CartaCapital
Travada por dentro
É hora de discutir a produtividade do trabalho
O Brasil ocupa a 94ª posição entre 184 países no ranking de produtividade do trabalho da Organização Internacional do Trabalho. Cada trabalhador brasileiro gera, em média, 21,2 dólares por hora trabalhada, menos de um quarto dos 81,8 dólares registrados nos Estados Unidos e abaixo da média de economias emergentes como México, Argentina e Tailândia. Para além de uma estatística desfavorável, esse é o resultado acumulado de um problema estrutural que o País insiste em não enfrentar. Ainda assim, a produtividade raramente figura como tema central no debate econômico. A razão disso, provavelmente, está na dificuldade de construir consensos e direcionar políticas públicas para um problema que possui causas diversas e inúmeras discordâncias quanto à prioridade para enfrentá-lo, mas cuja superação exige coordenação, horizonte de longo prazo e o direcionamento de instrumentos que correspondam ao tamanho do desafio.
A estagnação da produtividade brasileira vem de longa data. Entre 2000 e 2023, a Produtividade Total dos Fatores (PTF), que mede a eficiência com que o capital e o trabalho são combinados na produção, cresceu, em média, apenas 0,3% ao ano. Em 2024, o crescimento da produtividade do trabalho recuou para 0,1%, ante 2,3% no ano anterior. Mesmo com certa estabilidade da taxa de crescimento econômico, a produtividade apresenta um comportamento errático em torno de um patamar baixo, o que é preocupante para uma economia que precisa recuperar urgentemente a competitividade internacional em diversos setores.
Para dar maior didatismo à discussão, podemos dizer que, grosso modo, há quatro formas de se elevar a produtividade do trabalho: 1. Aumento das horas trabalhadas ou do ritmo de trabalho, elevando a intensidade do trabalho realizado por um trabalhador. 2. Maior especialização e ganho de destreza pelo trabalhador, aumentando a sua capacidade de realizar uma tarefa em menor tempo. 3. Incremento e modernização do maquinário utilizado. 4. Deslocamento do trabalhador para setores de maior intensidade tecnológica ou de capital, com maiores rendimentos de escala ou valor adicionado na produção.
Um trabalhador brasileiro gera, em média, 21 dólares por hora trabalhada, abaixo de outros emergentes
Ouso dizer, com alguma segurança, que as duas últimas formas foram as mais decisivas na história do capitalismo e no desenvolvimento das nações, ainda que a contribuição das duas primeiras formas não seja desprezível e que, ao menos para os setores intensivos em mão de obra, tenha sido também de grande importância. No caso brasileiro, ocorre uma curiosa mistura de problemas estruturais provenientes de todas essas dimensões.
Começando pela questão do maquinário, a idade média das máquinas em uso no País é de 14 anos, e 38% dos equipamentos ultrapassaram o ciclo de vida ideal de operação. O coeficiente capital-trabalho, isto é, a quantidade de capital físico disponível por trabalhador, é em torno de cinco vezes inferior ao dos Estados Unidos e quatro vezes inferior ao da Coreia do Sul. Se observarmos o problema pelo porte da empresa, o quadro é ainda pior: as microempresas, que empregam a maior parte da força de trabalho, têm produtividade equivalente a um décimo da observada nas grandes.
Da estrutura ocupacional e do nível de capacitação geral dos trabalhadores também não se obtêm dados animadores. Em janeiro de 2025, havia perto de 19 milhões de trabalhadores informais sem CNPJ, operando fora dos sistemas de crédito, capacitação e inovação. Segundo o Mapa do Trabalho Industrial 2025–2027, o Brasil possui uma demanda de quase 14 milhões de trabalhadores em ocupações industriais, e mais de 80% dessa demanda seria apenas para requalificação e aperfeiçoamento do pessoal ocupado. O contingente imenso de trabalhadores que precisam de recapacitação para que o setor produtivo possa assimilar as novas tecnologias evidencia o tamanho do desafio.
Os ganhos de produtividade possíveis via ampliação da intensidade e da duração do tempo de trabalho no Brasil chegaram ao limite. Em torno de 21 milhões de trabalhadores têm carga de trabalho semanal acima das 44 horas previstas na Constituição. Segundo a OIT, 11% dos trabalhadores têm jornadas superiores a 48 horas semanais. O País ocupa a segunda posição mundial em incidência da Síndrome de Burnout e, em 2024, registrou quase 500 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais.
No país em que o empresariado viu a produtividade crescer basicamente por meio da intensificação do trabalho nas últimas duas décadas, não é de se surpreender com o apego à escala 6×1, mas o fato é que essa via se mostrou pouco produtiva para promover ganhos de produtividade significativos.
A Nova Indústria Brasil, operada pelo BNDES, colocou na praça 300 bilhões de reais. O País continua, porém, com dificuldades para incorporar setores com maior sofisticação – Imagem: José Roberto Cunha/Intel e iStockphoto
Por fim, o País tem falhado repetidamente em incorporar novos setores, sobretudo aqueles com maior sofisticação tecnológica, em sua economia, o que impede que haja crescimento da produtividade por meio da diversificação produtiva para setores de alta produtividade.
Nas últimas décadas, o Brasil não só tem falhado em absorver novos setores, como vem experimentando um processo contínuo de desindustrialização, mais intenso justamente nos setores mais sofisticados. Muitos desses setores, como os produtores de equipamentos, são de suma importância para difundir ganhos de produtividade aos demais segmentos da economia, o que, no caso brasileiro, também dificulta a cooperação entre os diversos elos das cadeias produtivas, como forma igualmente importante de difusão de incrementos de produtividade.
Essa dificuldade, em grande parte, é herança do nosso estilo de industrialização, baseado em setores maduros, intensivos em escala, nos quais os ganhos de produtividade dependem sobretudo de modificações nos processos produtivos e/ou de ganhos de escala operacional. Sem ter constituído um conjunto expressivo de grandes empresas nacionais nos setores mais intensivos em tecnologia, a industrialização brasileira também teve pouca capacidade para impulsionar um conjunto mais sofisticado de pequenas e médias empresas, que tipicamente orbita as grandes companhias nos países desenvolvidos, e para induzir um mercado de serviços industriais sofisticados.
Em termos setoriais, a produtividade da indústria de transformação tem crescido, em média, a um ritmo inferior a 1% ao ano desde a década de 1990. A produtividade do setor de serviços também cresceu aquém do necessário, com uma média anual de em torno de 0,4% desde 1995. Na contramão desse processo está o setor agropecuário, no qual, entre 1995 e 2024, a produtividade cresceu, em média, ao redor de 5% ao ano.
Longe de ser uma vocação nata do setor agropecuário nacional, muito pode ser aprendido com a receita para o agronegócio nas últimas décadas: direcionamento de recursos fiscais e parafiscais, ampliação da infraestrutura pública de pesquisa, com a aproximação entre instituições de pesquisa e centros produtores, coordenação, diversificação e direcionamento dos instrumentos de crédito, impulsionados pelo Tesouro Nacional, e coordenação dos esforços de inovação com o investimento na expansão da capacidade produtiva.
É aqui que a analogia com programas nos moldes do Plano Safra faz sentido. O financiamento agrícola brasileiro é um dos sistemas mais bem estruturados entre os países em desenvolvimento. A cada ano, o governo federal anuncia linhas de crédito com taxas diferenciadas, prazos adequados ao ciclo produtivo, garantias calibradas à realidade do produtor e mecanismos de securitização do risco. Ao longo de décadas, esse arranjo ajudou a transformar o Brasil numa das maiores potências agrícolas do mundo e garantiu o avanço da mecanização e a mobilização permanente de investimentos para a ampliação da produtividade.
O Plano Safraé um modelo a ser replicado em uma política industrial bem estruturada
O crescimento da produtividade deveria ser consequência de uma política industrial bem desenhada e executada. Entretanto, a estagnação crônica da produtividade no Brasil talvez requeira um esforço concentrado para eliminar gargalos, destravar a economia e recuperar a competitividade. Diante do cenário em que se encontra grande parte das plantas produtivas no Brasil, engajar-se num esforço de política industrial, envolvendo inovação e exportação, parece uma realidade bem distante para a maioria do empresariado.
O Brasil não parte do zero. Há um conjunto de programas e instrumentos voltados à inovação e à modernização produtiva que, isoladamente, produzem resultados, mas que, em grupo, ainda não formam uma política articulada focada no problema. A Nova Indústria Brasil, iniciativa mais abrangente do governo federal, com 300 bilhões de reais previstos em crédito e subvenções até 2026, dedica a Missão 4 à transformação digital e à modernização do parque produtivo, operando via BNDES, Finep e Embrapii. O BNDES Finame financia máquinas e equipamentos nacionais com taxas subsidiadas de forma permanente. O Crédito Indústria 4.0, parceria entre BNDES e Finep, com 12 bilhões de reais disponíveis, apoia a adoção de Inteligência Artificial, robótica e manufatura aditiva. A Lei 14.871, de 2024, permite a depreciação acelerada de máquinas e equipamentos. Esses são alguns esforços recentes de articulação que evidenciam a imensa demanda por esse tipo de instrumento.
A necessidade urgente de incorporar as novas tecnologias e a transição energética no maquinário industrial representa uma oportunidade para encarar de frente o problema da produtividade no Brasil. O Brasil precisa de um esforço concentrado de políticas públicas para superar essa armadilha, com recursos e metas para destravar o crescimento da produtividade e preparar terreno para políticas de desenvolvimento produtivo mais ambiciosas. Essas, sim, fundamentais para definir uma trajetória de inserção da economia brasileira nestes novos tempos. •
*Professor associado e livre-docente do Instituto de Economia da Unicamp e diretor-executivo do Transforma-Economia.
Publicado na edição n° 1414 de CartaCapital, em 27 de maio de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Travada por dentro’
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