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O show de Trump: como filmes e documentários retratam o presidente dos EUA

Atos e declarações recentes levam a crer que o republicano opera na lógica cinematográfica, como se a vida fosse, em verdade, um reality show

O show de Trump: como filmes e documentários retratam o presidente dos EUA
O show de Trump: como filmes e documentários retratam o presidente dos EUA
Sebastian Stan interpreta Donald Trump em 'O Aprendiz'. Foto: Divulgação
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O estudo da imagem e poder permite compreender a construção da imagem das lideranças políticas que ocupam e/ou ocuparam cargos executivos nos Estados Unidos da América. Ao serem trazidas para a tela as figuras da realidade, essas representações carregam a intencionalidade daqueles que participam da produção e a financiam. Ao apresentar uma figura como a de Donald Trump, seja em um documentário, seja em uma versão romanceada, dificilmente a reprodução corresponderá com a figura real. O que motiva determinadas escolhas cinematográficas, como o aumento da trilha sonora ou o foco da câmera? São involuntárias ou conscientes? Qual contexto sociopolítico no qual a produção se deu? Quanto tempo de tela mereceu um determinado fato em relação a outro? Responder a essas questões é fundamental na análise de uma obra audiovisual. 

Nesse contexto foram analisadas as obras audiovisuais sobre o presidente dos EUA: os documentários Trump: Um Sonho Americano e Trump’s Presidency: The First Year as It Happened, da rede australiana 7News Australia (disponível no YouTube) e o filme O Aprendiz, indicado a duas categorias no Oscar, que acompanham sua trajetória política desde a sua origem até a primeira gestão presidencial. Também será comentado o filme Era Uma Vez Um Sonho, baseado no romance autobiográfico de JD Vance, atual vice-presidente, que conta com nomes como Amy Adams e Gleen Close no elenco. Supõe-se, dessa forma, ampliar os vínculos entre imagem e política e expandir os limites da interpretação política e da representação política.

O documentário Trump: Um Sonho Americano, com quatro episódios, foi baseado em depoimentos de entrevistados que conhecem Donald Trump há muitos anos, incluindo amigos e inimigos. No episódio inicial, Trump aparece como uma figura que quer resolver os problemas da cidade de Nova York. Seu primeiro grande projeto é a revitalização do Hotel Commodore e, para realizar tal empreendimento, pede isenção de impostos para investir na reforma do hotel, com apoio do obscuro advogado Roy Cohn. 

Cohn é uma figura de destaque no filme O Aprendiz, no qual Trump é retratado como um jovem que, embora bastante ambicioso, aparece de forma desajeitada e sem muitas aptidões. Cohn torna-se uma espécie de mentor para Trump, que ouve atentamente seus ensinamentos e quer copiar sua forma de agir e se vestir. O advogado se utiliza de métodos questionáveis para vencer suas demandas. A personagem de Cohn tem dupla função, carregar Trump para dentro do funcionamento do sistema capitalista norte-americano e servindo ao público como uma crítica deste voraz que age de forma violenta e implacável. Ao fim da película, Trump será retratado como uma versão ainda mais aprofundada de seu mestre. Cohn ensina três regras para vencer. Quais são seus ensinamentos? “Você precisa estar disposto a tudo para vencer”, e explica como por meio do uso de três regras: “1ª regra – Atacar, Atacar, Atacar; 2ª regra – Não admita nada. Negue tudo; 3ª regra – Não importa o que aconteça, você declara vitória, nunca admita a derrota”.

O documentário Um Sonho Americano enfatiza como a fronteira entre o real e o sonho parece ser nebulosa para Trump. É impossível ignorar que seja um dos principais elementos para explicar não somente a ascensão política, mas a forma como mantém sua comunicação com o público. Ao operar constantemente na tensão entre fatos verificáveis e narrativas emocionalmente mobilizadoras, Trump não rompe com a realidade de maneira explícita, mas a reorganiza a partir de estratégias discursivas que privilegiam impacto e identificação. 

No documentário australiano, a figura de Trump é demonstrada como uma liderança centralizadora. A imagem exposta é da intransigência do personagem, que decide e orienta as ações de seu governo sem a interferência de auxiliares. O primeiro ano de sua presidência é marcado por diversas manifestações públicas e polêmicas, além do massacre em Las Vegas que deixou mais de 60 mortos, enquanto Trump minimiza o risco das armas. Trump apresenta-se como um autocrata que sabe como resolver tudo.

É relevante confrontar a imagem construída de Trump com o filme baseado na autobiografia de seu vice-presidente, JD Vance. Isso porque, embora este seja um político com posições e ações bastante questionáveis, que resvalam em certo nacionalismo étnico, crítico dos direitos LGBTQIA+ e até mesmo do divórcio, ostentando posições bastante conservadoras, a obra cinematográfica passa ao largo disso. Se Trump possuía uma imagem pública fortemente demarcada, JD Vance ainda podia ser desconhecido de grande parte do eleitorado, daí lhe ser relevante buscar construir uma personalidade baseada no imaginário popular de vencer por meio do próprio esforço e dedicação. 

As películas não podem ser tratadas como meros registros ou entretenimento, mas como peças que participam da própria constituição das lideranças que pretendem retratar e, por consequência, como são julgadas no espaço público. É justamente nesse ponto que a aproximação entre Trump e Vance revela sua força analítica, na medida em que expõe dois momentos distintos de um mesmo processo. De um lado, a radicalização de uma política profundamente imbricada com a lógica do espetáculo, em que a figura pública se confunde com o personagem midiático. De outro, a tentativa de reconstrução de um discurso mais tradicional de ascensão e mérito, elaborada para gerar identificação e ampliar seu alcance junto ao eleitorado. 

Atos e declarações recentes de Trump levam a crer que ele opera na lógica cinematográfica, como se a vida fosse, em verdade, um reality show. O sequestro relâmpago de Nicolás Maduro, bem como a guerra travada com o Irã, que levou à morte de seu então líder supremo, Ali Khamenei, são apresentados e comunicados de forma que evocam mais a estética de um roteiro de ação do que assuntos relevantes de política externa, com declarações grandiloquentes e uma linguagem de vitória total que reforça a centralidade do próprio líder como protagonista absoluto dos acontecimentos. Entretanto, o desenrolar dos fatos no Irã deixam claro que o roteiro final pode não ser exatamente aquele esperado por Trump.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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