Mundo

assine e leia

O pecado da escravidão

A primeira encíclica de Leão XIV une-se à posição da ONU na crítica ao neocolonialismo

O pecado da escravidão
O pecado da escravidão
Perdão. O papa se penitenciou pelo apoio da Santa Sé à escravatura e alertou para as modalidades novas de jugo – Imagem: iStockphoto e Alberto Pizzoli/AFP
Apoie Siga-nos no

Sem o carisma e a vitalidade de Francisco, o antecessor, o papa Leão XIV finalmente saiu da sombra e deu sentido ao seu pontificado. Na segunda-feira 25, o norte-americano ­Robert Prevost lançou a encíclica Magnifica ­Humanitas, que trata da salvaguarda dos seres humanos na era da Inteligência Artificial. O papa aproveitou a oportunidade para uma reparação histórica. “Em nome da Igreja, peço sinceramente perdão”, declarou, em referência à chancela da Santa Sé a séculos de escravidão. O reconhecimento papal deu-se dois meses depois de a Assembleia-Geral das Nações Unidas ter aprovado uma resolução na qual declara a escravatura como o maior crime contra a humanidade de todos os tempos.

Os dois enunciados não aconteceram por acaso. A declaração do Vaticano ocorre justamente num documento no qual o papa alertava para o impacto da IA e as novas formas de escravidão por conta da revolução digital e pela cobiça das grandes empresas do mundo por recursos naturais, uma vez mais depositados em solo de países que, nos últimos séculos, foram colônias. O pontífice foi claro sobre esse aspecto. Segundo ele, a Inteligência Artificial gera “novas formas de escravidão”, como a dos corpos “marcados, feridos e desgastados” daqueles que trabalham na extração dos “elementos de terras-raras” necessários para a tecnologia. Portanto, Leão XIV ressalta a importância do combate à escravidão moderna como mais um “teste decisivo para o discernimento ético” na transformação digital. Segundo ele, “a Igreja renova sua firme condenação a todas as formas de escravidão, tráfico e mercantilização de pessoas­” e não reagir a ou tolerar graves violações da dignidade humana significa tornar-se cúmplice. “Uma corrida por algoritmos cada vez mais poderosos e conjuntos de dados maiores, impulsionada pelo desejo de garantir o domínio geopolítico ou comercial”, denuncia na encíclica.

O futuro repete o passado. O avanço do processo tecnológico e o desenvolvimento da IA recolocaram o acesso aos recursos no centro da diplomacia e das canhoneiras. Governos como o dos Estados Unidos declaram abertamente o intento de anexar territórios. Há três meses, o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, alertou, na cúpula da União Africana, para a ameaça de uma “nova forma de colonialismo” em curso. “Não deve mais acontecer de rochas, solo e poeira serem exportados da África sem serem beneficiados.”

A defensiva dos países em desenvolvimento ocorre num momento em que magnatas, Donald Trump e a extrema-direita articulam uma operação sofisticada para desqualificar qualquer expansão de direitos ou o reconhecimento do custo da escravidão. Um dos passos fundamentais tem sido o de tentar reescrever a história e impedir que os atos do passado sejam tratados como crimes. Só assim, alegam observadores, haverá um espaço supostamente legítimo para perpetuar a exploração de terras e populações.

Em contraponto, magnatas, os EUA e a extrema-direita exaltam o passado colonial

Nos EUA, Trump assinou um decreto no qual dita que museus apenas terão recursos públicos se “glorificarem” a história do país. Empresas que estabelecem cotas raciais foram proibidas de ter contratos com o governo federal. Em fevereiro, o governo abriu um processo contra a Nike por suposta “discriminação contra empregados brancos”.

O racismo também foi institucionalizado na política externa. Quando Trump divulgou sua Estratégia de Segurança Nacional, no fim de 2025, uma frase se destacava: “Apagamento civilizacional”. Especificamente em relação à Europa, o documento alertava que “as políticas migratórias que estão transformando o continente” fazem parte de uma série de tendências que ameaçam torná-lo “irreconhecível em 20 anos ou menos”. Para diplomatas, o supremacismo branco estava instaurado de forma oficial.

Asfixiar a agenda do movimento negro passou a ser também um projeto regional. Dias antes de o papa lançar sua encíclica, os bastidores da diplomacia apontavam para uma manobra reveladora. Com a ameaça de retirar o visto de autoridades, chantagens e pressão sobre os países mais pobres da região, o governo Trump e a aliança ultraconservadora na América Latina conseguiram barrar um projeto de Brasil e Colômbia em defesa da população negra do hemisfério. O objetivo era a criação de uma Declaração Interamericana dos Direitos das Pessoas Afrodescendentes, tema que deveria estar na agenda da Assembleia-Geral da Organização dos Estados Americanos marcada para o fim de junho, no Panamá.

Um dos instrumentos de Trump foi ativar a aliança de governos ultraconservadores, como Argentina, Chile e Paraguai. A operação também passou pelo Caribe, região que possui grande população afrodescendente. O Departamento de Estado ameaçou retirar o visto de autoridades, caso esses países não aderissem ao esforço para enterrar o projeto. Os embaixadores do Haiti, Jamaica e Belize foram alvo de ultimatos. Outros países menores da região receberam recados de que a insistência em levar a declaração à assembleia seria encarada como afronta aos EUA. Diante da debilidade­ de vários desses governos, a pressão surtiu efeito. O embaixador norte-americano, Leandro Rizzuto, disse a interlocutores de diversos países que não admitiria que o tema dos direitos dos afrodescendentes conste da agenda do evento.

O êxito da Casa Branca em asfixiar o projeto foi interpretado como um sinal da força da aliança de extrema-direita na região, do poder de pressão dos EUA e da existência de um plano de sufocar a agenda progressista em direitos humanos. Se até agora a pauta ultraconservadora de Trump e o fim da agenda de diversidade eram uma realidade interna, a operação diplomática da Casa Branca revela que a estratégia é a de abafar também o avanço dos direitos das minorias no continente.

Em discurso perante os delegados da OEA, o representante da Colômbia alertou: a decisão era “uma mensagem profundamente desanimadora aos mais de 200 milhões de afrodescendentes nas Américas”. Para Bogotá, “o silêncio, a inação e o adiamento” da defesa dos direitos da população negra “perpetuam dinâmicas de exclusão e racismo”. A perpetuação não é, portanto, um acidente. •

Publicado na edição n° 1415 de CartaCapital, em 03 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O pecado da escravidão’

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo