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O horror em família

Alpha, novo filme da premiada diretora francesa Julia Ducournau, em cartaz no brasil, usa uma epidemia misteriosa para colocar em xeque as estruturas afetivas

O horror em família
O horror em família
A protagonista é suspeita de ter uma doença que pode transformá-la em pedra – Imagem: Mandarim&Compagne Cinema
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Ganhadora da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2021 com Titane, a diretora francesa Julia Ducournau voltou no ano passado à competição do festival que a consagrou, mas não conseguiu causar o mesmo impacto. Ao contrário.

Alpha, seu terceiro longa-metragem, teve grande número de críticas e reações negativas. Tanto que quase um ano se passou entre a exibição na avenida ­Croisette e a estreia internacional em circuito comercial. No Brasil, o filme entrou em cartaz na quinta-feira 4.

A recepção morna contrasta com a trajetória artisticamente ascendente da realizadora. Aos 42 anos, ­Julia Ducournau­ é um dos principais nomes da nova geração do cinema na França. Da sua estreia no longa-metragem, com Raw (2016), até a conquista do mais prestigioso prêmio do circuito de festivais, passaram-se apenas dez anos.

Em ambos os filmes, a diretora abordou as fissuras e tensões familiares atravessadas por acontecimentos insólitos e por um dilacerante horror corporal, que rompe tecidos carnais, nervos e órgãos. Esse caminho, volta e meia, lhe vale comparações com o canadense David Cronenberg.

Em Alpha, a realizadora se mantém no terreno dos dramas íntimos domésticos que têm, como estopim para a trama, situações fantásticas. Desta vez, em um tempo indefinido, uma estranha epidemia transforma os infectados em pedra.

A personagem-título é uma adolescente de 13 anos (Mélissa Boros), com suspeita de ter contraído a doença. A situação deixa desesperada sua mãe (Golshifteh ­Farahani), mulher de origem norte-africana que já cuida obsessivamente do outro filho (Tahar Rahim), viciado em drogas.

Muito se falou das possíveis relações do enredo com a chegada da Aids nos anos 1980 ou mesmo com a Covid-19. Há, de fato, elementos suficientes para leituras nessa direção. Mas Julia é sofisticada demais para alegorias esquemáticas.

Alpha é seu filme mais rico em di­gressões e possibilidades inter­pretativas. Se em Raw a família era esgarçada até se unir pelo canibalismo, e Titane propunha um tipo alternativo de composição familiar, Alpha implode – quase literalmente – o núcleo íntimo retratado.

Julia Ducournau fala de dores e de morte, mas aponta, sobretudo, para a dificuldade de aceitar perdas. Ela faz isso com imagens grotescas e poéticas, num clima reforçado pela fotografia de Ruben Impens, que emula o terreno árido e melancólico por onde transitam os personagens.

Embora o conjunto seja irregular, o olhar original e vigoroso da diretora mantém-se intacto. •

Publicado na edição n° 1416 de CartaCapital, em 10 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O horror em família’

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