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Entre a cura e o pânico moral
Há uma mudança cultural em curso e uma disputa sobre quem pode falar, pesquisar, consumir e legitimar experiências psicodélicas
Durante décadas, a cultura psicodélica foi enfrentada quase exclusivamente pela lógica da criminalização. Entre campanhas antidrogas, operações policiais e matérias alarmistas que associavam LSD, cogumelos e outras substâncias ao colapso social, consolidou-se um imaginário marcado pelo medo, pela paranoia e pela repressão.
Hoje, porém, basta abrir o Instagram para perceber que alguma coisa mudou. Em meio a reels sobre microdosagem de cogumelos, anúncios de retiros espiritualizados de ayahuasca, clínicas oferecendo infusão de cetamina e estudos apontando potenciais benefícios terapêuticos da psilocibina, do MDMA e do LSD, convivem as mesmas manchetes de sempre: pequenos cultivadores de cogumelos presos, estudantes tratados como grandes traficantes e reportagens sensacionalistas sobre “super cogumelos perigosos” ou “supermaconha” levando jovens à loucura.
Em muitos casos, trata-se das mesmas substâncias transitando entre narrativas completamente diferentes — ora apresentadas como ameaça social, ora como promessa de cura emocional, expansão de consciência e tratamento psiquiátrico inovador. A contradição revela não apenas uma mudança cultural em curso, mas também uma disputa sobre quem pode falar, pesquisar, consumir e legitimar experiências psicodélicas.
Os documentários Orange Sunshine, de William A. Kirkley, e The Sunshine Makers, de Cosmo Feilding-Mellen, disponíveis em plataformas digitais, ajudam a observar justamente essa transformação histórica. Ao revisitarem a trajetória da Brotherhood of Eternal Love e a circulação do LSD na Califórnia dos anos 1960, os filmes registram não apenas o nascimento de uma utopia psicodélica, mas também o início de um conflito cultural que décadas depois assumiria formas muito mais ambíguas.
O declínio do sonho hippie — somado ao impacto simbólico dos assassinatos cometidos pela seita de Charles Manson — fortaleceu discursos proibicionistas que já ganhavam força nos Estados Unidos, consolidando no imaginário popular associações entre psicodelia, descontrole e colapso moral.
Seria intelectualmente desonesto ignorar que existem pesquisas sérias sendo conduzidas sobre o potencial terapêutico dos psicodélicos. Tratamentos assistidos com cetamina já fazem parte da realidade de clínicas brasileiras, enquanto estudos envolvendo psilocibina, LSD e MDMA avançam em instituições respeitáveis ao redor do mundo. Da mesma forma, tradições religiosas e espirituais ligadas ao uso ritualístico de ayahuasca, peiote, cogumelos e outros enteógenos possuem importância histórica, simbólica e cultural legítima para inúmeras pessoas e comunidades.
Mas talvez parte do discurso contemporâneo esteja correndo o risco oposto ao proibicionismo do passado: a idealização acrítica dos psicodélicos como panaceias emocionais, espirituais ou existenciais. Em meio à explosão de conteúdos sobre “cura”, “despertar” e “expansão de consciência”, cresce também um mercado atravessado por promessas simplistas, mercantilização espiritual, exploração financeira de pessoas vulneráveis e figuras que transitam entre terapeutas improvisados, influenciadores e gurus.
A romantização automática da expansão de consciência ignora algo fundamental: experiências psicodélicas podem ser profundamente intensas e desorganizadoras para algumas pessoas. Contextos terapêuticos sérios exigem cuidado, acompanhamento e triagens responsáveis — especialmente em indivíduos com histórico de sofrimento psíquico intenso. Ainda assim, em certos ambientes espiritualizados ou menos rigorosos, experiências emocionalmente difíceis acabam sendo interpretadas apenas como sinais de “despertar espiritual” ou “morte do ego”, apagando fronteiras delicadas entre experiência mística, sofrimento psíquico e vulnerabilidade emocional.
Também existe uma questão mais ampla envolvendo apropriação cultural e mercado. Enquanto povos originários carregam há séculos conhecimentos ritualísticos ligados a medicinas tradicionais, cresce internacionalmente uma corrida comercial interessada em transformar saberes ancestrais em produtos patenteáveis, protocolos terapêuticos e serviços de alto custo voltados para consumidores privilegiados.
Talvez a principal contradição da cultura psicodélica contemporânea esteja justamente aí: algumas formas de uso seguem sendo tratadas como ameaça social, enquanto outras passam a ser legitimadas, medicalizadas e comercializadas. Não porque as substâncias tenham mudado — mas porque mudaram as linguagens, os mercados e as pessoas autorizadas a falar sobre elas.
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