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A disputa pelo “real”

As transformações digitais impulsionam o deslocamento do regime de verdade

A disputa pelo “real”
A disputa pelo “real”
A arquitetura algorítmica promove a mudança – Imagem: iStockphoto
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Há, em quase todos os lugares sociais da atualidade, um desconforto com as transformações em curso. Ele opera, em especial, a partir das transformações digitais, embora não circunscrito a elas. Fala-se em “aceleração dos tempos”, em “bolhas” sociais, em violência comunicacional e política, em “colapso da atenção”. Por baixo de cada uma dessas formulações há a mesma inquietação: a compreensão dos fluxos de informação no século XXI e das mudanças que eles impõem à vida em sentido comum. Não se trata, portanto, de discutir “verdade” e “mentira” como compartimentos estanques, nem de lamentar o avanço de uma sobre a outra, mas de compreender como essas duas categorias foram historicamente construídas, e por que as condições materiais dessa construção entraram em crise.

O conceito que melhor descreve o terreno em que verdade e mentira se constituem socialmente é o de regime de verdade, no sentido foucaultiano: o conjunto de procedimentos, instituições, autoridades reconhecidas e práticas que produzem, em cada sociedade, aquilo que pode ser dito como verdadeiro e aquilo que é desqualificado como falso. A política sempre operou nos limites entre essas duas categorias. Para fazer-se compreender, para provocar mudanças, para cristalizar continuidades. Construir o que conta como verdade, e desfazer consensos para deslocar enunciados rivais para a mentira, é poder político em sentido estrito.

O exemplo do capitalismo industrial é instrutivo. Ao longo do século XIX, os conglomerados urbanos amontoavam populações operárias em condições de miséria extrema, e as doenças que ali floresceram – cólera, tifo, tuberculose – passaram a infligir prejuízos ao próprio capitalismo, ameaçando a reprodução da força de trabalho. Foi nesse contexto que se forjou a ideia moderna de saúde pública como obrigação do Estado, algo morto desde o fim do Império Romano. Sua recriação mobilizou simultaneamente ciência (microbiologia, epidemiologia), filosofia (higienismo, utilitarismo) e política (legislação sanitária, urbanismo), três frentes operando juntas na construção de um consenso mínimo sobre o real, sobre quem está autorizado a dizê-lo e sobre o que se segue como ação coletiva. O capitalismo, em particular, nunca prescindiu dessa engenharia. Sem consensos mínimos não há contrato, moeda, propriedade, trabalho assalariado, direito codificado ou soberania territorial.

Conhecer foi substituído por consumir informação mediada

O que as transformações digitais põem em xeque não é “a verdade”. É essa engenharia. E a tese que propomos para nomear­ o momento é simples: pela primeira vez na história humana, o custo da verificação empírica da realidade tornou-se maior do que o custo da informação que circula sobre essa realidade. Essa inversão é o cerne do deslocamento nauseante que sentimos.

Conhecer sempre foi caro e tomava tempo. Requer aprendizado, exercício crítico, exposição ao erro, deslocamento do conforto e disposição para enfrentar uma realidade que, com frequência, nos desgosta. A informação sobre a realidade, em compensação, ficou radicalmente barata. Produzida e distribuída por sistemas algorítmicos que nos tratam como consumidores, não como cidadãos do conhecimento, ela chega rápida, fragmentada, afinada ao perfil de cada um e prazerosa na forma como se apresenta. O custo unitário da informação tende a zero. O custo do conhecer permanece alto, lento, desconfortável.

Diante dessa assimetria, é racional, no sentido econômico estrito, abandonar o projeto moderno de conhecer e contentar-se com o consumo passivo de informação mediada. Esse abandono não decorre de ignorância individual nem apenas de manipulação externa, embora ambas existam. É o efeito agregado de uma estrutura de incentivos: uma economia política do conhecer em que verificar não compensa, e a adesão a versões pré-formatadas compensa em tempo, atenção e pertencimento.

Daí a sensação coletiva de crise. Não vivemos o triunfo da mentira sobre a verdade. Vivemos o esmagamento, em larga escala, dos microconsensos sobre o que é necessário conhecer e como se conhece, consensos sem os quais nem ciência, nem democracia, nem mercado operam de modo sustentado. A pós-verdade, portanto, não é nome de uma ausência (a verdade que se foi). É nome de um deslocamento: o do regime moderno de produção do conhecer, do qual o capitalismo dependeu, em direção a um regime em que conhecer foi substituído por consumir informação.

Esse deslocamento não é tecnologicamente inevitável. É resultado de escolhas, sobre arquiteturas algorítmicas, modelos de negócio das plataformas, o lugar da educação pública, soberania informacional. Recolocar o problema nesses termos importa. Enquanto presa à dicotomia verdade/mentira, a crítica disputa um terreno onde só perde. Deslocada para a economia política do conhecer, abre-se a pergunta operacional do nosso tempo: que condições materiais, institucionais e pedagógicas reconstroem, no século XXI, a possibilidade do conhecer? •


*Marcio Pochmann é presidente do IBGE; Luiz Fernando Castelo Branco Rebello Horta é historiador e doutor em Relações Internacionais.

Publicado na edição n° 1415 de CartaCapital, em 03 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A disputa pelo “real”’

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