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Pesquisas não mentem, mesmo que Nunes as esconda
Ao tirar do ar a da AtlasIntel, mesmo depois de lida à farta nas redes, o ministro se porta como cavalo de Troia do clã Bolsonaro.
Existe um fato que nenhuma decisão do recém-empossado presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Nunes Marques, pode esconder: a candidatura do filho do ex-presidente foi para o brejo. O ministro (um dos dois da leva do mandato de Jair Bolsonaro à Suprema Corte) mandou tirar do ar pesquisa da AtlasIntel que registrava uma queda abrupta nas intenções de voto para o candidato Flávio Bolsonaro (PL), após os vazamentos que mostraram o envolvimento dele com o empresário Daniel Vorcaro, o artífice do maior golpe financeiro já aplicado nesse país.
A pesquisa Atlas, publicada no dia 19 de maio, foi suspensa nesta segunda, no dia 8 de junho. Em 11 dias, não apenas foi lida, mas reproduzida à farta. No dia 5 de junho, 17 dias depois, outra pesquisa – da Vox Brasil – confirmaria a tendência de esvaziamento da candidatura do filho de Jair. Em seguida, a pesquisa da Quaest acusaria a migração de uma leva de votos de Flávio para o grupo de indecisos. Os eleitores mostraram que o direito natural à sucessão do pai, arrotado pelo candidato do PL, não está imune a escândalos. Ou, pelo menos, não aos grandes escândalos.
Os movimentos do eleitor a partir das lambanças feitas por Flávio Bolsonaro – que ficou indelevelmente marcado não apenas por medidas comerciais dos EUA contra a economia brasileira, mas também por associar-se ao risco de ameaças futuras à soberania brasileira – tornaram o candidato do PL, primeiramente, refém dos demais postulantes de direita à Presidência.
Até aqui, a conta parecia relativamente simples. Se Flávio perdesse votos para outros nomes do mesmo campo político, a direita ainda poderia preservar alguma racionalidade estratégica. A soma dos votos de Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão), Aécio Neves (PSDB) e outros candidatos menores poderia impedir uma vitória de Lula no primeiro turno. Se ninguém saísse do páreo e Flávio derretesse até sobrar só o pauzinho do picolé, os votos naturalmente acabariam se concentrando em um deles. A união da direita ocorreria no segundo turno, com os acordos para um eventual governo direitista, em condições de igualdade entre os partidos do bloco na divisão do butim. Daria também a qualquer dos eleitos a garantia de apoio do PL e do PSD, atualmente os dois maiores partidos de direita em número de bancada e mais bem estruturados.
Mas a pesquisa Quaest reforça um movimento diferente. Ainda que de forma tênue, aponta pela primeira vez para uma quebra do padrão de polaridade extrema entre direita e esquerda registrado nas últimas duas eleições (ou até três, se for considerada a eleição de 2016, quando Aécio Neves, do PSDB, captou os humores e a adesão de um eleitorado que iniciava uma radicalização antipetista à direita).
Segundo os dados do instituto, o desgaste eleitoral de Flávio, hoje, não despejaria intenções de voto em Caiado, Zema ou Renan, mas aumentaria consideravelmente o número de votos brancos, nulos, indecisos e de abstenções. Esses eleitores, somados, chegariam hoje a 19%. Destes, 10% dos entrevistados se declararam indecisos. Se esta tendência prevalecer, Flávio Bolsonaro terá entregado a Lula a primeira oportunidade de reduzir sua rejeição e tentar a vitória já no primeiro turno. Ou se eleger em segundo turno com muito mais folga do que os últimos presidentes eleitos, incluindo ele mesmo em 2022.
Este, presumidamente, seria o momento da novela eleitoral em que os outros postulantes de direita deveriam dar ao candidato em crise um ultimato. Ou tudo fica como está, com grandes riscos para toda a estrutura de poder montada por Bolsonaro e o resto da extrema-direita ou se unem em torno de outro candidato. O que está em risco, agora, não é apenas a eleição para presidente, mas a candidatura de Flávio comprometer a eleição de deputados e senadores, cuja estratégia é pegar a rabeira dos votos da direita em uma disputa presidencial altamente polarizada.
Mas, voltando ao início, para que ninguém se esqueça: o novo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Nunes Marques, foi empossado ministro do Supremo Tribunal Federal (a cujos membros cabe presidir as eleições, em regime de rodízio) no governo Jair Bolsonaro. Bolsonaro foi aquele presidente brasileiro que tentou dar um golpe de Estado. Esses dois fatos, nenhum brasileiro que preze eleições limpas e livres pode esquecer, até que se encerre em definitivo o processo eleitoral. Se Nunes continuar atuando com o cavalo de Troia do clã Bolsonaro no TSE, o Judiciário será corroído por dentro – e isso é grave, depois do ataque continuado de Bolsonaro ao STF durante todo o seu governo, estratégia usada para preparar um golpe de Estado, caso perdesse a reeleição nas urnas; e da campanha de desmoralização que sofreu ao longo do último ano em função dos privilégios assegurados à instituição. Sua Excelência Nunes Marques, os brasileiros estarão atentos.
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