Clima

‘Não dá para cravar que teremos um super El Niño’, diz meteorologista

Glauber Ferreira, do Inmet, diz que previsões mais confiáveis sobre a força do El Niño só devem surgir a partir de julho ou agosto

‘Não dá para cravar que teremos um super El Niño’, diz meteorologista
‘Não dá para cravar que teremos um super El Niño’, diz meteorologista
Fenômenos como El Niño podem contribuir com variações temporárias da temperatura média global
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Vídeos alarmistas sobre a possível formação de um “super El Niño” inundaram as redes sociais nos últimos dias. O tom das publicações, porém, vai além do que a ciência permite afirmar neste momento. A avaliação é de Glauber Ferreira, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia, o Inmet.

Em entrevista a CartaCapital, Ferreira afirma que modelos internacionais indicam, de fato, a possibilidade de formação de um El Niño nos próximos meses. Mas ressalta que ainda não há segurança para cravar a intensidade do fenômeno, tampouco para falar em “super El Niño” — expressão que, segundo ele, não corresponde a uma categoria técnica.

“Não dá para cravar agora, neste exato momento, em maio de 2026, que teremos um El Niño muito forte”, afirma. “O El Niño nem se estabeleceu ainda e as pessoas já estão falando de ‘super El Niño’. Então está muito precipitado.”

O meteorologista explica que o período entre março e julho é uma fase de transição na modelagem climática, em que a previsibilidade tende a ser menor. Uma avaliação mais confiável sobre a força do fenômeno, diz ele, só deve surgir a partir de julho ou agosto.

Ferreira também critica o uso do tema por influenciadores sem formação na área. Para ele, há uma tentativa de “surfar na onda do pânico e do alarmismo” para obter audiência. Ao mesmo tempo, reconhece que o maior interesse público por clima pode ter um efeito positivo, desde que acompanhado de informação qualificada.

Confira, a seguir, os destaques da entrevista.

CartaCapital: O que há de verdade nesse conteúdo que inundou as redes sociais sobre o alerta de um “super El Niño”?

Glauber Ferreira: As previsões climáticas dos modelos internacionais da NOAA, a agência norte-americana de Administração Oceânica e Atmosférica, e dos centros europeus têm mostrado probabilidades de ocorrência de eventos de intensidade moderada, forte e muito forte, porém a partir do início da primavera no Hemisfério Sul, entre setembro e outubro.

A questão é que esses modelos têm indicado uma probabilidade semelhante para todas as categorias do evento. Por exemplo: dentro de um conjunto de cem possibilidades, você tem 30% de chance de um evento forte, 30% de moderado e 30% de muito forte. Então, ainda não há uma prevalência de qualquer uma dessas categorias sobre as outras que permita afirmar, com determinação e certeza, que haverá um evento de uma intensidade específica.

Imagino que essas pessoas — porque eu não tenho redes sociais e fiquei sabendo desses vídeos por amigos que me mostraram — tenham se aproveitado dessa onda de sensacionalismo, alarmismo e pânico para angariar views e audiência.

CC: Então existe uma previsão probabilística, mas não uma certeza sobre a força do fenômeno?

GF: Existe a previsão probabilística dos modelos de que possam ocorrer eventos fortes ou muito fortes, assim como eventos moderados. O que acontece é que essas previsões estão sendo feitas agora, desde o fim do verão e início do outono no Hemisfério Sul — fim do inverno e início da primavera no Hemisfério Norte.

Esses meses de transição, entre março e julho, dentro da modelagem climática, são considerados meses em que a previsibilidade dos modelos climáticos não é tão assertiva. Há fenômenos atmosféricos e oceânicos que ocorrem nesse período e limitam a confiabilidade das previsões.

Por isso, uma coisa que os cientistas recomendam é cautela. Apesar de as previsões indicarem essa possibilidade e muitas delas concordarem sobre isso, recomenda-se esperar o fim do outono e o início do inverno, porque aí a modelagem entra em uma fase em que as previsões se tornam mais assertivas. Nós só teremos uma perspectiva mais confiável de quão forte será esse El Niño a partir das previsões que surgirem em julho, agosto e tal.

CC: Então não dá para cravar, neste momento, que teremos um El Niño muito forte?

GF: Não, não dá para cravar. Eu acredito que você não vai encontrar um vídeo de algum meteorologista idôneo brasileiro que fale com total convicção que vai haver um El Niño muito forte.

Por quê? Porque a gente é mais cauteloso em relação a isso. Sabemos que existem muitas incertezas envolvidas: incertezas do sistema climático, incertezas da modelagem climática. Então, não dá para afirmar de forma determinística que isso vai acontecer.

O que esse pessoal tem feito nesses vídeos é uma coisa absurda, porque eles têm falado: “Vai acontecer um El Niño de tal intensidade em tal período do ano”. É impossível prever que determinado sistema terá tal intensidade em tal época do ano. Tanto que essas previsões lançadas por centros internacionais são feitas em termos de probabilidades. São previsões probabilísticas. Você vê condições possíveis, não algo determinado.

Não dá para cravar agora, neste exato momento, em maio de 2026, que teremos um El Niño muito forte.

Chuvas no Rio Grande do Sul. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

CC: O que explica, então, a indicação de que o fenômeno possa ter intensidade mais forte?

GF: As previsões têm indicado essa possibilidade muito por causa do calor que tem ocorrido nas camadas subsuperficiais do Pacífico Equatorial. Quando olhamos em termos estatísticos e históricos, eventos de maior intensidade sempre estiveram acompanhados de um maior acúmulo de calor nessas camadas subsuperficiais.

Mas isso não necessariamente significa que haverá um evento de igual magnitude, de forte magnitude.

Outro ponto: esse pessoal que tem feito vídeos, como eu te falei, não são meteorologistas, não são cientistas. São pessoas que, acredito, estão surfando na onda do pânico e do alarmismo para angariar audiência. É um tema delicado, que suscita a curiosidade das pessoas, ainda mais depois das tragédias que ocorreram no Rio Grande do Sul.

Existem essas probabilidades previstas pelos modelos, mas ainda não há total confiança de que vá acontecer um evento de magnitude muito alta. Ainda estamos em um período de transição da modelagem climática, de modo que só teremos mais confiabilidade nessas previsões a partir de julho.

CC: Do ponto de vista técnico, o que seria um “super El Niño”?

GF: O El Niño é um fenômeno natural da variabilidade climática. Ele sempre existiu e sempre vai existir. O “super El Niño”, para começo de conversa, não existe. Não existe “super El Niño”.

Essa é uma nomenclatura que deram para uma categoria que é o El Niño muito forte, quando as anomalias de temperatura na parte central do Pacífico ficam pelo menos 2ºC acima da média. Isso caracteriza um evento de El Niño muito forte. Então, esse “super El Niño” já é uma derivação que as pessoas fizeram do termo – justamente, acredito, para suscitar curiosidade pública.

Mesmo sendo um evento que faz parte da variabilidade climática do nosso sistema terrestre, o último El Niño muito forte ocorreu em 2015. Naquele momento, tivemos seis trimestres móveis consecutivos com anomalia acima de 2ºC no Pacífico Central.

CC: O que são trimestres móveis?

GF: São aqueles trimestres em que você repete um dos meses. Por exemplo: agosto, setembro e outubro; setembro, outubro e novembro; outubro, novembro e dezembro. Você sempre repete pelo menos um dos meses desse trimestre. Em 2015, tivemos seis trimestres móveis com anomalia acima de 2ºC no Pacífico Central.

Créditos: Paulo Pinto / Agência Brasil

CC: E o que aquele El Niño forte de 2015 trouxe?

GF: Eu me lembro que, em 2015, tivemos uma situação bem crítica em São Paulo, de crise hídrica, falta de chuva e ondas de calor.

CC: O que é o El Niño, na prática, e que efeitos ele provoca no clima?

GF Ele é um fenômeno extremamente complexo e não tem efeitos homogêneos no Brasil e no globo. Em algumas regiões, vai causar chuvas acima da média; em outras, chuvas abaixo da média. Ele tende a aumentar as temperaturas em nível global. Quando você tem chuvas abaixo da média e temperaturas acima da média, há uma maior taxa de evaporação.

Os efeitos são diversos. Aqui no Brasil, os efeitos clássicos são redução das chuvas e aumento das temperaturas no Norte e no Nordeste, principalmente. E, quando falamos em Norte, também não é uma coisa homogênea, porque a Região Norte é extremamente diversificada. Em geral, os efeitos do El Niño se concentram mais na Amazônia Oriental, o que não quer dizer que também não possa haver efeitos em outras áreas. Mas, em termos clássicos e estatísticos, os efeitos são mais evidentes na Amazônia Oriental e no Nordeste: chuvas abaixo da média e aumento de temperatura.

Já na Região Sul, o efeito é o contrário. Aqui no Brasil, ele causa um certo polo de chuva: chuva acima da média na Região Sul e chuva abaixo da média nas regiões Norte e Nordeste.

Em relação à temperatura, ele predominantemente está associado a temperaturas mais altas. Então, sim, podemos ter mais ondas de calor com El Niño. Podemos ter mais bloqueios atmosféricos, já que estudos também mostram que, nas últimas décadas, a maior incidência de bloqueios atmosféricos esteve associada à atuação do El Niño.

CC: O que dizem as notas mais recentes da NOAA?

GF: Em uma das notas lançadas pela NOAA em abril, eles colocavam que se estabeleceria El Niño até o fim de julho com uma probabilidade de 60 e poucos por cento. Existia 62% de chance de se formar um El Niño até o fim de julho.

Agora, na primeira semana de maio — ou na semana passada, não lembro exatamente — eles lançaram outra nota atualizando essas previsões, e essa probabilidade, que era de 62% em abril, pulou para 82%. Ou seja, a probabilidade de um El Niño se formar até julho subiu para 82%.

Isso também meio que alardeou a situação, porque as pessoas começaram a achar que a coisa estava muito mais acelerada, mais intensa. Mas não é isso. Nós também tivemos alguns mecanismos atmosféricos e oceânicos que atuaram em abril e fizeram acelerar essa taxa de aquecimento nas camadas subsuperficiais do Pacífico. A grande questão é o monitoramento constante.

CC: Como funciona o monitoramento feito pelo Inmet?

GF: Aqui no Inmet, nós realizamos a previsão sazonal. O que é isso? Nós realizamos a previsão de chuva e temperatura para até três meses. Por exemplo: agora, em maio, conseguimos fazer a previsão de chuva e temperatura até agosto — junho, julho e agosto.

Essas previsões feitas por centros internacionais são previsões em escalas maiores. Elas vão além do sazonal: pegam três meses, seis meses, nove meses. Por isso essas previsões que estão dizendo que vai haver um “super El Niño”, ou um El Niño muito forte, já estão jogando essa intensidade para outubro, novembro, dezembro — daqui a uns seis meses pelo menos. Então é outro tipo de previsão.

Nós não temos aqui no Inmet — na verdade, no Brasil — esse tipo de modelagem climática com toda essa escala temporal de previsão.

Há a previsão do tempo, que analisa as condições atmosféricas para um período de até mais ou menos sete dias, dez dias ou duas semanas. Essa, sim, nós realizamos aqui também. E há a previsão de clima, realizada por modelo estatístico. Também não é um modelo físico como o utilizado por esses centros internacionais.

Esses centros utilizam supercomputadores que coletam dados de inúmeras fontes: observações, satélites, aeronaves, enfim, milhões e milhões de tipos de dados. Esses computadores simulam a física terrestre. Não são modelos simplesmente matemáticos; são modelos físicos, porque simulam toda a física dos oceanos, da atmosfera, todos os mecanismos, interações e processos.

São modelos muito mais complexos do que um modelo estatístico, que estabelece relações estatísticas entre chuva, temperatura e condições atmosféricas. Aqui nós não realizamos previsão climática nesse sentido de analisar a temperatura da superfície do mar dos oceanos. Como em todo o Brasil, seguimos as previsões feitas pelos centros internacionais. Nós fazemos uma previsão climática mais voltada para o setor de agricultura, porque há interesse em saber como serão as condições previstas para questões agrícolas.

CC: Se houvesse como cravar desde já um El Niño dessa força, o Inmet já teria essa informação?

GF: Sim. Quando saímos dessa janela de limitação da previsibilidade climática, que se encerra agora no fim do outono no Hemisfério Sul e no fim da primavera para o Hemisfério Norte, aí as previsões tendem a ter mais assertividade.

Antes mesmo de acontecer um ápice de intensidade do fenômeno, isso será previsto e alertado. A questão é que as pessoas estão fazendo muito sensacionalismo antes. O El Niño nem se estabeleceu ainda e as pessoas já estão falando de “super El Niño”. Está muito precipitado.

CC: Como você avalia o impacto dessa repercussão nas redes?

GF: Com essa maior divulgação e com um debate mais frequente a respeito das mudanças climáticas — de como todos nós, como indivíduos, somos afetados por isso — as pessoas talvez estejam começando a se interessar mais pelo assunto. Acho que esse é um ponto positivo. Esse tipo de situação também faz governadores e tomadores de decisão se mexerem. Porque têm que se mexer.

Mas o ponto negativo é a desinformação, o excesso de fake news. Isso também esbarra nos interesses que influenciadores têm. Eu não vejo nenhum meteorologista influenciador fazendo esse tipo de coisa. O que vejo é economista, influenciador, ator, enfim. Então isso me parece oportunismo, uma tentativa de surfar nessa onda.

Infelizmente, acho que isso acaba sendo deletério para a meteorologia.

CC: Que tipo de fake news sobre clima tem chegado ao Inmet?

GF: Ultimamente, apareceu muito uma fake news sobre “o pior inverno de todos os tempos”, de que o inverno de 2026 vai ser praticamente um retorno à era glacial.

Recebemos um e-mail, tempos atrás, de alguém de Ribeirão Preto, de algum jornal de Ribeirão Preto, pedindo para a gente confirmar se de fato ia nevar em Ribeirão Preto, porque andaram dizendo que ia nevar em Ribeirão Preto. Infelizmente, essas coisas chegam a esse nível: as pessoas perdem o senso crítico de geografia que a gente aprende na escola.

E outras coisas, como a inteligência artificial, parecem só piorar ainda mais a situação. Então, não adianta: vamos ter que combater com a ciência mesmo e com honestidade científica. Não tem o que fazer.

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