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Feito um viaduto

A mais antiga cooperativa de reciclagem do País resiste à ameaça de remoção em bairro dito nobre de São Paulo

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Sem reconhecimento. Valéria da Silva faz a triagem do material. "Reciclamos de 100 a 120 toneladas por mês", afirma Carla Souza. "Aqui a gente faz de tudo", comenta Nilzete Romão, cooperada há 20 anos. "Geramos economia para a cidade e ninguém vê", lamenta Eduardo de Paula, um dos fundadores – Imagem: Luca Meola/CartaCapital
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“Carla, é o oficial de Justiça, ele quer falar com você.” Foi assim, em tom de brincadeira, que Valéria da Silva, de 38 anos, anunciou à presidente da ­Coopamare a chegada da reportagem. Atualmente, o mantra por ali é “rir para não chorar”. A cooperativa de reciclagem mais antiga em atividade no País enfrenta uma ameaça tão concreta quanto o Viaduto Paulo VI, em Pinheiros, um dos bairros mais ricos e desenvolvidos de São Paulo, sob o qual funciona há quase quatro décadas.

Em meados de março, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) determinou a desocupação da área. A notificação foi entregue pela Subprefeitura de Pinheiros, a apontar ocupação irregular do espaço e risco de incêndio associado ao acúmulo de materiais. O documento acrescenta que a permissão de uso foi revogada em 2023 para “proteção do bem público”.

A cooperativa contesta. Possui Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros válido até 2027 e diz nunca ter registrado incêndios desde 1990, quando se instalou sob o viaduto, após funcionar por um ano no bairro da Liberdade. Para os trabalhadores, a justificativa técnica não se sustenta, ainda mais diante da proposta de transferência para outros espaços sob viadutos.

Naquela tarde, a movimentação era intensa. Catadores entravam e saíam, enquanto os sacos com recicláveis se acumulavam. A equipe parecia trabalhar em sintonia. “Aqui a gente faz de tudo”, explica Nilzete Romão, há 20 anos na cooperativa. “Não tem isso de fazer só uma coisa.”

A operação é maior do que aparenta. “Reciclamos de 100 a 120 toneladas por mês”, diz a presidente, Carla Moreira de Souza. São 24 cooperados fixos, mas o fluxo é maior. “Por dia, passam por aqui de 30 a 50 catadores”. É uma engrenagem que depende do entorno: do bairro, dos prédios, dos trajetos repetidos ao longo dos anos. “Se a gente sair daqui, vamos ter de começar tudo do zero”, afirma Carla. “Conhecer a vizinhança, refazer os pontos de coleta… Voltaremos ao ponto de partida.”

A Subprefeitura de Pinheiros alega risco de incêndio. O laudo dos bombeiros está válido até 2027

Eduardo Ferreira de Paula, de 60 anos, relembra a transformação que o projeto trouxe para a região. “Aqui era uma favela”, diz. Um dos fundadores da cooperativa, ele destaca a importância da operação para o município. “Se esse material não viesse para cá, iria parar no aterro. Quem paga por isso é o Poder Público. Geramos economia para a cidade e ninguém vê. Agora querem nos jogar para outro viaduto.”

Caminhando pelo espaço, a presidente comenta que a produção já foi maior, mas caiu recentemente por causa de uma obra da prefeitura no viaduto. “A prensa não pode ser usada, áreas foram isoladas e, desde o início das intervenções, trabalhar ali passou a exigir uma camada extra de resiliência. A poeira toma conta do espaço e dificulta até respirar. Alguns cooperados estão trabalhando de máscara”, diz Carla.

O impasse tem contornos pouco definidos. A presidente da Coopamare afirma ter ouvido do subprefeito de Pinheiros, Ygor Costa, que a verdadeira razão seria a possível cessão da área ao Centro Assistencial de Motivação Profissional Pinheiros, mantido pelo Rotary Club de São Paulo. A entidade já funciona sob o mesmo Viaduto Paulo VI, onde está a ­Coopamare,­ mas em uma área menor. Questionada, a prefeitura não confirmou nem negou a informação. Em nota, afirmou que “o espaço será requalificado com o objetivo de ampliar as atividades sociais na região”.

Antes que moradores e trabalhadores de Pinheiros terminem o almoço, alguém vindo de longe e com estômago vazio já separou boa parte daquilo que o bairro descartou como lixo. Naquela tarde, era o caso da catadora Antônia Pereira da Silva, de 63 anos. “Não tinha dinheiro nem para um cafezinho”, lamenta. Segundo ela, é assim quase todos os dias. Antônia mora em Embu-Guaçu, município vizinho localizado no extremo sul da capital paulista.

Enquanto ajudava o marido, Denilson Santos, de 55 anos, a separar o material coletado para pesagem, ela contava um pouco da rotina diária, que começa ainda de madrugada. “Acordo às 4h30 e venho para cá.” De casa até a cooperativa, são três ônibus e cerca de quatro horas de deslocamento. Entre ida e volta, lá se vão oito horas por dia. Nem sempre o esforço compensa. “Hoje está fraco. Se conseguirmos 10 reais, será muito…” Para o casal, a ameaça de despejo só aumenta a incerteza e a angústia: “Se sair daqui, não sei o que vou fazer”.

“Se a gente sair daqui, vamos ter de recomeçar tudo do zero”, lamenta a presidente da Coopamare

Segundo a Associação Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (Ancat), cerca de 90% de todo o material reciclado no Brasil passa pelas mãos de trabalhadores como Antônia e Denilson. Só na cidade de São Paulo, estima-se que entre 20 mil e 25 mil pessoas vivam da coleta de recicláveis.

Em abril, o vereador Nabil Bonduki, do PT, promoveu um evento em apoio à ­Coopamare e anunciou a convocação de uma audiência pública na Câmara Municipal. “A cooperativa cumpre um papel fundamental. Em vez de despejar, a prefeitura deveria apoiar seu trabalho”, afirmou.

Enquanto a defesa apresentada pela Coopamare segue em análise pela administração municipal, debaixo do viaduto o trabalho continua. Entre os recicláveis, aparecem todos os tipos de objetos, de quadros de pintura a revistas pornográficas. “Sempre tem alguém que encosta o carrão, deixa uma caixa e vai embora”, conta a presidente Carla. “Tinha um monte de Playboy antiga aí, mas desapareceu rapidinho”, acrescenta, entre risos, o fundador Eduardo Ferreira.

Com 20 anos de cooperativa, Nilzete Romão garante já ter visto de tudo. “Um dia, um colega chegou com um saco cheio de brinquedos eróticos. A gente explicou que, embora fossem eletrônicos, eram de borracha e não recicláveis. Ele saiu resmungando, dizendo que iria vender num ferro-velho aqui perto.”

A animada conversa na pausa do cafezinho termina em gargalhadas. Logo, todos voltam ao batente, sem perder o humor. Todos riem para não chorar. •

Publicado na edição n° 1414 de CartaCapital, em 27 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Feito um viaduto’

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