Paulo Gala

Professor de Economia da FGV-SP, foi economista, gestor de fundos e CEO em instituições do mercado financeiro. É autor, entre outros, de Brasil, uma Economia que Não Aprende

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Inflação americana acelera, juros saltam e cenário externo preocupa

Cada dado positivo que chega de Washington vira notícia negativa para os mercados globais, uma inversão sintomática do momento atual

Inflação americana acelera, juros saltam e cenário externo preocupa
Inflação americana acelera, juros saltam e cenário externo preocupa
Foto: Fernanda Carvalho/Fotos Públicas
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Os mercados operam em clima de acentuada turbulência, com o epicentro da pressão vindo dos Estados Unidos. O real registrou desvalorização brutal frente ao dólar, com o câmbio futuro flertando com a marca de 5,10 reais — um salto expressivo que forçou o desmonte generalizado de posições entre investidores que apostavam na valorização da moeda brasileira. A curva de juros acompanhou o movimento e explodiu, com todos os vértices superando a barreira dos 14% ao ano. O juro longo, que havia encostado em 13,30%, saltou abruptamente para 14,30%, liquidando apostas otimistas construídas nos pregões anteriores.

O principal vetor dessa pressão vem de fora — e seu nome é inflação americana. Os títulos do Tesouro dos Estados Unidos operam em níveis que não se viam há anos. O juro de 10 anos alcançou 4,56%, máxima em 24 meses, enquanto o papel de 30 anos atingiu 5,11%, namorando as máximas desde 2008. São as taxas mais elevadas em mais de uma década, e seu impacto é profundo: esses juros balizam o preço das hipotecas e de todo o mercado imobiliário americano, tornando o movimento especialmente relevante para a economia real… e para mercados emergentes como o Brasil, que sofrem com a fuga de capital em direção aos ativos americanos mais rentáveis.

O gatilho para esse estresse foi uma sequência de dados americanos robustos demais para o conforto dos mercados. O índice de preços ao produtor veio acima do esperado, o varejo surpreendeu positivamente, e a produção industrial também superou as projeções. O quadro que emerge é o de uma economia que segue aquecida apesar de todo o aperto monetário já realizado pelo Federal Reserve, e isso tem consequências diretas sobre as expectativas inflacionárias.

Na prática, esses dados alimentam o temor de que o Fed possa não apenas manter os juros elevados por mais tempo, mas eventualmente promover novas altas. O mercado começa a precificar esse cenário com crescente convicção. A lógica é simples e preocupante: se a economia americana resiste ao aperto, os preços continuam pressionados, e o banco central americano se vê obrigado a agir. Cada dado positivo que chega de Washington vira notícia negativa para os mercados globais — uma inversão sintomática do momento atual.

A tensão geopolítica no Estreito de Ormuz adiciona mais uma camada de incerteza. O preço do petróleo segue pressionado para cima, complicando ainda mais as expectativas inflacionárias globais. Um barril mais caro significa custos maiores ao longo de toda a cadeia produtiva, retroalimentando exatamente a pressão de preços que o Fed tenta conter. O cenário cria um círculo vicioso de difícil resolução no curto prazo.

No âmbito doméstico, o quadro externo adverso encontrou terreno fértil em movimentos políticos de grande impacto. Investidores que apostavam numa recuperação de determinado projeto político viram suas posições desmoronarem, contribuindo de forma relevante para a pressão sobre o câmbio e os juros. O dólar saindo de 4,90 reais para quase 5,10 reais em poucos pregões é um movimento impressionante que reflete tanto o estresse externo quanto esse reposicionamento doméstico forçado.

O setor de serviços no Brasil registrou queda, contrariando as expectativas do mercado. O número veio abaixo do projetado, resultado que deverá prejudicar os dados do PIB brasileiro. Vale notar que o setor de serviços representa aproximadamente 50% do PIB nacional, o que amplifica o impacto dessa leitura negativa. Um momento para ser lembrado como alerta sobre a fragilidade do atual equilíbrio global.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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