Aldo Fornazieri

Cientista político, autor de 'Liderança e Poder'

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A guerra e a IA

O mundo sombrio e militarizado proposto pelo manifesto da Palantir

A guerra e a IA
A guerra e a IA
Foto: BBC News
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A Inteligência Artificial está na guerra do Irã. Os Estados Unidos usam a plataforma Project Maven, software da Palantir, que agrega de informações de dados e imagens de sensores de satélites acoplados ao Claude da Anthropic, que produz cruzamento dessas informações para identificar pontos do inimigo. No início da guerra, os Estados Unidos bombardearam a escola de meninas, de 6 a 12 anos, na cidade de Minab, em ação sugerida por esse sistema. Mais de 160 crianças tiveram seus corpos destroçados.

A partir desse contexto começou uma guerra em torno dos usos, dos sentidos e das finalidades (ética) das IAs. Existem três grandes eixos estruturantes: o da ­Palantir, que estrutura a visão do governo Trump, o da Anthropic, contrária ao uso da IA na guerra, e o da encíclica de Leão XIV, também contra o uso na guerra.

A Magnifica Humanitas sustenta que a IA é a grande questão social do século XXI e que pode ter um impacto maior sobre as sociedades do que aquele verificado no processo da industrialização. Pode concentrar ainda mais os lucros, aumentando as distâncias entre riqueza e pobreza. O desemprego, a erosão de direitos e a exclusão social são agravados pela IA. A encíclica ataca o seu uso na guerra e a delegação de decisões letais a máquinas. Critica a concentração do poder e o controle das infraestruturas e dados. O papa pede o “desarmamento” das IAs, seu uso para o bem comum e solidariedade humana.

A posição da Anthropic ficou evidente a partir do uso que o governo dos EUA fez do sistema Claude no Irã. A empresa estabeleceu restrições e salvaguardas éticas, gerando um conflito que teve desfecho judicial. A Anthopic admite que a IA possa ser usada apenas para questões de defesa, mas com travas e limites. Rejeita totalmente o uso para armas automáticas, armas nucleares e vigilância doméstica em massa. Reagindo, o governo cancelou o contrato com a empresa.

A posição da Palantir é mais sombria e perturbadora e municia as posições do governo Trump. Em meados de abril, o CEO da Palantir, Alex Park, publicou um livro, The Technological Republic, do qual foi extraída uma síntese publicada no X, na forma de um manifesto de 22 pontos, que provocou uma avalanche de críticas.

As esquerdas o classificaram de tecnofascista. Yanis Varoufakis acusa a empresa de querer criar uma sociedade onde haverá uma massa de descartáveis e uma elite com poderes sem limites.

O manifesto sustenta que uma nova era de dissuasão militar, fundada na IA, está começando. Diz que o Vale do Silício tem uma “dívida moral” com a classe dominante, que viabilizou sua ascensão. As elites tecnológicas teriam obrigação de participar dos esforços de defesa do país, militarizando as tecnologias.

O soft power é classificado como mera retórica moralista. As sociedades livres de hoje precisariam ir além disso, o uso predominante do hard power, criado pelo software. Segundo o texto, a construção de armas de IA é uma inevitabilidade e os EUA precisam construí-las, integrando IA e soldados-robôs, para enfrentar os inimigos que as construirão.

A Palantir defende o serviço militar universal e obrigatório, preparando toda a sociedade para as próximas guerras, pois ela deve compartilhar os custos e os riscos da defesa. Quer dizer: seria uma sociedade militarizada.

O manifesto vê a sociedade enfraquecida, psicologizada, apegada a sensos de identidade e até emotiva. Em sua ansiedade, ela prefere esquecer quem são seus inimigos e vê na derrota deles um momento de reflexão moral, não de comemoração. Mas só a comemoração é capaz de construir um sentimento nacional de glória e grandeza.

Os Estados Unidos são a vanguarda mundial na afirmação de “valores progressistas”. Continuam a ser o país das oportunidades para aqueles que não são herdeiros. Garantiram a paz após a Segunda Guerra Mundial e, ao menos, três gerações não conheceram um conflito de grandes proporções. Não se fala das guerras das Coreias, do Vietnã, do Iraque e do Afeganistão. Não se observa que o “país das oportunidades” tem criado gerações de massas empobrecidas, carentes de assistência social básica.

O manifesto prega o fim do “desarmamento” da Alemanha e do Japão. Teria sido um erro a ser desfeito pelo rearmamento de ambos. O rearmamento do Japão seria um fator de equilíbrio militar na Ásia.

Por fim, seria preciso repudiar o desprezo aos bilionários. Eles devem ser aplaudidos, pois criam novas grandes narrativas. Repúdio também merecem a tolerância religiosa e o ­pluralismo ­superficial e vazio, que serviram para enfraquecer os valores da civilização ocidental. Quer dizer: os grupos plurais ­subumanos devem ficar subalternos ao poder branco ocidental. •

Publicado na edição n° 1415 de CartaCapital, em 03 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A guerra e a IA’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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