Política
Mão firme
Sob a condução do interino Ricardo Couto, a população fluminense finalmente ganha um governo funcional
Neste primeiro quarto do século XXI, enquanto tinha seus seis últimos governadores afastados, cassados ou presos, o Rio de Janeiro viu sua dívida pública crescer para colossais 238 bilhões de reais. Apesar da projeção de um déficit de 18,9 bilhões para 2026 e da necessidade de aliviar o caixa do estado, o governo de Cláudio Castro (PL), encerrado em março, jamais chegou a um entendimento duradouro com a União, credora de mais de 80% da dívida. Essa realidade vai mudar, anunciou na segunda-feira 8 o governador em exercício, desembargador Ricardo Couto, após retornar de uma reunião com o ministro da Fazenda, Dario Durigan, em Brasília. Uma série de medidas que incluem milhares de demissões na inchada máquina estadual e ações contra notórios sonegadores de impostos faz de Couto o novo queridinho da política fluminense. Após décadas de desilusão, o interino provoca na população a “estranha” sensação de haver um governo no Rio.
Presidente licenciado do Tribunal de Justiça do Rio, Couto permanecerá à frente do governo fluminense até que o Supremo Tribunal Federal decida sobre como se dará a eleição para um mandato-tampão no estado. Ele obteve um acordo para nova adesão ao Programa de Pleno Pagamento da Dívida dos Estados (Propag), que permite o alongamento das dívidas por 30 anos. Semanas antes, Lula já havia autorizado que o Rio encerrasse sua participação no Regime de Recuperação Fiscal (RRF), que tem condições de pagamento mais severas, no que foi enxergado pelo meio político como uma deferência a Couto, alvo de repetidos elogios públicos do presidente. Com o acordo, o estado deixará, a partir de junho, de repassar mensalmente 490 milhões de reais à União e passará a pagar 113 milhões.
Um dos elogios presidenciais, feito durante a inauguração de um centro tecnológico da Fiocruz no Rio, provocou a reação imediata do PL, que acusou Lula de fazer pressão pela permanência de Couto no cargo. “A Justiça tomou uma decisão correta ao colocar você como interino até as eleições. Aproveite esses seis meses que você tem e ajude a consertar este estado”, disse o presidente. A declaração fez o presidente do PL no Rio, deputado federal Altineu Côrtes, ameaçar ir à Justiça contra Lula. “É preciso esclarecer se há algum conhecimento prévio do Executivo sobre a decisão que ainda está para ser proferida pelo STF”, reclamou o parlamentar bolsonarista.
A afinação entre Couto e o governo federal cresceu com as operações contra a Refit, refinaria pertencente ao empresário Ricardo Magro – o maior devedor contumaz do Brasil –, que teve seu registro cassado pela Secretaria Estadual de Fazenda em 29 de maio. No Rio, a empresa acumula uma dívida de quase 10 bilhões de reais. Os próximos passos serão o pedido de falência, defendido pelo Ministério Público, e a desapropriação do imenso terreno ocupado na região de Manguinhos. As medidas estão sendo costuradas por Couto junto ao ministro da Justiça, Wellington Lima e Silva, mas tudo depende de uma concertação com o Palácio do Planalto, que precisa publicar um decreto autorizando a medida, e com o STF, para garantir que a decisão não seja posteriormente derrubada, como ocorreu em 2014.
Após o anúncio de uma reposição de 11,5% em perdas salariais para o funcionalismo estadual, demanda solenemente ignorada pelos antecessores, Couto conquistou a simpatia até dos mais aguerridos setores do sindicalismo fluminense, a exemplo dos profissionais da educação. “Pode parecer pouco, mas é um primeiro passo. E mostra que esse reajuste não era dado por uma questão política. Com a gestão séria do desembargador, o dinheiro está começando a aparecer”, afirma André Tenreiro, professor do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase).
Os elogios vêm de vários segmentos. Deputado estadual pelo PSB e ex-ministro do Meio Ambiente de Lula, Carlos Minc agradece a Couto por ter tornado sem efeito um decreto, assinado ao apagar das luzes da gestão Castro, que acabaria com cinco Áreas de Proteção Ambiental. Há espaço para mais conquistas. “É possível avançar na relação com a Uerj e com o funcionalismo, e resolver as questões dos peritos e da regulamentação das câmeras nos uniformes policiais”, avalia Minc. A Assembleia Legislativa, de maioria castrista, “anda nervosa porque está perdendo o controle da máquina estadual”, observa o parlamentar. Ele aposta que Couto ficará até dezembro: “Ele não estaria mexendo no segundo e no terceiro escalão se achasse que ia ficar só mais uma semana. Deve ter a garantia de alguém lá de cima”.
O governador em exercício conseguiu renegociar as dívidas do estado e enxugou a máquina pública
Em dez semanas, Couto promoveu um enxugamento da máquina pública com a demissão de 3 mil funcionários contratados pela gestão de Castro e a extinção de três subsecretarias. O corte inclui cerca de 400 cargos de coordenação e implicou a reestruturação de importantes pastas, como Segurança Pública, Meio Ambiente e Casa Civil. A sensação de que o presidente licenciado do TJ é um “anti-Castro” deve aumentar se ele cumprir a promessa de recuperar ao menos parte dos 3,7 bilhões de reais enterrados pelo RioPrevidência no banco de Daniel Vorcaro. “Vamos ao próprio Master tentar buscar o que foi investido e se perdeu. Depois vamos aos investidores do banco. Tenho fé que o Rio recuperará esses valores”, afirma Couto.
Para a cientista política Mayra Goulart, diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, a entrada de Couto no jogo político mudou completamente o cenário eleitoral. “Mesmo com a popularidade e a liderança nas pesquisas de Eduardo Paes, o PL, partido que domina um quarto das prefeituras fluminenses e um quarto das cadeiras legislativas, seria, no controle da máquina estadual, um adversário difícil de ser batido”, prevê. Ela lembra que o interior, não a capital, é determinante por concentrar 60% do eleitorado. “O uso da máquina permite a atração de prefeitos e vereadores do interior, e o PL já tem esse know-how. Mas é exatamente a estrutura dessa rede clientelista que está sendo desmontada por Couto.”
Carioca da gema, botafoguense e formado pela Uerj, Couto, de 62 anos, chegou à presidência do TJ no fim de 2024. Sempre manteve um perfil discreto, embora prestigiado no meio jurídico por sua atuação também como professor de Direito Administrativo na FGV e na Escola de Magistratura do Rio. Agora há quem projete um futuro político para o desembargador. Segundo uma fonte consultada por CartaCapital, ele já teria sido sondado pelo ex-prefeito Eduardo Paes, do PSD, para ocupar a Secretaria de Justiça em seu eventual governo. A informação, porém, não é confirmada por Couto. “Minha ideia era fazer uma transição sem tocar na administração estadual, permitindo que aqueles que tivessem a legitimação popular pudessem proceder a essas atividades. Mas nós estamos com uma certa delonga e o estado não pode ficar parado. Tenho que fazer a gestão para a população.” •
Publicado na edição n° 1417 de CartaCapital, em 17 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Mão firme’
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