Ligia Bahia

Médica, professora titular da UFRJ, coordenadora do Grupo de Pesquisa e Documentação sobre Empresariamento da Saúde

Colunas

assine e leia

Quem paga plano de saúde

Vida longa e saudável não é destino, e sim decorrência de condições de vida, incluindo as de saúde, mais ou menos igualitárias

Quem paga plano de saúde
Quem paga plano de saúde
Etapas. Um dos êxitos da revolução foi elevar a expectativa de vida. O desafio é garantir bem-estar aos aposentados – Imagem: iStockphoto
Apoie Siga-nos no

Em dois eventos recentes (inauguração de novas linhas de luz do Sirius, em Campinas, e do Centro de Desenvolvimento Tecnológico da Fiocruz, no Rio de Janeiro), o presidente Lula afirmou serem os pobres que financiam bons planos de saúde dos ricos. Para pesquisadores dedicados a estudar as desigualdades na saúde, a frase, sobretudo a sua repetição, significa que o atual governo correlaciona disparidades nas chances de nascer, viver com qualidade e morrer com dignidade com a estratificação social. Vida longa e saudável não é destino, decorre de condições de vida em trabalho em sociedades, nas quais as políticas sociais, incluindo as de saúde, são mais ou menos igualitárias.

Os discursos de Lula, sobre a dependência de subsídios públicos para a consolidação e expansão de planos privados de saúde, elevam o patamar dos debates sobre políticas de saúde. Nunca nos faltaram evidências científicas sobre o uso privado do fundo público para a segregação dos pobres. Mas o uso de trabalhos acadêmicos para formular e implementar ações e políticas de saúde compatíveis com as necessidades da população não é automático.

Os crivos mais comuns são de ordem política. Nem sempre os argumentos racionais, baseados no conhecimento acumulado, são condizentes com a orientação de determinadas coalizações partidárias. Outros obstáculos têm natureza institucional. Por mais que as mudanças sejam desejadas, condições materiais para implementá-las não estão disponíveis.

Declarações de Lula sobre a origem das desigualdades na saúde representam a ruptura de uma linha contínua do tempo, delineada pela proposital confusão entre vontade política e dificuldades objetivas para assegurar o direito igualitário à saúde para a população. Ao questionar a falsa inevitabilidade da diferenciação dos cuidados à saúde pela capacidade de pagamento, o presidente Lula avança um programa de padronização da quantidade e qualidade da assistência: exames serão iguais, consultas serão iguais e resultados, também. Embora a tradução dos discursos presidenciais em ações concretas, incluídas no Agora Tem Especialistas, ainda sejam incipientes, o Brasil está abandonando a farsa dos benefícios da iniquidade.

É mentira dizer que plano privado de saúde é pago diretamente por seus clientes e alivia o SUS. Planos de saúde são financiados por isenções, deduções fiscais, subsídios para servidores públicos civis e militares. A expectativa de vida de negros e indígenas é menor que a de brancos. Essa sangria de recursos públicos resulta em indicadores de saúde piores do que os que seriam obtidos com uma alocação equitativa dos orçamentos públicos. Por outro lado, é verdade que o atendimento intermediado pelas empresas privadas, que mobilizam quase três vezes mais recursos per capita do que o SUS, é, frequentemente, mais rápido e personalizado.

Além disso, deduções do Imposto de Renda de pessoas físicas não se referem apenas aos planos de saúde. Pagamentos a serviços e profissionais de saúde, especialmente odontólogos, são relevantes (cerca de metade dos gastos tributários com planos), sugerindo que os incentivos fiscais também estimulam um mercado direto de prestação de serviços. É fato, o consumo de classes médias e altas de ações de saúde está pendurado em um arranjo tácito: políticas públicas apoiam a saúde privada. Entretanto, essas engrenagens não são movidas tão somente por “forças do mal.” Acordos sindicais que renovam a adesão aos planos privados, apoio ao SUS para pobres e medo de “cair no SUS” real, grupos econômicos setoriais com crescente poder econômico e político que se apresentam como repositórios da medicina de excelência nutrem a privatização da saúde.

Compromissos de Lula com mudanças efetivas no SUS incentivam e autorizam a elaboração de uma plataforma eleitoral para a saúde qualificada. Apesar de não agradar à maioria dos marqueteiros nacionais nem às corporações profissionais, plataformas eleitorais de países desenvolvidos contêm metas para reduzir distâncias entre exposição aos riscos, morbidade e mortalidade por cor/raça, local de moradia, gênero, pessoas com deficiência e a explicitação de prazos e estratégias para alcançá-las.

Parece tautologia, mas política de saúde se justifica pela melhora da saúde da população. A ousadia de Lula reúne velhas e fragmentadas bandeiras sob o sentido do direito universal. Zerar fila, carreira e salário adequados para trabalhadores, mais médicos, ambulâncias, hospitais, equipamentos e medicamentos são meios para vivermos mais e melhor em um país justo. •

Publicado na edição n° 1415 de CartaCapital, em 03 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Quem paga plano de saúde’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo