Cultura
Novo passo em busca do público
Mesmo com limitações, a Tela Brasil nasce como uma possibilidade de ampliação do acesso a filmes brasileiros
Foi no Rio2C, um evento de perfil internacional, que costuma contar com os grandes players do entretenimento, e não em um dos muitos festivais dedicados ao cinema brasileiro, que o governo federal apresentou, no sábado 30, a plataforma Tela Brasil.
No mesmo espaço em que Globo, Netflix, Disney, YouTube e Warner Bros. discutiram os rumos do audiovisual, o presidente Lula criticou o mero consumo de “enlatados” (estrangeiros) e vinculou a importância do novo serviço público de streaming à possibilidade de compreensão do País.
“Por que nós somos assim? Por que nós fazemos assim?”, perguntou. “O mais importante é a gente conhecer o nosso país por dentro, conhecer a nossa cultura, a razão das coisas que fizeram a gente chegar onde nós chegamos.”
A presença de Lula contribuiu para dar visibilidade a um projeto que tem entre seus desafios, justamente, a visibilidade. Será que as pessoas vão acessar a Tela Brasil e, acessando, a ela voltarão? A barreira tecnológica, a julgar pelos primeiros dias de funcionamento, foi transposta. O acesso é simples, por meio de um login no gov.br, e a navegação é amistosa. A limitação é o fato de a tecnologia rodar apenas em versão web. Segundo o Ministério da Cultura (MinC), em 30 dias haverá um aplicativo para celular.
A Tela Brasil estreou com 555 obras brasileiras realizadas entre 1910 e 2025. Entre elas, 267 são curtas e 139 são longas-metragens. Há ainda telefilmes e séries. Na terça-feira 2, os dois títulos mais vistos eram A Hora da Estrela (1985) e Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964).
O investimento na plataforma, de acordo com Joelma Gonzaga, secretária do Audiovisual, foi de 10,1 milhões de reais – o valor de dois longas-metragens modestos no Brasil. Desse total, 3,8 milhões foram gastos em um edital voltado ao licenciamento de títulos; 570 mil reais em 19 filmes que representaram o Brasil no Oscar; e 5,6 milhões de reais em tecnologia.
Parte do acervo vem de instituições vinculadas ao MinC, como a Cinemateca Brasileira e a Funarte, e um acordo prevê a incorporação do acervo da EBC e da TV Brasil. A curadoria dá ênfase a recortes como cinema negro, cinema indígena e produções dirigidas por mulheres.
“A plataforma atualiza e amplia programas de acesso como a Programadora Brasil e o Cine Mais Cultura, promovendo a democratização do acesso no ambiente digital, de forma gratuita, com conteúdo 100% brasileiro”, diz Joelma. Os projetos citados buscaram, em outros momentos, o mesmo que a Tela Brasil busca agora: fazer com que a produção, quase toda viabilizada com recursos públicos, seja vista.
O projeto veio antes da regulação do streaming no País e terá desafios para alimentar o catálogo
Em 2025, foram lançados nos cinemas 203 longas-metragens brasileiros – desses, 48 foram vistos por menos de 5 mil espectadores. Embora, na plataforma, não haja o custo do ingresso ou da saída de casa, a concorrência no ambiente digital é enorme e a pergunta que ronda a sala de cinema vale para o streaming: como chamar o público?
Para Daniel Queiroz, da distribuidora Embaúba, que trabalha com filmes brasileiros de perfil autoral, justamente os que mais têm dificuldade de presença tanto no circuito comercial quanto nas plataformas, a função da Tela Brasil é clara. “Uma das principais coisas é levar o cinema brasileiro que circula entre quem já tem interesse prévio por cultura, que frequenta mostras e festivais, para um público além desse nicho”, diz.
“É a possibilidade de que filmes que, normalmente, estão em salas específicas, como o Estação, no Rio, o Espaço Petrobras, em São Paulo, estejam disponíveis para toda a população, principalmente em cidades do interior”, completa Queiroz. “O que veremos com o tempo é se os filmes mais relevantes que as pessoas querem ver estarão na plataforma.”
Hoje, na aba dedicada ao Oscar, está O Menino e o Mundo, mas faltam Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto – licenciados por Globoplay e Netflix ainda durante a produção. Ao mesmo tempo, é inegável que, embora pequeno, o serviço ampliou a possibilidade de que se veja, em casa, uma produção brasileira.
De acordo com o Panorama de Vídeo por Demanda 2025, da Agência Nacional do Cinema, entre os mais de 138 mil títulos disponíveis em 106 plataformas, 5,3% são brasileiros. A Netflix disponibiliza 7,8 mil obras, sendo 2,8% brasileiras – nos demais serviços internacionais, o porcentual é ainda menor. Outros serviços gratuitos, a Spcine Play, vinculada à prefeitura de São Paulo, e o IC Play, do Itaú Cultural, tinham, respectivamente, 200 e 121 títulos brasileiros.
A Tela Brasil, portanto, aumenta a oferta e responde a uma necessidade real de escoamento daquilo que é produzido e fica quase invisível.
O projeto esbarra, porém, na própria configuração do mercado audiovisual, em que a exclusividade é uma moeda valiosa e a oferta é sempre muito maior que a demanda. Terá o Poder Público condições de seguir investindo em licenciamento para formar um catálogo de fato atraente e significativo?
Outra sombra a pairar sobre a celebração em torno da Tela Brasil foi a ausência de uma regulação específica para o streaming no País – algo que não pode ser desconsiderado quando se fala em trabalhar por uma presença maior de obras brasileiras no vasto ambiente online. •
Publicado na edição n° 1416 de CartaCapital, em 10 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Novo passo em busca do público’
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