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Vou fazer a louvação

A música cristã, o segundo gênero mais ouvido pelo público brasileiro, se expande para além das igrejas

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Profissionalização. Indicado ao Grammy Latino em 2025, Ton Carfi começou a cantar em um coral religioso na periferia de São Paulo. No YouTube, Bruna Karla está entre as artistas mais ouvidas – Imagem: Redes Sociais
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Depois de duas décadas de carreira, Ton Carfi celebrou, em 2025, a indicação ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Cristã de Língua Portuguesa, por Ton Carfi 20 Anos – Ao Vivo. No Spotify, ele tem 1,2 milhão de ouvintes mensais.

Ligado à Comunidade Batista Hermom­, em São Paulo, Carfi começou a cantar em um coral no Capão Redondo. Em 2005, iniciou carreira solo e, dez anos depois, foi contratado pela Som Livre. O selo, adquirido pela Sony em 2021, era à época o braço fonográfico do Grupo Globo.

“A partir dali foi tudo mudando”, conta ele, em entrevista a CartaCapital. “Porque comecei a aparecer nos programas de televisão aberta.”

No início dos anos 2010, as gravadoras multinacionais começavam a puxar para seus casts artistas de música cristã – termo que engloba tanto a música católica quanto a evangélica. Algumas chegaram a criar unidades específicas, como foi o caso da Sony Music Gospel e da Universal­ Music Christian Group.

As majors avançavam, dessa forma, sobre um setor que, até ali, era ocupado por pequenas gravadoras voltadas ao nicho, como a MK Music e a Graça Music, esta ligada à Igreja Internacional da Graça de Deus. Na última década, surgiriam também selos fonográficos independentes para atender ao segmento, como a Todah Music,­ Musile Records e Trindade Records.

Na última década, o segmento foi abraçado por grandes gravadoras e atraiu artistas de diferentes perfis

Neste ano, Ton Carfi abriu a própria gravadora, a Rocket Music Brasil, voltada sobretudo a novos artistas. O cantor e compositor espelha o bom momento vivido pelo segmento. Pesquisa da Quaest de 2025 indica que a música cristã – incluindo o gospel – já é a preferida para 19% das pessoas, perdendo apenas para o sertanejo.

Um Novo Dia, versão em português da música One More Day, uma das canções gospel mais executadas nas plataformas na atualidade, tem, no YouTube, 72 milhões de visualizações na versão ao vivo da banda Get Worship, pertencente à igreja evangélica catarinense Get Church.

Um Novo Dia é tocada em cultos de diferentes denominações pentecostais e já foi registrada por vários intérpretes. A letra diz: Pela graça estou sendo curado/ Pouco a pouco sendo transformado/ Perfeito não sou, contudo, sou grato. A versão da cantora Bruna Karla, ligada à Comunidade Evangélica Internacional da Zona Sul, do Rio de Janeiro, teve 2,8 milhões de visualizações no seu canal do YouTube.

Na plataforma, os artistas gospel mais ouvidos em 2025 são Fernandinho, Thale­s Roberto e Isadora Pompeo – ela, só com a música Ovelhinha, de 2024, acumula 115 milhões de exibições. Embora tenha virado hit, a música religiosa – tanto católica quanto evangélica – levou algum tempo para se estabelecer e ser aceita nas igrejas.

Segundo Maria Clara de Sousa Tavares, doutora em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com uma pesquisa centrada em música, religião e educação, foi com a Renovação Carismática Católica (RCC), surgida nos Estados Unidos e trazida para o Brasil no fim dos anos 1960, que a música passou a ganhar mais destaque nas celebrações católicas.

“Os músicos e religiosos com influência carismática trouxeram uma musicalidade e expressividade renovada para as missas”, diz ela. “Para os carismáticos, essa forma de espiritualidade não é uma novidade, e sim uma renovação de algo antigo da igreja.”

Liturgia. Os padres Marcelo Rossi e Fábio de Melo foram dos poucos a romper a resistência da Igreja Católica a apresentações fora das missas – Imagem: Luci Sallum/Prefeitura de Contagem e Martin Gurfein

A RCC, inicialmente, entrou em choque com a Igreja Católica tradicional. As músicas tocadas na missa eram, muitas vezes, consideradas inadequadas à liturgia. “Isso fez com que passasse a haver a exigência de que compositores ligados à Renovação Carismática estudassem a liturgia para ter suas músicas inseridas na missa”, explica Maria Clara.

Uma canção originada do movimento marcaria a música cristã nos anos 1990: Erguei as Mãos, de 1998, lançada por Padre Marcelo Rossi, que teve enorme presença na mídia televisiva.

Como lembra Maria Clara, há uma hierarquia rígida na Igreja Católica que limita as apresentações fora das missas – algo que restringe a expansão da música cristã católica. Os padres Marcelo Rossi e Fábio de Melo foram dos poucos a romper essa barreira. A canção mais conhecida de Fábio de Melo, outro fenômeno musical católico, é Nas Asas do Senhor, lançada em 2013.

Foi também no início dos anos 1990 que a música cristã evangélica se popularizou, com a neopentecostal Igreja Renascer em Cristo, que incluiu nos cultos o canto gospel acompanhado de um conjunto musical.

O gospel teve origem entre os evangélicos negros norte-americanos, que, no início do século XX, buscavam, por meio da música, expressar esperança e resistência em meio à perseguição sofrida.

A demora da entrada do gospel no Brasil, de acordo com Máximo José da Costa, autor da tese Cristo in Concert – As Inter-Relações Entre a Música Gospel e as Vivências Religiosas dos Consumidores Evangélicos no Brasil (2024), defendida na Universidade Federal da Paraíba, deve-se ao fato de, por muito tempo, não ter sido permitido o uso de guitarra, baixo e bateria nos cultos realizados no País.

“O gospel norte-americano se utiliza desses instrumentos. O que predominava nas igrejas evangélicas no Brasil eram os hinos tradicionais, cantados em coro à capela ou com o acompanhamento de piano”, diz. Com a adoção do gospel­ por diferentes denominações evangélicas, a música cristã ganhou relevância, conquistando espaço nos programas religiosos de rádio e tevê.

Carfi lembra, no entanto, que a música cristã carecia de bons profissionais de produção, algo que dificultava sua expansão para públicos fora das igrejas. “Quando as grandes gravadoras começaram a contratar, gravamos em estúdios equipados e a qualidade sonora melhorou bastante”, recorda.

O pesquisador Máximo José da Costa cita como marco do segmento o hit Faz um Milagre em Mim, lançado em 2008 por Regis Danese, um ex-integrante do grupo de pagode Só pra Contrariar que, à época, pregava na Igreja Batista da Lagoinha. “A canção ganhou um público muito além dos templos”, diz.

“No início, a música cristã ficava apenas entre as quatro paredes da igreja, e foi demonizada por parte dos evangélicos”, diz Carfi

“No início, a música cristã ficava apenas entre as quatro paredes da igreja, e foi demonizada por parte dos evangélicos. Diziam que bateria e guitarra eram coisas do diabo”, diz Carfi. O surgimento de bandas gospel nos anos 1990, segundo o cantor, quebrou um paradigma muito grande. Atualmente, há artistas e grupos de música cristã de estilos que vão do rock ao funk, refletindo a abertura do segmento.

O interesse de artistas de outros gêneros musicais pela música cristã, como foi o caso de Regis Danese, é considerado por Ton Carfi um elemento-chave da maior popularidade: “Cantores de pagode e sertanejo começaram a cantar música gospel. Daí virou um fenômeno”.

Muitos instrumentistas de bandas diversas iniciaram suas carreiras em igrejas. Um ex-guitarrista de Ton Carfi acompanha hoje a cantora pop Pabllo Vittar.

As músicas que mais aparecem, segundo Carfi, são as de louvor, chamadas de worship. “É o que a gente faz para a igreja cantar”, diz ele, que tem em sua agenda, além de apresentações em igrejas evangélicas, shows em festivais e em espaços públicos. No ano passado, ele tocou na Virada Cultural de São Paulo.

No grupo de igrejas pentecostais, nas quais o Espírito Santo é o centro da liturgia, as composições são muito mais focadas em superação. “Mas tem canções mais poéticas, parecidas com a MPB”, diz o músico. Além de cada vez mais ouvido, o gênero parece progressivamente vasto e profissionalizado. •

Publicado na edição n° 1414 de CartaCapital, em 27 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Vou fazer a louvação’

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