Colunas
Por que deixamos a extrema-direita instrumentalizar a ânsia dos jovens pelo novo?
Como deixamos que o passado nos determine! Por que não educamos os jovens a buscarem o novo, suas originalidades?
“Se você sente dor, você está vivo. Se você sente a dor alheia, você é um ser humano” – Leon Tostoi
Quem ainda não viu Fanon, corra para ver. O filme é imperdível.
Ele soube sentir, profundamente, as próprias dores, mas foi avante: entendeu que elas não eram individuais, mas coletivas, fruto podre da colonização e de suas raízes nefastas, o racismo e a incapacidade de se colocar no lugar do oprimido.
Como Nise da Silveira fizera, Fanon libertou os doentes mentais dos grilhões da ignorância médica, emancipando-os como seres humanos plenos de todos os direitos a eles inerentes.
Mais ainda, como São Francisco, entendeu que o bem não se prega, faz-se.
Com efeito, a inteligência permitiu-lhe entender que cada geração tem uma missão. À dele, couberam as lutas de libertação do jugo colonial. Por isso, engajou-se de corpo e alma na luta pela liberdade da Argélia, cuja independência não chegaria a ver, falecendo um ano antes, de leucemia gravíssima.
Como um Abraão moderno, libertou seu povo de adoção (era caribenho de nascença), mas não pôde gozar a terra prometida, sem os males da colonização, cujos efeitos políticos e psíquicos analisou como nenhum outro, sendo médico psiquiatra de formação e profissão.
Um século antes, um filho de médico, Fiodor Dostoiévski, também exploraria os meandros da mente humana, com tal profundidade que mesmo os maiores críticos da época não conseguiriam aquilatar.
Com efeito, a novela A Senhoria só encontraria reconhecimento após a morte do autor.
No posfácio da excelente tradução da editora 34, diretamente do russo, a tradutora Fátima Bianchi registra:
“A Senhoria só começou a suscitar certo interesse após a morte de Dostoiévski, quando críticos e pesquisadores passaram a reconhecer nessa novela uma de suas primeiras – e mais importantes – vias de acesso a temas que iriam ocupá-lo intensamente no futuro. Ordínov [o protagonista] já traz dentro de si, em germe, o ‘subsolo’, a principal característica apresentada por seus sucessores, os contraditórios heróis de Dostoiévski que aparecerão na década de 1860 e que encontram em Memórias do subsolo (1864) um de seus momentos mais inquietantes”.
Na Itália, as especializações médicas em psiquiatria demandam que os médicos leiam Memórias do subsolo, tal a reconhecida habilidade de Dostoiévski em descrever o funcionamento da psique humana.
Essa precisão quase científica será reconhecida por Freud, que tinha o escritor russo no alto do panteão daqueles que o influenciaram nas descobertas sobre a psicologia humana.
No mesmo posfácio, Bianchi cita Bielínski, um dos principais críticos literários da época:
“Bielínski, no entanto, não estava longe da verdade ao sugerir que o escritor procurava ‘para si um caminho inédito’. Dostoiévski viveu uma época de grandes transformações sociais, que trazia à tona as questões mais inusitadas, e suas buscas por uma nova forma literária decorriam justamente da necessidade que sentia de interpretar do modo mais adequado esses acontecimentos, que na sua opinião ainda ‘ansiavam por uma palavra nova”.
O que o crítico do século XIX não percebera é que o autor fora adiante da literatura de vanguarda, de cunho social, como a do gigante Gogol.
Tal qual Fanon um século depois, Dostoiévski fora capaz de religar o individual ao coletivo, uma equação nova para o ser humano.
Assim como o martinicano Fanon, o autor russo percebera que havia uma missão para sua geração — e que para isso seria necessário encontrar novas palavras. Dar nome ao novo, como fizera o próprio Criador.
Pelas respectivas obras revolucionárias, ambos pagariam caro: o exílio siberiano para o primeiro, o tunisino para o segundo.
Talvez o caminho que ambos indicaram é de que mudanças revolucionárias são dificilmente compreendidas em seu tempo, em contraste com a visão daqueles que percebem a necessidade delas, a maturidade e a urgência para emergirem na História.
Destarte, o influente Bielínski equivocadamente interpretara, segundo Bianchi, a obra em apreço: “O que é isso, abuso ou pobreza de talento, que quer elevar-se à força mas tem medo de ir pela via comum e procura para si um caminho inédito qualquer?”.
Que dificuldade temos, muitas vezes, em enxergar o novo! Como deixamos que o passado nos determine! Por que não educamos os jovens a buscarem o novo, suas originalidades?
Por que deixamos que as extremas-direitas instrumentalizem a ânsia dos jovens pelo novo? Não tem sido assim que a velha política oligárquica os engana e amealha votos para que tudo fique como está? Não foi assim que a família Bolsonaro, cujos membros jamais empreenderam qualquer função produtiva, ascendeu? Não foi se propondo como o antissistema, o que rompe paradigmas, sendo, na verdade, todo o contrário?
Interessante notar o que, em carta a seu irmão Mikhail, Dostoiévski diria sobre a feitura daquela obra: “Estou escrevendo outra novela, e o trabalho vai de vento em popa, está saindo com facilidade e frescor, como nunca em Gente pobre” [a novela anterior dele].
Claramente, tudo saía com facilidade precisamente pelo frescor do novo. O autor estava imbuído da missão de buscar palavras que pudessem definir sentimentos, talvez antigos como a manipulação humana de que trata a novela, mas que iniciariam a humanidade em outro patamar de autoconhecimento. Uma missão revolucionária, necessária e já possível de ser empreendida, pois a humanidade estava então madura para compreendê-la, ainda que não contemporaneamente àquele gênio das letras russas.
Neste ano tão decisivo para os destinos do Brasil e da humanidade, estejamos abertos ao novo que responde às necessidades do nosso tempo, pois será a partir do Brasil que poderemos sentir a dor dos oprimidos e lutar por sua libertação das forças da recolonização que a todos nos ameaçam, como um passado que não quer passar.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.
Leia também
Flávio Bolsonaro tenta derrubar post que o chama de corrupto, mas juíza nega
Por CartaCapital
Moraes ouvirá a PGR sobre incluir Jair e Flávio em inquérito contra Eduardo Bolsonaro
Por Maiara Marinho
PF recebe pedido para investigar cobrança de dinheiro por Flávio Bolsonaro na casa de Vorcaro
Por CartaCapital



