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Ben Gvir não é uma exceção, é apenas mais honesto
A indignação de setores israelenses em relação ao vídeo dos ativistas humilhados não se dirigiu à violência em si, mas ao fato de ela ter sido filmada
As recentes imagens divulgadas pelo ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, mostraram a humilhação, agressão, tortura física e psicológica de integrantes da flotilha internacional com destino a Gaza. Os ativistas civis, sequestrados em águas internacionais por Israel enquanto transportavam ajuda humanitária para Gaza, foram expostos publicamente em vídeos utilizados como peça de propaganda e intimidação estatal.
Acompanhando o posicionamento de outras lideranças europeias, a primeira-ministra de extrema-direita italiana, Giorgia Meloni, grande aliada de Israel durante todo o genocídio israelense em Gaza, teceu duras críticas a Ben-Gvir — havia 29 italianos na flotilha. Em resposta, o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, acusou os “governos de esquerda” europeus por sua abordagem “radical e anti-israelense”. Também querendo se descolar da crise, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, em plena campanha eleitoral, buscou apresentar Ben-Gvir como um extremista isolado que não respeita os “valores e as normas de Israel”.
No entanto, existe uma questão impossível de ignorar: Ben-Gvir não é um radical marginalizado politicamente. Ele é ministro da Segurança Nacional de Israel. Ocupa um dos cargos mais importantes do Estado israelense, com controle direto sobre estruturas repressivas, forças policiais e políticas de segurança — além de armar os grupos paramilitares responsáveis pelos pogroms contra os palestinos na Cisjordânia. Continua no cargo porque possui respaldo político, eleitoral e institucional.
Mais revelador foi perceber que, em muitos casos, a indignação de setores israelenses não se dirigia à violência em si, mas ao fato de ela ter sido filmada e divulgada internacionalmente. Em hebraico, multiplicaram-se comentários afirmando que o erro de Ben-Gvir não teria sido a humilhação dos presos, mas sim a exposição pública da cena, capaz de desgastar a imagem internacional de Israel. Essa lógica não é nova. Ela aparece repetidamente quando crimes e abusos cometidos contra palestinos ou ativistas solidários se tornam impossíveis de esconder. O problema, para muitos, nunca é a violência. É a sua publicidade.
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Em 2024, durante a campanha presidencial dos Estados Unidos, Donald Trump defendeu o fim da guerra em Gaza não por um princípio moral ou humanitário, mas porque Israel estava perdendo a batalha das relações públicas — uma disputa tão ou mais importante que o conflito em si. Ao longo dos últimos anos, liberais israelenses difundiram discursos profundamente desumanizantes contra palestinos e contra qualquer pessoa que demonstre solidariedade à Palestina. Jornalistas, intelectuais e influenciadores israelenses já defenderam abertamente punições coletivas, fome, bombardeios indiscriminados e até violência sexual contra mulheres palestinas e ativistas. Em diversos casos, as críticas surgem apenas quando essas falas deixam de circular em espaços internos e passam a produzir desgaste internacional.
Dentro do mainstream político israelense contemporâneo, existem menos divergências sobre a violência contra os palestinos do que muitos observadores internacionais gostam de acreditar. A diferença central, em diversos casos, não está entre quem aceita ou rejeita práticas genocidas, mas entre aqueles que as defendem abertamente e aqueles que procuram revesti-las de linguagem diplomática, jurídica ou humanitária.
De um lado, estão figuras como Ben-Gvir, que fazem apelos explícitos à expulsão de palestinos, à destruição de Gaza, à intensificação da colonização e à violência irrestrita contra a população civil palestina. Uma amostra disso foi o bolo de aniversário que recebeu de sua esposa com a ilustração de uma corda de enforcamento em referência à recente lei que determinou a execução dos palestinos acusados de terrorismo. São políticos que verbalizam sem pudor aquilo que antes muitos preferiam comunicar de forma indireta.
Do outro lado, encontram-se os setores que tentam administrar essa mesma violência através de uma estética liberal e de um discurso supostamente moderado. Negam a existência de genocídio, tratam massacres de civis como “efeitos colaterais inevitáveis”, justificam bombardeios indiscriminados em nome de um abstrato “direito de autodefesa” e insistem em apresentar cada nova atrocidade como uma resposta excepcional a ameaças de segurança. Alguns chegam ao cinismo de continuar defendendo, em discursos voltados ao público ocidental, a ideia distante e abstrata de um futuro “Estado palestino”, enquanto apoiam ou silenciam diante da destruição concreta das condições mínimas para a existência desse próprio Estado.
A tentativa de apresentar Ben-Gvir como uma exceção serve para evitar uma discussão mais profunda sobre a normalização da tortura e do genocídio dentro da sociedade israelense. O político representa uma posição amplamente majoritária na sociedade israelense e que tem crescido nos últimos anos. Pesquisas mostram que 70% dos israelenses apoiam a pena de morte para palestinos acusados de terrorismo, enquanto 65% foram contra a detenção de militares israelenses filmados torturando e estuprando prisioneiros palestinos.
A tentativa de separar Ben-Gvir de Israel também ignora um fato evidente: ele não surgiu do nada. Ele é produto de décadas de radicalização política, desumanização dos palestinos e naturalização da violência estatal desde a fundação de Israel a partir da expulsão de 800 mil palestinos. Pesquisas eleitorais para o pleito previsto para acontecer em outubro de 2027 em Israel mostram que o seu partido deve crescer o número de cadeiras no parlamento israelense.
O exibicionismo do ministro contra ativistas internacionais de uma flotilha humanitária é sintomático de uma sociedade fundada no extermínio, expulsão e humilhação dos palestinos e daqueles que apoiam a sua causa. Por isso, o problema de Ben-Gvir, para parte do establishment israelense e de seus defensores internacionais, não é revelar algo falso sobre Israel. É revelar demais.
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