Do Micro Ao Macro
Empresas preferem estagiários com capacidade de aprender em vez de alto domínio técnico
Levantamento nacional com 260 profissionais de RH aponta que disciplina, postura e acompanhamento do gestor definem quem fica e quem é efetivado
Oito em cada dez empresas no Brasil afirmam que preferem efetivar estagiários com disposição para aprender do que candidatos com domínio técnico já consolidado. O dado vem de uma pesquisa do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) em parceria com o Instituto Locomotiva e revela uma mudança de prioridade dentro dos programas de estágio: a bagagem comportamental passou a valer mais do que o currículo de ferramentas.
O levantamento ouviu 260 profissionais de recursos humanos responsáveis por programas de estágio em todo o país. Os resultados apontam que competências como disciplina, pontualidade, proatividade e alinhamento com a cultura da empresa aparecem com mais frequência nos critérios de seleção do que as chamadas hard skills. Estas, segundo os entrevistados, são consideradas requisitos de entrada, não fatores decisivos.
Por isso, o perfil que as organizações buscam ao recrutar estagiários mudou de forma perceptível. A vontade de aprender foi citada como o critério mais valorizado no processo seletivo, acima do desempenho acadêmico ou do conhecimento em softwares e plataformas específicas.
Estágio estruturado ainda é minoria
A pesquisa mostra que a maioria das empresas ainda não tem um programa de estágio consolidado ao longo do ano. Apenas 32% operam com ciclos planejados e contínuos; os outros 68% contratam estagiários por demanda, sem cronograma fixo.
Entre as organizações com programas estruturados, o modelo predominante é generalista, com contratos de até dois anos. Esse é o prazo máximo previsto pela Lei do Estágio (nº 11.788/2008) para o mesmo empregador, exceto no caso de estagiários com deficiência.
Rotatividade e bolsa-auxílio como pontos de atenção
Apesar de reconhecerem o estágio como um canal de formação e captação de talentos, as empresas enfrentam desafios concretos na retenção. A rotatividade é o problema mais citado, apontado por 26% das organizações com programas estruturados.
Além disso, 17% dos entrevistados reconhecem que parte dos estagiários abandona o programa por condições pouco atraentes, especialmente o valor da bolsa-auxílio e a dificuldade de conciliar o trabalho com a grade acadêmica. São variáveis que os programas mais maduros já incorporam ao desenho da vaga.
Gestor define o resultado do estagiário
Um dos achados mais relevantes do estudo diz respeito ao papel da liderança direta. Para 78% das empresas, o desenvolvimento do estagiário depende mais do gestor imediato do que do modelo de trabalho adotado, seja presencial, remoto ou híbrido.
Por isso, 85% dos entrevistados defendem que os gestores recebam treinamento específico para acompanhar estagiários. A ausência desse preparo foi associada a menor performance dos jovens e a taxas de efetivação mais baixas.
Presencial ainda domina, mas estagiários querem flexibilidade
Atualmente, 85% dos programas de estágio operam em regime totalmente presencial. Ao mesmo tempo, 55% das empresas reconhecem que os próprios estagiários preferem formatos mais flexíveis.
Ainda assim, 83% das organizações acreditam que o trabalho presencial aumenta as chances de efetivação. Isso cria uma tensão entre o que os jovens esperam e o que as empresas consideram adequado para o aprendizado e a retenção.
Empresas integradoras ampliam qualidade do processo
O estudo também avaliou o papel das empresas integradoras, organizações que fazem a ponte entre estudantes e empregadores dentro dos programas de estágio. Os resultados indicam que a parceria tem impacto direto: 93% das organizações afirmam que esses intermediários garantem o cumprimento das exigências legais; 88% relatam melhora na qualidade das contratações; e 81% observam ganho de performance dos estagiários ao longo do programa.
Para Rodrigo Dib, superintendente institucional do CIEE, os dados apontam para um caminho claro. “Mais do que exigir domínio técnico na entrada, as empresas que investem em aprendizagem contínua e liderança preparada tendem a obter maior retenção, melhor performance e taxas mais elevadas de efetivação”, afirma o executivo.
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