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Após três meses, Irã desafia estratégia militar de Trump

Economia global sofre cada vez mais as consequências de uma guerra que era para durar apenas algumas semanas e que não dá sinais de que vai acabar logo

Após três meses, Irã desafia estratégia militar de Trump
Após três meses, Irã desafia estratégia militar de Trump
O Irã resiste e dificulta os planos de Trump – foto: ATTA KENARE / AFP
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A Guarda Revolucionária iraniana afirmou nesta quinta-feira 28 que lançou um ataque contra a base aérea dos Estados Unidos de onde, horas antes, teve origem um ataque ao sul do Irã, nas proximidades de Bandar Abbas, a principal cidade portuária próxima ao Estreito de Ormuz.

Esses novos ataques ocorreram em meio às difíceis negociações entre ambos os países para pôr um fim à guerra, que foi iniciada pelos Estados Unidos e por Israel com ataques a Teerã e outras cidades iranianas há exatos três meses, em 28 de fevereiro de 2026.

Naquele dia, o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, descreveu as operações como sendo preventivas e realizadas para eliminar ameaças ao Estado de Israel. Logo em seguida, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou participação ao afirmar, num vídeo publicado nas redes sociais, que os EUA iniciaram “grandes operações de combate no Irã”. Ele alegou que o Irã continuava desenvolvendo seu programa nuclear e planejava construir mísseis capazes de atingir os Estados Unidos.

Conflito ‘de curta duração’

Já no dia seguinte, Trump dizia que o conflito seria de curta duração e que o Irã estava disposto a negociar. “Sempre foi um processo de cerca de quatro semanas, então, por mais forte que seja, é um país grande, levará quatro semanas ou menos”, declarou ao jornal britânico Daily Mail.

Pouco mais de uma semana depois, Trump dizia, em declarações à emissora americana CBS, que a guerra estava praticamente encerrada. “Se você olhar, eles não têm mais nada. Não sobrou nada em termos militares”, afirmou sobre o Irã.

O presidente daria declarações semelhantes nas semanas seguintes. Mas, dentro da base republicana nos Estados Unidos, muitos estavam insatisfeitos – Trump, afinal, concorrera à presidência criticando as “guerras eternas” e parecia agora estar ele mesmo iniciando uma.

Até mesmo comentaristas simpáticos a Trump, como Joe Rogan, talvez o podcaster mais famoso dos EUA, criticavam a discrepância entre o que o presidente prometera na campanha eleitoral e o rumo da sua política externa.

Insatisfação crescente nos EUA

E nem mesmo estava claro por que essa guerra havia começado. Pesquisas de opinião mostravam que a maioria dos americanos era contra o conflito e que apenas alguns poucos percebiam o Irã como uma grande ameaça aos EUA.

Atacado, o Irã reagiu como estrategistas militares em Washington previam havia décadas: atacando bases americanas em países aliados dos EUA do outro lado do Golfo Pérsico e fechando o Estreito de Ormuz.

Globalmente, os preços do petróleo dispararam, e o regime em Teerã mantém desde então a economia mundial sob tensão. O presidente dos EUA, aparentemente, foi pego de surpresa por essa evolução dos fatos.

A pressão sobre os preços dos combustíveis resultante do bloqueio do Estreito de Ormuz piorou ainda mais a opinião dos americanos sobre a guerra. Internamente, o conflito se tornou um veneno para a popularidade do presidente, que tentará manter sua maioria parlamentar nas eleições de novembro.

Nesta quarta-feira, Trump disse não se importar com as eleições. “Olhem o que aconteceu ontem à noite”, declarou em referência às primárias republicanas do Texas nesta terça-feira, nas quais venceu um candidato apoiado por ele.

Um presidente perdido

A guerra foi sendo acompanhada por Trump com inúmeras postagens na sua rede social Truth Social. Às vezes, ele ameaçava com a morte de uma civilização inteira, outras vezes prometia uma paz rápida, em outras exigia rendição incondicional dos iranianos. Intercaladas a essas postagens, havia repetidas diatribes contra os aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) que se recusaram a entrar no conflito.

Por fim, em 8 de abril, Trump anunciou um cessar-fogo, constantemente desrespeitado por ambos os lados.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump – Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP

Para analistas está cada vez mais claro que Trump está perdido, pois os sucessos de suas forças militares, obviamente superiores às iranianas, não se traduziram numa vitória estratégica. Os iranianos passaram a explorar essa situação e a negociar lentamente, elevando a pressão interna sobre Trump.

O chanceler federal alemão, Friedrich Merz, resumiu a situação ao afirmar que não vê uma saída estratégica para os americanos. “Sobretudo porque os iranianos estão claramente negociando de forma muito habilidosa – ou muito habilidosamente não negociando”, afirmou no fim de abril.

Objetivos não alcançados

Trump havia entrado na guerra afirmado que seus objetivos eram impedir o Irã de ter uma arma nuclear, acabar com a ameaça que o país representava para a região e os interesses dos EUA e ajudar os iranianos a derrubarem o regime.

Não há indícios de que esses objetivos tenham sido alcançados, e muitos analistas afirmam ser improvável que o sejam.

Outros sugerem que a guerra poderia tornar mais – e não menos – provável que o Irã intensifique seus esforços para desenvolver uma arma nuclear a fim de se proteger, seguindo o raciocínio da Coreia do Norte.

Outro dos objetivos declarados de Trump – forçar o Irã a interromper o apoio aos grupos armados que apoia – também permanece não alcançado.

Além disso, os Estados Unidos lidam agora com uma nova liderança iraniana ainda mais linha-dura do que a anterior, que foi morta nos ataques. Num cenário pós-guerra, o regime deverá ainda contar com mísseis e drones suficientes para continuar representando um perigo para a região e os interesses dos EUA.

Na prática, Trump reduziu suas ambições iniciais e está sobretudo preocupado com a reabertura do Estreito de Ormuz e com uma solução para o urânio altamente enriquecido do Irã. Mas não parece haver disposição por parte do Irã em fazer concessões significativas nessas questões.

Trump, um loser?

Está claro que, apesar de todas as pesadas perdas na liderança em Teerã, o regime iraniano sobreviveu à pressão militar dos Estados Unidos, e crescem as dúvidas de que Trump vá conseguir traduzir os sucessos táticos das forças militares dos EUA num resultado que ele possa apresentar, de forma convincente, como uma vitória.

Trump corre agora o risco de ver os EUA e seus aliados árabes do Golfo saírem do conflito numa situação pior do que a que entraram, enquanto o Irã, mesmo abalado militar e economicamente, pode acabar com maior poder de barganha depois de ter mostrado na prática ser capaz de estrangular um quinto do suprimento mundial de petróleo e gás.

“Já se passaram três meses, e tudo indica que uma guerra – concebida para ser uma vitória fácil e rápida para Trump – está se transformando num fracasso estratégico de longo prazo”, afirmou Aaron David Miller, um ex-negociador para o Oriente Médio em administrações tanto republicanas quanto democratas.

Para Trump, isso conta, especialmente dada a sua notória sensibilidade quanto a ser percebido como um loser (perdedor), um insulto que ele prefere reservar a seus adversários.

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