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À sombra do chapelão

Roberto Sánchez, ex-ministro de Pedro Castillo, vai enfrentar Keiko Fujimori no segundo turno

À sombra do chapelão
À sombra do chapelão
Disputa acirrada. Após superar por 0,1 ponto o ex-prefeito de Lima, Sánchez aparece empatado com Keiko Fujimori nas primeiras pesquisas de segundo turno – Imagem: Connie France/AFP e Redes Sociais
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A elite branca peruana gosta de se vangloriar, perante os amigos estrangeiros, da grandiosidade de ­Machu Picchu, de sorrir nas fotos ao lado de lhamas e de exibir nas suas mansões tapeçarias da cultura inca, com seus padrões exóticos e elegantes. Os indígenas, 25% da população, de acordo com a estatística mais recente, de 2017, são muito valorizados no país, mas sempre como um elemento da paisagem, herança do passado, figurantes folclóricos de um enredo do qual nunca participam. Quando esses mesmos índios resolvem deixar sua posição decorativa e intervir nos rumos da política, as hierarquias do poder tremem como num terremoto.

É o que acontece no processo eleitoral para a escolha do novo presidente do Peru após o resultado do primeiro turno, encerrado após 35 dias de uma apuração apertadíssima. Na disputa da segunda vaga no segundo turno, um candidato de esquerda com forte apoio dos indígenas das montanhas andinas, ­Roberto Sánchez, derrotou por 0,1 ponto porcentual o principal representante da extrema-direita, Rafael López Aliaga, que até agora rejeita o resultado das urnas. ­Sánchez disputará a rodada decisiva, em 7 de junho, contra Keiko ­Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori, falecido em 2024 depois de passar quase 18 anos preso, condenado por corrupção e por violações aos direitos humanos.

Em um cenário político de alta instabilidade – oito presidentes se sucederam nesse cargo nos últimos dez anos –, os peruanos têm diante de si uma eleição fortemente polarizada. Fujimori, que não esconde a intenção de repetir a conduta autoritária do pai, disputa o segundo turno pela quarta vez, depois de três derrotas. Repudiada por amplos setores como a expressão política mais visível do crime organizado, ela responde na Justiça a um processo no qual é acusada de receber ilegalmente dinheiro de grandes empresas em troca de futuros benefícios.

Do lado oposto, Sánchez participou do breve governo do ex-presidente Pedro­ Castillo, um professor rural que, tal como ele, tem sua base política na província andina de Cajamarca. Em 2021, ­Castillo derrotou Fujimori no segundo turno, com 50,1% dos votos. Sua vitória foi contestada por influentes grupos empresariais e por políticos de direita, que tentaram anular a eleição sob a alegação de fraude. A coligação de esquerda em apoio a Castillo, formada de improviso, se fragmentou logo no início de um mandato caótico e a oposição direitista, majoritária no Congresso, tornou o ­país ingovernável até conseguir o ­impeachment do presidente, em 2023. Ele está preso desde então, condenado como golpista por sua tentativa de dissolver o Congresso para se manter no cargo, e Sánchez anunciou que lhe concederá indulto caso seja eleito. Os dois têm a pele morena, sinal inconfundível do DNA indígena, e usam na cabeça o típico chapelão dos camponeses peruanos.

O apoio do eleitorado indígena foi fundamental para o candidato de esquerda

O presente confronto eleitoral reflete as grandes linhas de fratura que dividem o Peru. Sánchez defende a taxação das grandes fortunas, a proibição da extração de minerais, principal atividade econômica do país, em zonas de risco ambiental e a estatização de recursos estratégicos como gás, petróleo, água, energia e portos. ­Fujimori se apresenta como partidária da “linha-dura” no combate à criminalidade, problema apontado nas pesquisas como o que mais aflige a população. Ela também pretende facilitar os investimentos estrangeiros e alinhar o país com os Estados Unidos, questão complicada, pois a maior parte do comércio exterior do Peru se dá com a China. As primeiras sondagens assinalam o equilíbrio entre os dois candidatos, ambos na faixa dos 38% das intenções de voto. Mas ainda existem muitos eleitores indecisos ou dispostos a anular o voto, numa situação em que a soma dos ganhadores do primeiro turno não chegou a 30% do total. Fujimori teve 17% e Sánchez, 12%.

As supostas ligações de Fujimori com o narcotráfico (é acusada pela DEA, a agência antidrogas norte-americana) dificultam a formação de uma aliança conservadora contra Sánchez. O candidato da esquerda, por sua vez, é chamado de “comunista” por grande parte da mídia e sofre ataques racistas nas redes sociais, cenário muito semelhante ao que marcou a eleição anterior. A clivagem racial tem relação direta com o período de turbulência que se seguiu à derrubada de Castillo, substituído pela sua vice, Dina Boluarte, transformada em instrumento da direita durante o processo do ­impeachment. Diante dos protestos maciços dos camponeses dos Andes, que acamparam no centro de Lima exigindo o retorno do presidente deposto, Boluarte não hesitou em mobilizar o Exército, numa operação repressiva em que foram assassinados 52 manifestantes.

A nova mandatária passou a governar com os mais baixos índices de aprovação na América Latina, de menos de 5%, e acabou afastada em outubro de 2025 pelo Congresso, em resposta a uma nova onda de protestos protagonizados desta vez por jovens sem posição política definida, que se organizaram pela internet, a chamada “Geração Z”. Foi substituída pelo presidente do Congresso, José Jeri, que se manteve igualmente impopular.

A incerteza, materializada nas ações judiciais pela anulação dos resultados do primeiro turno e em um processo judicial contra Sánchez, dará o tom nesta reta final da campanha, em um país apontado pelos cientistas políticos como um exemplo de democracia fracassada, no qual o poder é controlado por uma camarilha de congressistas movidos por interesses particulares. Além da fragilidade institucional, sobressai-se o contraste entre a estabilidade econômica do Peru, com baixa inflação e PIB em crescimento nunca inferior a 3%, e a amarga realidade da pobreza multidimensional verificada neste ano pela Universidade de Lima em 30% da população, índice que atinge 70% nas zonas rurais. É lá onde se situam os votos que podem levar novamente a esquerda ao governo e reacender os anseios de mudança no país. •


*Professor da UFABC.

Publicado na edição n° 1414 de CartaCapital, em 27 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘À sombra do chapelão’

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