Augusto Diniz | Música brasileira
Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.
Augusto Diniz | Música brasileira
Documentário enfrenta o preconceito contra personagens do funk carioca
‘Massa Funkeira’ integra a competição nacional do 18º In-Edit Brasil, festival internacional de documentários musicais que começa em 17 de junho
Quando o funk carioca emergiu nas favelas do Rio de Janeiro, no início dos anos 1990, trazia a marca da rebeldia periférica. Naquele primeiro momento, ganhou força o chamado proibidão, com letras sobre o cotidiano do tráfico de drogas, os confrontos com a polícia e a vida sob tensão nos territórios populares.
Com o tempo, o gênero se transformou. Vieram o funk melody, de letras mais românticas, e, no início deste século, o funk ousadia, marcado por uma abordagem mais explícita do sexo e da sexualidade. Foi justamente esse subgênero que passou a concentrar parte das críticas mais duras ao funk — quase sempre sem contexto, sem escuta e sem uma reflexão mais profunda sobre as trajetórias de seus personagens.
É nesse território que entra Massa Funkeira. Dirigido por Ana Rieper, o documentário de 90 minutos mergulha no universo do funk ousadia para mostrar não apenas a estética, os corpos e as letras, mas também as histórias de sobrevivência, trabalho e afirmação por trás do movimento. O longa integra a competição nacional do In-Edit Brasil – Festival Internacional do Documentário Musical, que acontece entre 17 e 28 de junho, em São Paulo.
Uma das personagens mais emblemáticas do filme é MC Dandara. Abandonada pela mãe aos 6 anos no Maranhão, ela passou por diferentes famílias até fugir de casa após sofrer violência doméstica. Mais tarde, mudou-se para o Rio de Janeiro com o sonho de ser cantora.
Dandara começou no funk consciente, mas foi orientada a investir em letras de sexo explícito. Na época, funcionou. No filme, hoje aos 58 anos, ela aparece trabalhando em uma vendinha — imagem que desloca a personagem do estereótipo e a devolve ao chão concreto da vida.
Outra pioneira do funk carioca, MC Nem ficou conhecida pelos duelos no palco com MC Kátia, em uma música sobre infidelidade feminina. Gravada na comunidade do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio, sua participação ganha um tom íntimo quando ela mostra, emocionada, o filho adotado ainda pequeno — hoje, já jovem. A cena humaniza a funkeira para além da performance.
O documentário também acompanha uma dançarina de funk, mãe de três filhos, que relata sentir alívio com a morte do pai. Segundo ela, durante sua infância e adolescência, ele mantinha três mulheres dentro de casa, atuava como cafetão e chegou a abusar dela e da irmã.
Também participam do filme Valesca Popozuda, Tati Quebra Barraco, MC Carol, DJ Rennan da Penha, Kevin O’Chris e Deize Tigrona, entre outros nomes do gênero.
Colhidos dentro das comunidades, os depoimentos revelam um funk que costuma ser julgado de fora, mas raramente escutado por dentro. Há dor, precariedade e violência, mas também liberdade, desejo, trabalho, invenção e luta pelo pão de cada dia.
Massa Funkeira é, antes de tudo, um enfrentamento ao preconceito. Não por negar as contradições do funk, mas por devolver complexidade a personagens frequentemente reduzidos ao escândalo.
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