Do Micro Ao Macro

O inadimplente que nunca ficou no vermelho: fintech mapeia o perfil de risco que os bancos não enxergam

Levantamento com 78,5% dos solicitantes sem saldo negativo revela que o desequilíbrio entre renda e gastos antecipa o calote melhor do que o extrato bancário

O inadimplente que nunca ficou no vermelho: fintech mapeia o perfil de risco que os bancos não enxergam
O inadimplente que nunca ficou no vermelho: fintech mapeia o perfil de risco que os bancos não enxergam
O governo do presidente Lula não poupa esforços para encontrar medidas que mitiguem o endividamento familiar. Foto: reprodução
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O risco de inadimplência em empréstimos aparece antes de o saldo cair abaixo de zero. Um levantamento da Aro, fintech de crédito com sede em São Paulo, indica que o desequilíbrio entre renda e gastos é um sinal mais consistente de risco do que o saldo bancário em um momento específico.

Os dados contradizem uma percepção difundida entre credores e analistas. Do total de clientes que solicitaram empréstimo à empresa, 78,5% nunca registraram saldo negativo no período analisado. Mesmo assim, 65% desses clientes gastaram mais do que receberam no acumulado de 12 meses.

O nível de liquidez da base reforça esse quadro. Dois terços dos clientes, 66,9%, mantêm saldo médio anual inferior a R$ 100. Outros 93,5% ficam abaixo de R$ 500. E 82,3% não têm poupança nem investimentos de nenhum tipo.

É nesse ponto que entra a análise da Aro. A empresa combina dados de Open Finance, informações de birôs de crédito e variáveis comportamentais para acompanhar o fluxo financeiro dos clientes ao longo do tempo, não apenas em cortes pontuais.

Fluxo financeiro e análise de risco

Quando olhamos apenas para o saldo em um determinado momento, podemos perder o que está acontecendo ao longo do tempo. Ao considerar o fluxo financeiro completo, percebemos que muitas pessoas operam sem folga, ainda que não estejam com saldo negativo”, afirma Pedro Milanez, cofundador e CEO da Aro.

O argumento da empresa é que renda consistente, padrão de gastos e capacidade de manter alguma margem ao longo dos meses dizem mais sobre o risco de um tomador do que o histórico de negativações.

Para os modelos tradicionais de crédito, que operam em grande parte a partir de eventos binários como estar ou não negativado, essa abordagem representa uma mudança de lógica. Um cliente que nunca atrasou parcela e nunca teve saldo negativo pode estar, na prática, sem nenhuma reserva para absorver um imprevisto.

O que os dados sugerem para o mercado de crédito

A incorporação de variáveis comportamentais no processo de análise tem efeitos práticos para quem concede crédito. Parte dos tomadores classificados como risco elevado pelos critérios convencionais pode apresentar fluxo financeiro mais regular do que o saldo pontual indica. O inverso também acontece.

“O comportamento financeiro não se resume ao momento em que a pessoa entra no vermelho. Ele está na consistência de renda, no padrão de gastos e na capacidade de manter alguma margem ao longo do tempo”, diz Milanez.

Do ponto de vista regulatório, o avanço do Open Finance no Brasil amplia a disponibilidade de dados que tornam esse tipo de análise viável em escala. A questão, para o setor, é saber até que ponto os modelos de risco em uso acompanham essa disponibilidade.

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