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O levante dos pobres

O presidente Rodrigo Paz paga o preço de trair a confiança da base popular

O levante dos pobres
O levante dos pobres
Insatisfação. O bloqueio das estradas impede a circulação de alimentos. Manifestantes ocupam as ruas de La Paz. O presidente opta pela repressão – Imagem: Marvin Recinos/AFP e Marcelo Camargo/Agência Brasil
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A capital da Bolívia está isolada por via terrestre há quatro semanas. Quase todas as vias de acesso estão bloqueadas e a feroz repressão oficial não tem conseguido dispersar multidões vindas de quase todo o país. La Paz enfrenta escassez de alimentos e combustíveis. Diante de uma renitente crise econômica, disparada nos preços e queda da qualidade de vida, sobram motivos para justificar a ira popular. Há poucas semanas, um lote de combustível adulterado danificou mais de 10 mil veículos, enfurecendo os proprietários. O ataque estadunidense ao Irã deflagrou uma inflação nos preços de combustíveis que ainda não chegou ao país andino. A exigência majoritária é a renúncia do presidente Rodrigo Paz, no poder desde novembro passado.

Os protestos fazem convergir trabalhadores assalariados, autônomos, precarizados, professores da rede pública, mineiros, pequenos agricultores e vários movimentos indígenas quéchuas e aimarás­, agrupados em dezenas de entidades locais e nacionais, com destaque para a histórica Central Operária Boliviana.

O gatilho para a rebelião foi a sanção da Lei 1720. Em um documento de uma página e cinco artigos, o governo praticamente anularia a reforma agrária conquistada pela Revolução de 1952. “O objetivo é (…) converter a classificação de pequenas propriedades tituladas para médias propriedades.” Em duas linhas, sob o pretexto de abrir espaço para os camponeses hipotecarem suas terras em busca de créditos, acabaria o direito social de lotes oriundos da democratização fundiária, abrindo o setor para o mercado.

A norma legal foi revogada antes mesmo de entrar em vigor, um mês depois de aprovada. Mas o clima de animosidade popular não arrefeceu. “Depositamos total confiança no governo nos últimos seis meses, e eles nos viraram as costas”, argumentou David Mamani, dirigente da federação camponesa Tupak Katari de La Paz, em vídeo no YouTube.

A insatisfação tem, porém, raízes profundas e se expressou nas urnas. A marca maior das eleições presidenciais de 2025 foi escancarar a implosão do MAS, que governou a Bolívia por quase duas décadas, sob as presidências de Evo Morales e Luís Arce. Embora a economia tenha crescido, em média, 5,7% nos quatro primeiros anos da administração de Morales, bem acima da média continental de pouco mais de 3%, não houve mágica. O boom das ­commodities trouxe breve prosperidade a largas extensões da periferia global. O MAS, criado nos anos 1990, vive uma crise aparentemente terminal. Dividido em três alas, o movimento foi praticamente riscado da vida institucional. Em 2006, nas eleições para a Assembleia Constituinte, a legenda alcançou 51% dos assentos e não teve dificuldades de se compor até com a direita para aprovar seus projetos. Vinte anos depois, elegeu apenas 1,5% do total de deputados. Os partidos de direita, apoiadores do governo, somam 91,5% na Câmara e 100% no Senado.

Ex-homem de confiança de Morales, Arce pilotou um mandato turbulento entre 2020 e 2025. A pandemia abalou a economia e o PIB chegou a cair 8,75% no primeiro ano de sua gestão. Encerrou o governo com uma inflação acumulada de 20,4%, problemas no abastecimento de combustíveis e uma recessão em curso. Diante da alta rejeição popular, abriu mão de tentar a reeleição. A disputa pública com Morales pelo controle do partido e pesadas acusações mútuas criaram uma espécie de tempestade perfeita contra a esquerda, que não passou do primeiro turno no ano passado, alcançando 9% nas urnas.

O moderado da campanha virou um típico neoliberal ao assumir o governo

Rodrigo Paz era pouco mais que um azarão na corrida presidencial que o levou à vitória no segundo turno com 54,5% dos votos, em 19 de outubro. Quatro meses antes, o então candidato patinava em quinto lugar nas pesquisas, exibindo 7,5% das preferências. Venceu a primeira volta, em 17 de agosto, com 32% dos sufrágios. Sua campanha foi inflada em grande medida por votos de setores populares, anteriormente fiéis ao MAS. Liderança de direita tida como moderada e oriundo de uma tradicional família de políticos – seu pai, Jorge Paz Zamora fora presidente entre 1989 e 1993 – o então candidato adotou pautas progressistas diante do ultraliberal Jorge “Tuto” Quiroga, que ocupara a cadeira presidencial entre 2001 e 2002. O eleitorado, diferentemente do Brasil em 2018 e da Argentina em 2023, rechaçou o caminho da extrema-direita, ao mesmo tempo que se afastou da esquerda.

Eleito no bojo de grave crise econômica, Paz agiu como qualquer neoliberal. Sem programa claro, optou pelo choque. Em 17 de dezembro, quarenta dias após a posse, apresentou o Decreto Supremo 5503, alentado arrazoado de 20 páginas e 121 artigos repleto de lugares-comuns mercadistas. Depois de eliminar o imposto sobre grandes fortunas, herança do MAS, o documento propunha cortar gastos no orçamento público, retirar subsídios dos combustíveis, congelar salários do funcionalismo público, ao mesmo tempo que apresentava compensações sociais, como o reajuste do salário mínimo pela inflação do ano anterior. A percepção geral foi, porém, de quebra de compromissos de campanha. Intensos protestos levaram à revogação da medida menos de um mês após sua aprovação.

Paz conduz um governo errático, ­baseado em denúncias de corrupção contra o MAS, medidas neoliberais e uma crescente aproximação com os Estados Unidos. No início de março, o mandatário voou para Miami com o propósito de se integrar ao Escudo das Américas, iniciativa da extrema-direita continental voltada para o combate ao chamado narcoterrorismo e formada por uma dúzia de países. Não à toa, oito deles apressaram-se em lançar um comunicado conjunto de apoio ao governo boliviano, acusando os movimentos populares de pretenderem “desestabilizar a ordem democrática”. Faziam eco a documentos semelhantes emitidos pelos governos dos EUA e de Israel.

Em sentido contrário, Gustavo Petro, presidente da Colômbia, se manifestou em 17 de maio: “A Bolívia vive uma insurreição popular. É a resposta à soberba geo­política. (…) Meu governo está disposto, se convidado, a buscar fórmulas pacíficas de saída à crise política boliviana”. A resposta de La Paz foi dura, expulsando a embaixadora colombiana do país, motivando igual iniciativa por parte de Bogotá. Lula decidiu se entender com Paz e enviar ajuda humanitária. O acirramento da disputa global Leste/ Oeste e o avanço da extrema-direita tende a articular cada embate local ao tabuleiro planetário.

Se Paz não apresenta um programa com começo, meio e fim, as manifestações das maiorias empobrecidas tampouco lograram construir uma unidade sólida ou revelar novas lideranças políticas. Ao contrário do que ocorreu na primeira década do século, quando o MAS se tornou um polo unificador das demandas sociais, não existe ainda uma alternativa organizada e com legitimidade na esquerda, apesar do visível enfraquecimento do governo. •


*Professor de Relações Internacionais da UFABC.

Publicado na edição n° 1415 de CartaCapital, em 03 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O levante dos pobres’

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