Jorge Chaloub

Professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFJF

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Os outros nomes da direita

Com Bolsonaro preso e a família sob o peso de um escândalo, Caiado, Zema e Renan Santos buscam viabilidade entre a dependência e o custo crescente da adesão ao bolsonarismo

Os outros nomes da direita
Os outros nomes da direita
(Foto: CMN/Reprodução)
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Os últimos meses foram didáticos sobre a velocidade da política. Recebido inicialmente com descrédito, Flávio Bolsonaro passou a ser visto por muitos, da mídia às elites políticas, como favorito no pleito de outubro. Com o vazamento dos áudios, certezas se esvaíram. Aliados e adversários voltaram a questionar sua capacidade de manter coesa a coalizão de ultradireita construída pelo governo Bolsonaro, composta por novas lideranças e por setores radicalizados da direita tradicional.

Nesse cenário, os olhares se voltaram aos rivais que, apesar dos bons resultados do jovem Bolsonaro, lançaram candidaturas e alcançaram alguma relevância nas pesquisas: Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos.

Caiado e Zema disputam a base e as lideranças bolsonaristas, reivindicando bandeiras a ela vinculadas, como a anistia. Sua estratégia discursiva é questionar a capacidade de Flávio de manter coesa a coalizão de ultradireita construída em 2018, apresentando-se como melhores opções para a principal tarefa da direita brasileira: derrotar o PT. A afinidade entre ambos é reconhecida pelos próprios cabeças de chapa, que já especulam abertamente sobre uma possível fusão de candidaturas.

Santos segue caminho diverso: apresenta-se como alternativa à direita ao projeto da família Bolsonaro. Em suas manifestações, põe Bolsonaro, Caiado, Zema e até Lula no mesmo campo, de modo que ele seria o único candidato da direita. Embora o PT siga como principal adversário, Renan não poupa o bolsonarismo. Vai além do mero questionamento da liderança de Flávio.

Forte entre um eleitorado pequeno é improvável que a candidatura de Renan Santos tenha nas urnas o impacto que alcança nas redes

Caiado e a direita tradicional

Caiado tem no ataque a Lula o centro de quase todos os seus pronunciamentos. Em regra, contrapõe sua gestão em Goiás e suas promessas de campanha aos mais diversos males nacionais, sempre atribuídos ao PT. Com menções à corrupção e à ineficiência, retrata o Partido dos Trabalhadores como inimigo de quem diverge não apenas na forma de governar, mas na qualidade moral. Particularmente didática é uma postagem na qual acusa Guilherme Boulos de ser um conhecido bandido, agora convertido em “sicário” de Lula.

Os ataques constantes ao PT convivem com uma postura que oscila entre a simpatia e o silêncio em relação a Bolsonaro. Dele, Caiado aproveita slogans pretéritos, como “menos Brasília e mais Brasil”.

O combate à violência ocupa lugar de destaque em suas manifestações públicas, com promessas de endurecimento, citações de políticas supostamente bem-sucedidas em Goiás e novas acusações ao PT. O tom remete a linguagens corriqueiras no campo bolsonarista. Já o “Agro” surge menos como tema de política pública do que como imagem de um Brasil que deu certo, contraposto ao “Brasil do PT”.

O ex-governador de Goiás é um longevo protagonista da direita tradicional brasileira no pós-88. Seus vínculos lhe garantem um farto financiamento de campanha, mas a escassa presença nos estados mais populosos dificulta sua afirmação como candidato. Nem mesmo o agro ele consegue unificar, como expõe a presença da senadora Tereza Cristina no campo bolsonarista.

Zema e o ultraliberalismo performático

Zema chegou ao governo de Minas embalado pela onda bolsonarista de 2018. O mineiro aposta no ultraliberalismo, definido pela destruição das dimensões do Estado destinadas à política social, e o tempera com pitadas de um conservadorismo típico das guerras culturais de inspiração norte-americana.

Em suas redes, a solução vem por meio de privatizações, como as da Petrobras e do Banco do Brasil, e do desmonte das mais diversas capacidades estatais. Um de seus motes mais comuns afirma que o Estado é rico e o povo pobre, problema que seria solucionado com corte de impostos e venda do patrimônio público.

Outros temas do bolsonarismo o acompanham, como a conjunção entre segurança pública punitivista e menções à corrupção, sempre tomando o PT como fiador desses males brasileiros. Longamente vinculado a Bolsonaro, Zema procurou aproveitar os áudios entre Flávio e Vorcaro para se distinguir do combalido oponente, de forma bem mais enfática que Caiado. A profunda identificação entre sua trajetória e a da família Bolsonaro torna, contudo, o esforço difícil.

Se tem alguma vantagem por ter como domicílio eleitoral o segundo maior colégio do país, Zema carrega o peso de uma base pouco sólida entre as elites econômicas e em vastos contingentes populacionais. Nem mesmo em seu estado é capaz de vencer Lula. O uso folclórico das redes, em performances como comer bananas com casca, aposta no ridículo como forma de popularidade. Não é fácil, porém, transformar like em voto.

Renan Santos e a direita das redes

Ao lado dos dois governadores, outro grupo conseguiu construir uma candidatura alternativa com alguma relevância, talvez pensando menos em 2026 do que em 2030 ou 2034: o MBL, agora representado pelo Partido Missão. Próximo a parte do repertório bolsonarista, o grupo sempre testou a resiliência de sua base social, buscando construir alternativas ao capital eleitoral do ex-presidente. Diferentemente de seus concorrentes, há muito aposta em críticas diretas a Bolsonaro e aos seus filhos.

A maior parte das lideranças do Missão é formada por personagens nativos das redes, forjados como lideranças políticas no ambiente digital, o que os faz transitar naturalmente entre o on e o offline. Versões mais radicais do ultraliberalismo, como o anarcocapitalismo, são frequentes em seus discursos, muitas vezes sobrepostas a motes neoliberais clássicos ou mesmo à defesa de pautas distantes da atual ultradireita, como a industrialização do Nordeste ou a defesa, em termos peculiares, do SUS.

O grupo também mobiliza a linguagem do reacionarismo, devidamente aggiornado para o mundo virtual, em que cruzadas surgem em estética gamer e missas em latim ganham tom pop. Por fim, recorre a jargões reciclados das guerras culturais do conservadorismo norte-americano para tratar de gênero, raça e Estado de bem-estar social.

Todo esse palavrório, contudo, é menos importante do que a construção estética de um ator político que reivindica radicalidade e novidade para se distinguir até dos aliados de véspera. A coerência do Missão-MBL deriva mais de uma construção identitária, marcada pela preocupação com a imagem do grupo, do que da consistência de um programa, apesar de performances como o “livro amarelo”. Forte entre um eleitorado pequeno, composto sobretudo por homens jovens de classe média, é improvável que a candidatura de Renan Santos tenha nas urnas o impacto que alcança nas redes.

A direita brasileira é vítima do mundo que ajudou a criar em 2018. Sócia menor da coalizão de ultradireita, tornou-se dependente de Bolsonaro, líder de um projeto sobretudo familiar, como a atual eleição demonstra. Com o patriarca preso e a família vinculada a um escândalo de grandes proporções, o campo parece sem horizonte: seus candidatos não são competitivos sem o ex-presidente, mas o custo da adesão ao bolsonarismo se torna cada vez maior.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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