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Ghosting financeiro, a solidão de quem não pode pagar
Não, ele não perdeu o interesse em você. Talvez só tenha aberto o aplicativo do banco antes de responder
A expressão ghosting nasceu para descrever uma dinâmica cada vez mais comum nas relações amorosas: alguém some sem explicação, corta mensagens, ligações e qualquer sinal de vida. Como um fantasma, desaparece da rotina de quem, até outro dia, dividia cama, confidências e expectativas.
Na versão financeira do fenômeno, o sumiço pode ter menos a ver com falta de desejo e mais com falta de dinheiro. Você acha que foi deixado no vácuo porque a pessoa perdeu o interesse, mas há uma chance real de que ela simplesmente não tinha como bancar outro encontro. E isso muda bastante a forma como interpretamos os afetos no capitalismo.
Sair de casa deixou de ser uma decisão simples, guiada apenas pela vontade, e virou uma operação financeira cuidadosamente calculada. Um encontro básico, com transporte, consumo em bar ou restaurante e algum lazer, facilmente passa dos 200 reais. Não estamos falando de luxo, mas de um padrão urbano comum.
Como encaixar esse custo do lazer em salários que parecem correr de ré na pista da valorização? Segundo dados do IBGE, o rendimento médio real do trabalhador chegou a 3.722 reais. Nesse cenário, um único date pode consumir cerca de 6% da renda mensal. Socializar começa a disputar espaço com a parcela da geladeira nova ou com a mensalidade da academia que muita gente paga e não frequenta.
Quando os solteiros brasileiros esbarram no aumento do custo de vida e na perda de poder de compra, as relações passam a ser atravessadas por um dilema financeiro. Vontade, interesse, atração e tesão começam a obedecer a uma pergunta dura: “cabe no meu bolso?”.
Socializar começa a disputar espaço com a parcela da geladeira nova ou com a mensalidade da academia que muita gente paga e não frequenta
Essa conta pode aparecer no primeiro encontro, no segundo ou no quarto. Quando a resposta é não, a pessoa pode simplesmente sumir. Não porque não queira, mas porque não consegue sustentar, literalmente, o custo de uma relação.
Isso distorce a forma como interpretamos os vínculos. Uma restrição econômica vira, aos olhos de quem fica, uma suposta falha emocional. A pessoa se sente insuficiente, se pergunta onde errou, tenta descobrir que gesto, frase ou silêncio teria assustado o outro. Claro que, em alguns casos, o susto pode ter vindo mesmo — do ronco, dos desabafos sobre ex ou da intensidade precoce. Mas há situações em que o fantasma tem boleto.
Outro obstáculo, também transformado em produto, é a própria busca por uma relação. Hoje não basta ser bonito, interessante ou engraçado. É preciso, muitas vezes, assinar o plano Premium Gold Pro Max. Aplicativos como Tinder, Bumble e Grindr operam com sistemas de monetização que vendem visibilidade, prioridade e até ferramentas de segurança. Estar no aplicativo já não basta: é preciso pagar para ser visto, impulsionado, escolhido. A chance de encontrar alguém passa, também, pela situação financeira de quem está tentando.
Um relatório da Harvard Graduate School of Education, publicado em 2023, mostrou que 56% dos jovens adultos afirmam que preocupações financeiras impactam negativamente sua saúde mental e suas relações sociais. Em 2025, a Organização Mundial da Saúde alertou que uma em cada seis pessoas no mundo sofre com solidão, sendo os jovens entre 13 e 29 anos um dos grupos mais afetados. A OMS associa baixa renda, vulnerabilidade econômica e dificuldade financeira ao aumento do isolamento social. Para muita gente, a solidão nasce da incapacidade de pagar o preço de participar da vida social.
Uma pesquisa da Deloitte publicada em 2025 também mostrou que quase metade da geração Z e dos millennials não se sente financeiramente segura. Entre as principais preocupações estão custo de vida, moradia, desemprego e saúde mental. O que aparece, portanto, não é um caso isolado, mas um padrão: encontros que não acontecem, relações que não se desenvolvem, amizades que esfriam e vínculos que se perdem porque viver ficou caro demais — sobretudo em um país em desenvolvimento.
A ideia de que “as pessoas não querem mais se relacionar” ignora o contexto econômico em que muitos vínculos estão inseridos. Claro, há muita gente sem responsabilidade afetiva. Mas, quando o custo de vida aumenta mais rápido que a renda, as pessoas começam a cortar aquilo que não é considerado essencial. O que sobra é o match, o FaceTime, o nude, o foguinho no story, o flerte tímido que passa a ocupar o lugar das interações presenciais.
Quem tem dinheiro sai mais, frequenta mais lugares, se expõe mais e pode tentar mais no amor. Quem não tem acaba se isolando, perdendo o famoso networking e sentindo os efeitos de uma desigualdade que também é afetiva. Podemos chamar isso de elitização do afeto?
O custo de não se relacionar — seja em encontros amorosos, visitas à família ou momentos com amigos — não é apenas emocional. Ele se associa à piora da saúde mental, à redução do bem-estar e a impactos na produtividade, como aponta a OMS.
O ghosting financeiro não deve servir de desculpa para falhas emocionais, mas escancara a necessidade de entender o contexto econômico das relações e abrir conversas mais honestas sobre dinheiro. Um momento de crise na vida de alguém não deveria impedir que outra pessoa fizesse parte dela. Compartilhar a situação, acolher, ser acolhido e demonstrar empatia pode ser uma forma mais madura de começar ou manter um vínculo. Falar de dinheiro numa relação deveria ser tão possível quanto decidir quem lava a louça: pode dar briga, mas faz parte da vida a dois.
O capitalismo conseguiu influenciar até com quem a gente dorme. E isso revela menos sobre a frieza das pessoas do que sobre os efeitos de um sistema que organiza desejos, encontros e ausências. Quando a economia passa a definir relações, ditar emoções e afetar a saúde mental, é preciso perguntar que tipo de vida estamos construindo. Porque, quando viver relações presenciais vira privilégio, o foguinho no story deixa de ser flerte e começa a parecer migalha social.
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