Marrocos, o jovem marroquino responde: o atacante Yessini, o lateral-direito Hakimi e o ponta esquerda Ezzalzouli — que às vésperas da preparação foi substituído da seleção por conta de uma lesão no joelho. Ayoubi também brinca numa aposta mais pessimista : 0 a 0, ou 1 a 0 para o Brasil.

Portugal também registrou aumento na procura por camisas nesta temporada, impulsionado pela expectativa de que esta seja a última Copa do Mundo de Cristiano Ronaldo. Mas, para Kenach, o Brasil ocupa um lugar particular.

“O Brasil sempre está entre os países mais procurados. É o país do futebol e sentimos que somos muito parecidos com vocês. Existe uma sensação de proximidade nas músicas, na alegria das pessoas, no acolhimento e até nas desigualdades que enfrentamos. Somos um povo feliz, mesmo convivendo com tantos desafios e ainda sem conquistar um título mundial”, diz Kenach.

A admiração, porém, não impede a ousadia: perguntado, ele aposta em uma vitória do Marrocos 2 a 1.

Achraf Hakimi e Neymar, dois símbolos de Marrocos e Brasil, que se enfrentam neste sábado 13 pela primeira rodada do Grupo C da Copa do Mundo de 2026. Foto: Sia Kambou e Pablo Porciuncula/AFP

Futebol, identidade e projeção internacional

Para Kenach, conquistar a Copa significaria um marco não apenas para o Marrocos, mas para todo o futebol africano. Seria a confirmação de um protagonismo que começou a ganhar forma na campanha de 2022 e que hoje mobiliza o país.

Nas redações dos principais jornais marroquinos, a mobilização não é diferente. Veículos locais criaram seções especiais dedicadas ao Brasil nos dias que antecedem a estreia. Ao longo da semana, jornalistas analisaram a escalação brasileira, repercutiram a cobertura da imprensa nacional e trataram o duelo como teste importante para medir a força da geração marroquina.

Na capital Rabat, a instalação de telões para acompanhar a partida expressa o peso simbólico do confronto. Entre os marroquinos, o rei Mohamed VI é frequentemente associado à aposta no esporte e no turismo como marcas de desenvolvimento nacional.

Essa política ganhou corpo a partir da construção do Complexe Mohammed VI, um dos principais centros de treinamento esportivo do país. A estrutura funciona como laboratório de formação de talentos e se tornou peça importante na profissionalização do futebol marroquino.

Grande parte desse processo foi conduzida por Fouzi Lekjaa, presidente da Federação Marroquina de Futebol e figura influente na política nacional. Com o respaldo da monarquia, os investimentos no esporte deixaram de ser apenas uma aposta financeira e passaram a integrar uma estratégia de afirmação do país no exterior.

Em Essaouira, o Brasil aparece não apenas como artigo de venda, mas de identidade cotidiana. Foto: Danilo Queiroz

Para o estudante de Psicologia Mehdi, a mudança mais importante não aparece apenas em números.

“Hoje sinto que a população tem muito mais orgulho da nossa nação. Isso acontece não apenas porque somos um povo diverso, marcado por migrações entre países africanos e europeus, ou porque vemos nossa bandeira presente nas ruas das cidades, mas porque mostramos ao mundo que somos importantes e que também merecemos ser vistos.”

A atual seleção marroquina traduz essa circulação global. A maior parte dos convocados atua fora do país, em ligas da Europa e do Oriente Médio. Muitos nasceram ou passaram parte da infância em países como França, Bélgica, Espanha e Países Baixos antes de optar por defender o Marrocos. A equipe combina diferentes escolas de futebol sob uma mesma camisa.

O rosto mais conhecido dessa geração é Achraf Hakimi. Capitão da seleção e lateral-direito do Paris Saint-Germain, ele se tornou símbolo da ascensão marroquina. Ao seu lado, nomes como Brahim Díaz, Sofyan Amrabat e Azzedine Ounahi dão ao time experiência em algumas das principais ligas do mundo.

O avanço marroquino coincide com um momento de fortalecimento do futebol africano. Com a ampliação da Copa para 48 seleções, o continente chega ao torneio de 2026 com sua maior presença na história.

O Marrocos quer vencer. Só não parece disposto a deixar de gostar do Brasil por causa disso. Nas ruas de Marrakech e Essaouira, continua sendo também memória afetiva, camisa cobiçada e uma espécie de parente distante.

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