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Mestre do redendê

Único homem bordador de Entremontes, Miguel Correia mantém viva uma tradição centenária tecida por gerações de mulheres

Mestre do redendê
Mestre do redendê
Fama. Formado em Direito, Correia trocou a carreira jurídica pelas rendas durante a pandemia. Agora, suas obras ganham as passarelas e os palcos pelo mundo afora – Imagem: Redes Sociais/Miguel Correia
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Quando o sol começa a se pôr no horizonte, aliviando o calor intenso na região do Baixo Sertão de Alagoas, Entremontes se transforma em um grande ateliê a céu aberto. Diante dos casarios coloridos, cadeiras ocupam as calçadas, linhas ganham vida entre os dedos que tecem o redendê e as conversas seguem o compasso das agulhas. A cena se repete há gerações. É um ritual cotidiano que ajudou a dar ao povoado emoldurado pelo Rio São Francisco o título de “capital do bordado”. Ali, essa arte não é apenas um ofício, mas uma linguagem que costura memórias, afetos e pertencimentos. Uma herança transmitida de mãe para filha, de avó para neta, numa tradição historicamente feminina. Praticamente todas as mulheres da localidade – mais de 300 dos cerca de mil habitantes – dominam a técnica de transformar linha em rendas geométricas.

Uma figura destoa nessa paisagem: Miguel Correia, um jovem advogado de 25 anos. Único homem bordador do vilarejo, ele ocupa um raro lugar numa tradição moldada por mãos femininas. Entre as contagens precisas dos fios e criações inovadoras, Correia desafia convenções enquanto ajuda a manter viva uma arte que atravessa gerações em Entremontes, um distrito de Piranhas, município a 260 quilômetros de Maceió. “Sempre foi muito comum os homens seguirem o caminho dos pais e as mulheres o das mães e avós”, explica Correia, neto de dona Maria Gogó, uma das bordadeiras pioneiras da comunidade e responsável por introduzir o redendê na localidade. De origem nórdica, a técnica chegou ao Brasil durante o período colonial e encontrou terreno fértil na região fronteiriça entre Alagoas e Sergipe, consolidando-se como uma das mais importantes expressões do artesanato local.

Correia foi criado pela avó, enquanto a mãe passava o dia trabalhando. Quando não estava na escola, acompanhava dona Maria Gogó à associação de bordado, um espaço que acabaria alinhavando seu destino. Foi ali que teve os primeiros contatos com o redendê. “Desde muito pequeno, ficava observando as bordadeiras trabalhando. O som das linhas correndo pelo tecido, o atrito da agulha, tudo aquilo foi me encantando”, recorda. A curiosidade logo virou prática. Escondido debaixo da mesa, começou a tecer seus primeiros pontos. “No redendê, a gente conta quatro fios e separa outros quatro. É um trabalho minucioso, que exige respeito à trama do tecido. Se errar a contagem, nada dá certo”, explica. O aprendizado, confidencia, foi construído entre tentativas e erros, até que os movimentos das mãos encontrassem o ritmo preciso da arte.

O cantor João Gomes levou uma das peças do artesão para um espetáculo em Portugal

A singularidade de sua trajetória chama atenção à primeira vista, mas até ocupar um lugar de destaque em Entremontes Correia precisou amadurecer, quebrar tabus e reunir coragem para trocar uma profissão socialmente prestigiada pela arte que aprendeu ainda menino. Formado em Direito, foi o primeiro da família a ingressar na universidade. Ainda na adolescência, chegou a se afastar das linhas e dos tecidos para escapar do preconceito. Com o passar dos anos, percebeu que sua realização não estava nos códigos, petições ou tribunais. O que o atraía era o som da agulha atravessando o tecido, a paciência dos pontos e a delicadeza do redendê.

Foi durante a pandemia de Covid-19 que Correia fez as pazes com essa arte. Ao ajudar a mãe na confecção de máscaras sanitárias bordadas, reencontrou o ofício que havia deixado para trás, marcando o início de uma fase de experimentação criativa, na qual passou a enxergar novas possibilidades para uma tradição muito mais ligada aos enxovais. “Voltei a bordar com as meninas nas calçadas e comecei a dar uma nova cara ao redendê, fugindo um pouco do tradicional e unindo a técnica a outros tipos de bordado, como o boa-noite, o labirinto e o ponto cruz”, conta. Até então, o bordado de Entremontes era voltado principalmente para a confecção de lençóis, toalhas, colchas e jogos americanos. Correia decidiu ampliar esse universo e levar a arte para a moda autoral.

As referências nasceram da própria paisagem que o cerca. “Passei a criar a partir do nosso cotidiano, trazendo para as peças os casarios, os peixes, as canoinhas e frases que remetem à vida da nossa gente. São símbolos de quem vive às margens do Velho Chico. Começamos a levar essas imagens para roupas, quadros decorativos e cortinas, ampliando a produção e dando uma nova roupagem ao que já fazíamos”, conta. Foi nesse processo que também venceu a timidez. “A partir daí, perdi a vergonha”, completa, exibindo o trabalho com orgulho. O redendê ganhou novos contornos. Deixou de habitar apenas os bastidores das casas e calçadas do povoado para levar identidade a vestidos, camisas, saias e outras peças que passaram a circular por passarelas, feiras e eventos de moda. A tradição centenária encontrou novos caminhos sem perder suas raízes.

Hoje, seu maior projeto é ensinar o ofício a meninos do sertão alagoano

Em 2025, a Entreartes, marca criada por Correia, foi indicada pelo portal FFW, uma das principais plataformas de moda do País, como um dos destaques do ano na categoria Projeto Artesanal. O reconhecimento simboliza mais do que uma conquista individual. É a memória de um Brasil profundo, do interior nordestino, sendo ressignificada e projetada para uma estética contemporânea. Hoje, Miguel leva o nome de Entremontes a lugares que seus bordados alcançaram antes mesmo de seus próprios passos. No fim de maio, peças produzidas por ele integraram o figurino do cantor João Gomes durante um show em Portugal.

“Meu maior sonho era levar isso adiante, mostrar para o mundo que a gente consegue fazer arte, que consegue fazer moda, mesmo estando em Entremontes”, afirma. Seus planos vão muito além do reconhecimento pessoal. Agora, ele quer garantir que o redendê continue vivo nas mãos das novas gerações de meninos. A partir de julho, passará a oferecer oficinas da técnica para garotos de 7 a 12 anos, numa iniciativa que busca ampliar os horizontes de um ofício historicamente transmitido entre mulheres. Mais do que ensinar a contar fios e conduzir agulhas, Correia pretende abrir caminhos e inaugurar um novo capítulo na história de Entremontes, onde homens também possam se reconhecer como guardiões e criadores dessa herança cultural. •

Publicado na edição n° 1416 de CartaCapital, em 10 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Mestre do redendê’

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