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Renda cresce no Brasil, mas concentração no topo reforça urgência da justiça tributária 

Ao introduzir mecanismos de tributação mínima sobre altas rendas, o País começa a enfrentar algumas distorções do sistema

Renda cresce no Brasil, mas concentração no topo reforça urgência da justiça tributária 
Renda cresce no Brasil, mas concentração no topo reforça urgência da justiça tributária 
A aliança da direita com o Centrão em pautas impopulares fortaleceu a bandeira da justiça tributária, avalia o parlamentar – Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil
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Os novos dados da PNAD Contínua sobre rendimento de todas as fontes mostram que a renda média da população brasileira voltou a crescer e mais pessoas passaram a ter algum tipo de rendimento. Esse movimento está associado à recuperação do mercado de trabalho, à valorização do salário mínimo e à retomada de políticas sociais nos últimos anos.

Ao mesmo tempo, os números confirmam que a concentração de renda segue sendo uma característica estrutural do País. A renda dos mais pobres cresceu, mas em ritmo muito menor do que a dos mais ricos. Entre os 10% de maior renda, os ganhos aumentaram cerca de 8,7%. Já entre os segmentos mais pobres, o crescimento foi de pouco mais de 3%. A distância entre o topo e a base da pirâmide continua enorme: os 10% mais ricos recebem, em média, quase 14 vezes mais do que os 40% mais pobres.

Esse padrão não é uma novidade. No Brasil, quando a economia melhora, a renda tende a subir para todos, mas sobe muito mais rápido para quem já está no topo da distribuição. Parte importante dessa dinâmica está ligada à forma como o sistema tributário brasileiro foi construído. O País tributa fortemente o consumo e os salários, enquanto grandes rendas, lucros e patrimônios recebem tratamento muito mais favorável. Isso significa que trabalhadores e trabalhadoras acabam pagando proporcionalmente mais impostos do que quem concentra riqueza.

Estudos recentes baseados em dados da Receita Federal enfatizam essa distorção. Nota técnica do economista Sérgio Gobetti indica que a progressividade do sistema praticamente desaparece no topo da distribuição de renda. Contribuintes com renda anual média de cerca de R$ 449 mil pagam uma alíquota efetiva próxima de 14%. Entre os extremamente ricos, com renda média superior a R$ 26 milhões por ano, a carga cai para cerca de 12,9%. Em outras palavras, o 0,01% mais rico paga proporcionalmente algo semelhante ao que paga um trabalhador que recebe cerca de R$ 6 mil por mês. 

Outro estudo, realizado em parceria entre a Receita Federal e o EU Tax Observatory, chega a conclusões semelhantes. De acordo com os dados divulgados, os milionários em dólar no País – pessoas que recebem mais de cerca de R$ 5,5 milhões por ano – pagam uma alíquota efetiva total de aproximadamente 20,6% quando considerados todos os tributos. Já o brasileiro médio enfrenta uma carga de cerca de 42,5%. Ou seja, proporcionalmente, quem está no topo contribui muito menos. 

Nesse sentido, é importante pontuar que a maior parte da população vive de salários, que são tributados diretamente e consumidos quase integralmente com despesas básicas, também tributadas de forma indireta. Já entre os mais ricos, uma parcela substantiva da renda vem de lucros, dividendos e aplicações financeiras, rendimentos que historicamente receberam tratamento tributário mais favorável. Isso permite que uma parte muito maior da renda permaneça disponível para novos investimentos e aquisição de patrimônios, pouco tributados ou isentos, ampliando a capacidade de acumulação de riqueza ao longo do tempo. 

Esse quadro ajuda a explicar por que as desigualdades persistem no Brasil mesmo em períodos de crescimento econômico. É também importante ressaltar que a distribuição da renda no País é atravessada por desigualdades estruturais de raça e gênero. As faixas de menor renda seguem sendo ocupadas majoritariamente por trabalhadores e trabalhadoras negras, que recebem salários menores, enfrentam maior informalidade e têm acesso mais restrito a oportunidades econômicas. Quando o sistema tributário concentra sua arrecadação em impostos sobre consumo e salários, ele acaba reforçando essa estrutura desigual. Por isso, em um País marcado por séculos de escravidão e hierarquias de gênero arraigadas, discutir justiça tributária também é discutir reparação.

A recente reforma da tributação sobre a renda representa um passo importante nesse cenário. Ao introduzir mecanismos de tributação mínima sobre altas rendas, o País começa a enfrentar algumas distorções do sistema. Os efeitos dessas mudanças, no entanto, começarão a aparecer apenas a partir de 2026. Além disso, os dados recém divulgados reforçam que esse processo precisa avançar muito mais. 

A partir desse diagnóstico, estamos construindo a campanha “Taxar os Super-ricos: justiça tributária começa no topo”, composta por 79 organizações da sociedade civil, entre movimentos populares, centrais sindicais, entidades estudantis, organizações feministas e do movimento negro, com atuação em 15 estados. A operativa da campanha reúne o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), a Oxfam Brasil, a Rede Jubileu Sul Brasil, o Instituto de Justice Fiscal (IJF), a Plataforma Justa e o Instituto de Referência Negra Peregum. 

O objetivo é colocar a justiça tributária no centro do debate público e ampliar a pressão por mudanças estruturais no sistema fiscal brasileiro. Entre as principais bandeiras da campanha estão a taxação efetiva dos super-ricos, a revisão de benefícios e privilégios fiscais que drenam recursos públicos, o fortalecimento da seguridade social e dos serviços públicos, além da construção de um sistema tributário capaz de enfrentar desigualdades de renda, raça e gênero. Mais do que uma discussão técnica, trata-se de decidir quem financia o Estado e qual projeto de País se pretende construir. Taxar os super-ricos é parte de um esforço para enfrentar privilégios que se reproduzem também por meio da tributação e reduzir desigualdades que continuam estruturando a sociedade brasileira. 

(Os autores deste artigo integram a campanha Taxar os Super-ricos: justiça tributária começa no topo)

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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