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Redução da jornada não afetará negativamente o setor produtivo
Reduzir a jornada sem cortar salários é uma aposta na produtividade sustentável e na sobrevivência da empresa
A redução da jornada de trabalho divide o setor produtivo. Parte dos empresários tem uma preocupação legítima com possíveis custos adicionais, reorganização de escalas e o impacto na operação. Os dados disponíveis, no entanto, apontam em outra direção.
Um levantamento da VR, empresa brasileira de benefícios e gestão de jornada que analisou mais de 33 mil empresas, identificou que 42% das que fecharam as portas tinham predominância de trabalhadores em escala 6×1, com média de vida de apenas cinco anos. Entre as que operavam em 5×2, a sobrevivência chegava a sete anos. Para quem opera com margens apertadas e equipes no limite, a mudança exige planejamento — mas ignorá-la pode custar mais caro.
O Projeto de Lei 1.838/2026, enviado pelo governo federal, propõe reduzir a jornada semanal máxima de 44 para 40 horas e garantir dois dias consecutivos de descanso por semana, sem qualquer redução salarial. Aprovado pela Câmara dos Deputados em 27 de maio, com 461 votos a favor e 19 contrários, o texto segue agora para o Senado.
Evidências questionam a relação entre horas trabalhadas e produtividade
Um estudo da FGV acompanhou 19 empresas brasileiras que reduziram a jornada por conta própria, antes de qualquer obrigação legal. Em 72% delas, a receita aumentou. O cumprimento de prazos melhorou em 44%. Os números contradizem a premissa de que mais horas trabalhadas resultam em mais produção.
A consultoria global Hogan Assessments, que trabalha com avaliação de liderança em algumas das maiores organizações do mundo, identificou em seus estudos que profissionais submetidos a pressão prolongada apresentam menor engajamento e experiências emocionais mais negativas. “As organizações estão começando a reconhecer que produtividade não se resume apenas ao número de horas trabalhadas. Ela também é moldada pela forma como os funcionários vivenciam pressão, autonomia, recuperação e suporte ao longo do tempo”, afirma Alise Dabdoub, diretora de inovação de produtos da consultoria.
O levantamento da VR reforça essa leitura pelo ângulo do risco. Trabalhadores em escala 6×1 respondem por 41,9% dos casos de excesso significativo de horas extras, entre 54 e 64 horas semanais, e por 19,6% dos casos de excesso extremo, acima de 64 horas. Além do custo humano, há o custo jurídico. Segundo cálculos da própria VR, empresas que adotaram ferramentas de gestão de jornada economizaram mais de R$ 1 bilhão com processos trabalhistas, turnover e controle de ponto até novembro de 2025.

Empresas antecipam ajustes de jornada antes de qualquer obrigação legal
O debate no Congresso produziu um efeito que antecede qualquer mudança legal. Empresas passaram a revisar escalas e modelos de jornada como parte de suas estratégias de gestão de pessoas, motivadas tanto pelo risco regulatório quanto pela disputa por talentos. Redes internacionais do varejo, como a H&M, e operações do setor de hospitalidade no Brasil, como o Palácio Tangará, testaram ajustes em jornadas e modelos de descanso antes de qualquer obrigação legal. A pesquisa Genial/Quaest de maio de 2026 mostrou que mesmo entre a faixa de renda mais resistente à proposta, a maioria mantém apoio quando a irredutibilidade salarial está garantida.
Para Angélica Madalosso, especialista em marca empregadora e CEO da consultoria ILoveMyJob, esse movimento tem impacto na forma como as empresas são percebidas pelo mercado. “Quando uma empresa antecipa tendências regulatórias e entrega práticas mais modernas de jornada, ela diz ao mercado que você não precisa escolher entre ter uma carreira e ter uma vida. Isso posiciona a marca empregadora em outro patamar”, afirma.
O advogado trabalhista Lucas Aguiar avalia que a mudança exigirá planejamento, mas não inviabiliza a operação. “Na maioria dos casos, não será necessário contratar imediatamente. Um ajuste na escala já resolve, com todos os períodos cobertos pela mesma equipe. O desafio é conseguir reduzir a quantidade de horas trabalhadas sem impactar os resultados, a gestão e a saúde financeira das empresas”, observa.
Afastamentos e rotatividade revelam o peso oculto do modelo atual
A resistência do empresariado ao fim da escala 6×1 concentra-se nos custos da transição. O que os dados mostram é que o custo de manter o modelo atual também é real, só que distribuído de forma menos visível. Em 2025, o Brasil registrou 546.254 afastamentos por transtornos mentais, segundo o Ministério da Previdência Social, crescimento de 15,66% em relação ao ano anterior. Ansiedade, depressão e esgotamento lideram os diagnósticos. Cada afastamento representa dias de trabalho perdidos, substitutos contratados, processos abertos e benefícios pagos.
O turnover, um dos maiores custos ocultos do mercado formal brasileiro, também está diretamente relacionado ao esgotamento. Empresas que retêm menos precisam recrutar e treinar mais. O ciclo é caro e se retroalimenta. “Historicamente, as empresas tendem a recompensar visibilidade, confiança e resistência”, afirma Alise Dabdoub, da Hogan Assessments. “Mas os profissionais estão sinalizando cada vez mais que querem líderes capazes de criar estabilidade, consistência e ambientes de alta performance mais saudáveis.”
A PEC 221/2019 estruturou um parecer que garante a folga dupla de forma imediata a partir de 2026 e estabelece uma transição de dois a cinco anos para a redução da jornada de 44 para 40 horas. A estratégia oferece ao setor produtivo o tempo necessário para organizar escalas, revisar contratos coletivos e absorver os custos de forma gradual. O empresário que usar esse período para se adaptar sairá em vantagem. O que resistir até o limite encontrará um mercado de trabalho já reconfigurado ao redor.
A discussão sobre o fim da escala 6×1 costuma ser enquadrada como uma pauta de trabalhadores. Os dados mostram que é também uma pauta de empresários inteligentes. Reduzir a jornada sem cortar salários não é concessão, mas uma aposta na produtividade sustentável, na retenção de talentos e na sobrevivência de longo prazo do negócio. As empresas que entenderam isso antes da lei já estão colhendo os resultados. As que esperarem a obrigação legal para agir terão perdido tempo que o mercado não devolve.