Cultura

assine e leia

Réquiem para uma utopia

Vencedor do International Booker Prize, Kairós narra uma paixão vertiginosa às vésperas da queda do Muro de Berlim

Réquiem para uma utopia
Réquiem para uma utopia
Trama. A alemã Jenny Erpenbeck narra, com muita sutileza, a relação entre uma jovem de 19 anos e um escritor de 53 – Imagem: UBUD Festival
Apoie Siga-nos no

Um efeito estético de vertigem é o que a escritora alemã Jenny Erpenbeck alcança no romance Kairós, vencedor do International Booker Prize de 2024. Um improvável relacionamento surge de um encontro marcado pelo senso de ocasião.

A palavra Kairós diz respeito, afinal de contas, ao mito grego que representa o momento de oportunidade. É por isso que, voando com asas nos pés, o deus Kairós pode ser capturado pelo cacho que tem na testa; atrás da cabeça não há cabelo e ele pode escapar.

A relação em torno da qual gira a trama se inicia logo que os personagens se conhecem, ao pegarem o mesmo ônibus. O ápice ocorre na primeira noite. O que vem a seguir só pode ser uma queda.

Com uma construção sofisticada, em terceira pessoa, a narração acompanha a jovem Katharina, de 19 anos, e o escritor Hans, de 53 anos, na Berlim Oriental, pouco antes da queda do Muro. A diferença de idade não é o único elemento complicador para o casal. Hans é casado e pai de um adolescente.

A narração em terceira pessoa é interrompida por trechos em primeira pessoa. Essas passagens reproduzem a voz gravada de Hans, presente em fitas que Katharina é obrigada a escutar.

Hans, que grava programas de música erudita para uma rádio estatal, escolhe a trilha sonora para dormir com ­Katharina pela primeira vez. É o ­Réquiem, de ­Mozart: “Não combina com o momento, ela diz. O momento, ela disse”.

A sequência, com duas formas de conjugar o verbo dizer (diz e disse), no presente e no passado, reproduz tanto o narrador quanto a voz interna de Hans, que processa aquilo que acabou de ouvir da amante. Tais sutilezas criadas por Jenny Erpenbeck, presentes ao longo do livro, são tratadas de forma consistente na tradução de Sergio Tellaroli.

Kairós. Jenny Erpenbeck. Companhia das Letras (392 págs., 129,90 reais)

É simbólica a escolha de Réquiem, uma missa fúnebre. Porque, na primeira página do livro, o leitor descobre que Hans morrerá. Morre também o relacionamento dos dois. Assim como também termina o projeto de uma Alemanha comunista, a República Democrática Alemã (RDA).

O casal pode, inclusive, servir como metáfora para Berlim Oriental e Berlim Ocidental – o velho e o novo, o moderno e o antigo. Mas, talvez, recorrer a essa analogia seja reducionista, pois ambos os personagens são fruto da RDA.

Ao caracterizá-los como cidadãos cultos – mesmo sendo 34 anos mais jovem, Katharina partilha as referências de música erudita, teatro e literatura de Hans –, a autora mostra que o projeto de país não falhou de todo. A autora escolheu justamente a educação, o acesso às produções culturais e a possibilidade de trabalhar com arte sem recorrer à lógica da competição como provas daquilo que funcionou na Alemanha Oriental.

A diferença alegórica entre Katharina e Hans desenha-se, porém, mais profunda. Enquanto ela é uma jovem que nasceu e cresceu na RDA, em um regime já existente, ele cresceu numa Alemanha hitlerista para viver depois sob o comunismo.

Não é coincidência que ele passe a oprimir Katharina. O sexo passa a ser violento. E, mesmo sendo casado, ele se sente traído quando ela sai com um rapaz. É desse contexto que surgem as fita-cassete cheias de acusações, com monólogos que a depreciam.

Katharina precisa fazer anotações sobre as fitas e entregá-las a ele. Ela chega a cortar os longos cabelos como punição. “Dois milímetros? Tem certeza? Seus cabelos longos caem pelo chão, o cabeleireiro os junta com uma vassoura e os joga no cesto de papéis. Katharina agora parece uma pecadora, parece aquilo que é. Há um ano e meio, Hans encontrou uma inocente; agora uma culpada lhe cai no colo.” É como se morresse a utopia.

Réquiem, de Mozart, agora sim combinaria mais com o momento. •


VITRINE

Por Ana Paula Sousa


Extinção (DBA Literatura, 456 págs., 104,90 reais), romance de estreia de Maria Reva, é protagonizado por uma cientista que percorre a Ucrânia em um trailer, tentando salvar caracóis em extinção. Enquanto isso, começam a estourar as primeiras bombas em Kiev, a capital do país.

Ser Escritor (Companhia das Letras, 208 págs., 79,90 reais) reúne nove ensaios sobre a escrita. A partir da leitura de autores como Virginia Woolf, Clarice Lispector, Tchekhov e Borges, Roberto Taddei investiga as fronteiras difusas que separam o leitor que somos do autor que ousamos ser.

Em O Avesso das Coisas, Carlos ­Drummond de Andrade troca o verso pelo verbete e, em ordem alfabética, organiza aforismos originados em palavras como amor, Deus, governo, liberdade e infância. Lançado em 1987, o volume foi agora reeditado pela Record (320 págs., 119,90 reais).

Publicado na edição n° 1417 de CartaCapital, em 17 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Réquiem para uma utopia’

ENTENDA MAIS SOBRE: , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo