Jamil Chade

Jornalista, correspondente internacional, escritor e integrante do conselho do Instituto Vladimir Herzog

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Do próprio veneno

Apoiadores que ousaram criticar Flávio Bolsonaro são triturados pela máquina de ódio da extrema-direita

Do próprio veneno
Do próprio veneno
Coletiva de imprensa com Flávio Bolsonaro e aliados, em 9 de maio de 2026. Foto: Vitor Souza/AFP
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Ninguém nasce odiando. O ódio é ensinado. A extrema-direita foi além e colocou o ódio como um instrumento político, como arma de mobilização.

Hoje, com as redes sociais, milícias digitais assassinam reputações, assediam e transformam a vida de jornalistas, acadêmicos, ativistas ou qualquer um que represente uma ameaça ao pensamento reacionário.

Nos últimos dias, foi justamente, porém, a extrema-direita que descobriu a dimensão do seu próprio veneno. Em postagens, personagens ultraconservadores e que por anos têm promovido ideias golpistas e ataques contra a democracia foram alvos de ofensas abomináveis. A operação não veio da oposição. Quem liderou a tentativa de intimidação foi justamente uma ala da extrema-direita brasileira inconformada com o posicionamento dos ex-aliados e vozes que se apresentavam como as grandes referências do movimento autoritário. O motivo: terem ousado dizer o óbvio sobre Flávio Bolsonaro e suas mentiras cinematográficas.

Uma dessas vozes do bolsonarismo contou, inclusive, como havia sofrido ataques por alguns que, antes, oravam por ele. E chegou a questionar a fé desses “patriotas”. Só agora? E quando o ódio era contra a oposição, a religiosidade deles estava intacta?

Depois de fazer listas de nomes a serem banidos, defender atos antidemocráticos, conspirar e disseminar mentiras de forma deliberada, executar reputações, destilar misoginia e intolerância, eles realmente acreditam que, então, existe uma linha vermelha que não pode ser cruzada?

Quando nações são consumidas pelo ódio, como a Alemanha na década de 1930 ou o Sul dos EUA durante a segregação racial, o resultado, invariavelmente, é a destruição da sociedade civil e sua substituição por sistemas políticos, sociais e jurídicos baseados na violência.

Nos Estados Unidos, Donald Trump usou o ódio como ferramenta de campanha e mobilização. Vi como comícios eram regidos pela construção do outro como uma ameaça. Os mexicanos eram “estupradores”, enquanto o discurso desumanizador era usado para descrever imigrantes, mulheres e oponentes políticos. Vi como aquela estratégia eletrizava a plateia. O ódio é intoxicante. Ele reduz questões complexas a simples dualidades baseadas na busca de bodes expiatórios entre os odiados. A decadência econômica passa a ser culpa dos imigrantes, não da falta de investimentos em educação ou inovação. A mudança cultural torna-se uma conspiração das elites e alas progressistas. Os fracassos pessoais tornam-se o resultado de um sistema supostamente manipulado.

O discurso do ódio é estrategicamente planejado. Opera em conjunto com a desinformação, a vigilância e os ataques técnicos para silenciar indivíduos específicos. É calculado, contínuo e transnacional. Para esses grupos, o ódio não serve para expressar um preconceito. Ele tem a missão de garantir o controle político sobre uma massa. Esse discurso instrumentalizado por forças políticas funciona como um mecanismo de governança. Normaliza a exclusão, asfixia a oposição pelo medo e cria uma “espiral do silêncio” que elimina completamente as vozes críticas. Um genocídio não começa no primeiro disparo, mas quando o ódio é autorizado, aplaudido e até recompensado.

Vi nos Estados Unidos e no Brasil como ele cresce quando as instituições democráticas são atacadas. Quando um presidente diz que a imprensa é “inimiga do povo” ou sugere que as Forças Armadas devem ser leais ao líder, não à Constituição.

Mas o ódio também é frágil. Sua utilidade política contém, nela mesma, as sementes de sua própria destruição. A história revela que movimentos construídos sob o ódio acabam se autodestruindo.

A Revolução Francesa devorou com ­suas guilhotinas seus próprios filhos à medida que o fervor revolucionário se transformava em expurgos internos. O macarthismo entrou em colapso sob o peso de seus próprios excessos. A Revolução Cultural na China destruiu os líderes históricos do movimento que, em 1949, chegou ao poder.

Como vemos entre os bolsonaristas, a paranoia que alimenta os movimentos de ódio cria fraturas internas à medida que antigos aliados se tornam novos alvos. E desmorona a coerência do grupo.

Talvez, nesse sentido, James Baldwin tenha razão quando alerta que “uma das razões pelas quais as pessoas se apegam aos seus ódios com tanta obstinação é porque pressentem que, uma vez que o ódio desapareça, serão forçadas a lidar com a dor”. •

Publicado na edição n° 1414 de CartaCapital, em 27 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Do próprio veneno’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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