Nikkole Presotto

Fotógrafa e cinegrafista, apaixonada por arte, cinema, rock do fim dos anos 60, poesia e cultura psicodélica. Estudou Direção Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema (AIC).

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As cartas do ‘yagé’ e os sonhos de controle mental

Entre xamãs, beatniks, CIA e gigantes da tecnologia, a busca por controlar a mente atravessa a história cultural e política do século XX

As cartas do ‘yagé’ e os sonhos de controle mental
As cartas do ‘yagé’ e os sonhos de controle mental
Foto: Ricardo D'Aguiar
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Quando William S. Burroughs atravessa a América do Sul em busca do yagé, a ayahuasca amazônica, não o faz como um místico solarizado da contracultura sessentista. Burroughs era, naquele momento, uma figura em ruínas: dependente químico, paranoico, perseguido pelos próprios fantasmas e obcecado pela ideia de que a realidade talvez escondesse mecanismos invisíveis de controle.

Autor de obras como Junkie, Almoço Nu e Queer, transformava vício, violência, sexualidade dissidente e colapso psicológico em linguagem literária fragmentada e febril. Sua própria vida parecia uma extensão de seus livros. Em 1951, durante um episódio envolvendo álcool, drogas e armas de fogo, matou acidentalmente a esposa, Joan Vollmer, ao tentar reproduzir uma espécie de número inspirado em Guilherme Tell: ela equilibraria um copo sobre a cabeça; ele atiraria; errou.

Parte desse trauma atravessa Queer, romance escrito nos anos 1950 e publicado apenas décadas depois, recentemente adaptado para o cinema com Daniel Craig no papel principal. Tanto o livro quanto o filme retratam um Burroughs errante, consumido pela deterioração física e emocional, projetando no yagé não apenas transcendência espiritual, mas uma possível ruptura da própria consciência.

Já na América do Sul, Burroughs escuta relatos sobre experiências envolvendo telepatia, dissolução do ego, cura espiritual e acesso a outros planos perceptivos. A obsessão acabaria registrada em As Cartas do Yagé, correspondências trocadas com Allen Ginsberg, um dos principais nomes da geração beat e futuro entusiasta da expansão psicodélica nos círculos literários americanos.

Mas talvez o aspecto mais fascinante dessas narrativas não fosse exatamente a espiritualidade. O yagé parecia prometer algo ainda mais radical: a possibilidade de alterar os limites da mente humana.

Em plena Guerra Fria, ideias envolvendo expansão da consciência, telepatia e manipulação psíquica começaram a atravessar simultaneamente laboratórios militares, comunidades contraculturais e círculos esotéricos. A obsessão do século XX por substâncias psicoativas passou a oscilar entre dois polos aparentemente opostos: libertação espiritual e domesticação da mente.

Enquanto artistas, poetas e curandeiros enxergavam nessas experiências caminhos de transcendência, setores militares e agências de inteligência investigavam possibilidades muito menos utópicas. Décadas depois, revelações sobre experimentos ligados ao Projeto MKUltra, ao LSD e a técnicas de manipulação psicológica ajudariam a transformar parte da paranoia cultural da época em algo desconfortavelmente concreto.

A ideia de substâncias capazes de remodelar a percepção também aparecia em outro fenômeno cultural daquele período: a obra de Carlos Castaneda. Em A Erva do Diabo: Os Ensinamentos de Don Juan, Castaneda descreve plantas associadas a deslocamentos perceptivos, estados alterados de consciência e experiências místicas que borrariam as fronteiras entre realidade e imaginação.

Entre elas surge a datura, planta relacionada à escopolamina e historicamente cercada por relatos envolvendo delírio, estados confusionais profundos, hipnose e apagamento da vontade. Diferentemente dos psicodélicos clássicos, delirantes como a datura raramente produzem experiências contemplativas. Em vez disso, dissolvem referências, confundem memória e percepção e frequentemente mergulham o usuário em estados caóticos e perigosos.

Ainda assim, sua presença recorrente em tradições ritualísticas, mágicas e ocultistas revela algo persistente na imaginação humana: a antiga obsessão por substâncias capazes não apenas de alterar a percepção do mundo, mas de reconfigurar a própria estrutura da mente.

Talvez seja justamente aí que todas essas histórias se encontrem. Não necessariamente na comprovação de poderes telepáticos ou dimensões ocultas, mas na recorrente fantasia de que a consciência humana poderia ser expandida, reprogramada, manipulada ou transcendida.

O próprio Burroughs parecia fascinado por essa hipótese. Em entrevistas e romances, descrevia a linguagem como um vírus, os meios de comunicação como instrumentos de condicionamento e a mente humana como um território vulnerável à programação externa. Entre xamãs amazônicos, agentes da CIA, poetas beatniks, ocultistas e laboratórios psicodélicos, o século XX talvez tenha sido atravessado justamente por esse sonho, ou pesadelo, de hackear a consciência humana.

Talvez o século XXI apenas tenha trocado os alucinógenos experimentais e os projetos clandestinos por sistemas muito mais eficientes: algoritmos capazes de modular atenção, desejo, comportamento e percepção em escala industrial. Afinal, a obsessão pelo controle da mente nunca desapareceu. Apenas ficou mais silenciosa, cotidiana e digital.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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