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Esse rio é minha rua: racismo ambiental e desigualdade nas baixadas de Belém
Não são apenas ‘áreas pobres’, mas territórios historicamente produzidos pela exclusão urbana e racial
“Esse rio é minha rua”, cantam os paraenses ao som de Fafá de Belém desde a década de 1970. Nos últimos meses, com os alertas constantes da Defesa Civil e a necessidade de criar estratégias para se locomover e realizar tarefas básicas, essa frase nunca pareceu tão real. Nascida e crescida às margens do Rio Guamá e da Baía do Guajará, Belém teve sua história moldada pelas águas. Elas não desenharam apenas a geografia da cidade, mas também suas formas de circulação, trabalho, alimentação e convivência. A memória urbana e o cotidiano da capital paraense sempre dependeram delas.
Em Belém, a água vem do céu, dos rios e das marés, mas não chega da mesma forma para todos. A maneira como cada família vive esse contato depende menos da quantidade de chuva e mais da condição social de quem mora próximo aos leitos fluviais. Para entender a cidade, é preciso entender o significado das “baixadas”.
Belém foi construída a partir da separação entre as áreas altas, saneadas e valorizadas, e as baixadas, ocupadas pela população pobre — uma divisão que permanece até hoje. A água também acabou desenhando o mapa da desigualdade urbana. As baixadas são áreas úmidas, localizadas abaixo de quatro metros de altitude, fortemente influenciadas pelas marés e constantemente sujeitas a alagamentos.
No fim do século XIX e no início do século XX, durante a chamada “Belle Époque amazônica”, a cidade passou por grandes reformas inspiradas nos modelos europeus. Avenidas largas, praças arborizadas e projetos de embelezamento surgiram a partir da ideia de que pobreza significava desordem. Foi nesse período que a distância entre a cidade valorizada e a cidade inundável se consolidou de vez.
Segundo estudos sobre a região, ao longo do século XX, foram intensificados projetos de macrodrenagem e canalização das águas. Rios e igarapés passaram a ser transformados em canais artificiais de drenagem e esgoto. A lógica era acelerar o escoamento da água sem enfrentar as causas profundas da vulnerabilidade urbana.
A mata ciliar foi removida, as várzeas aterradas e estruturas naturais fundamentais para absorver a água foram destruídas. O resultado foi perverso: a cidade passou a responder cada vez pior às chuvas. Em vez de investir em habitação e saneamento, o poder público historicamente respondeu às crises nas baixadas com medidas paliativas, fragmentadas e profundamente desiguais.
Entre fevereiro e novembro de 2021, o Serviço Geológico do Brasil realizou um levantamento das áreas com alto ou muito alto risco geológico em Belém, seus distritos e ilhas. Foram identificadas 32 áreas de alto risco e 93 de risco muito alto. O estudo resultou em um mapa entregue à prefeitura de Belém em dezembro daquele ano. Cinco anos depois, o relatório parece ter se juntado à longa tradição de diagnósticos ignorados pelas elites políticas locais.
Outros estudos apontaram ao menos 85 pontos de alagamento espalhados por bairros como Pedreira, Marco, Jurunas e Condor — regiões periféricas, mais baixas, próximas aos canais e marcadas pela precariedade da infraestrutura.
Nos últimos anos, com a aproximação da COP30, projetos de revitalização urbana, parques lineares, corredores ambientais e obras voltadas à imagem internacional da cidade passaram a ganhar destaque. Ainda assim, pesquisadores alertam que essas transformações repetem uma lógica antiga: investimentos concentrados em áreas estratégicas e valorizadas, enquanto comunidades periféricas seguem convivendo diariamente com enchentes e abandono.
Enquanto alguns correm na “Nova Doca”, aproveitando o novo cartão-postal da cidade, outros limpam lama de dentro de casa, perdem móveis, deixam de trabalhar, não têm onde deixar os filhos, enfrentam doenças causadas pela água contaminada e esperam, um dia, por uma política pública que realmente enfrente os efeitos do racismo ambiental.
As baixadas não são apenas “áreas pobres”. São territórios historicamente produzidos pela exclusão urbana e racial. Entre 1996 e 2014, quase 98 mil pessoas negras morreram no Brasil por doenças relacionadas à falta de saneamento adequado. Isso significa que, a cada hora e meia, uma pessoa negra morria por ausência de infraestrutura básica. Em Belém, não é diferente.
Tratar a situação apenas como uma tragédia natural é esconder o verdadeiro problema: um modelo de cidade que empurra populações periféricas para áreas de risco enquanto concentra proteção e infraestrutura nos espaços valorizados.
O problema nunca foi a água, que é um elemento fundamental da identidade belenense, mas a decisão política sobre quem terá direito de apenas contemplá-la e quem será obrigado a sobreviver aos seus efeitos.
O povo cabano resiste como pode: improvisando passarelas, suspendendo móveis, construindo pontes artesanais, desobstruindo canais manualmente e reorganizando a rotina de acordo com a maré e a previsão da chuva.
Nas baixadas, a vida cotidiana depende muito mais da solidariedade comunitária do que da presença permanente do Estado. Nos últimos meses, escolas viraram abrigo, vizinhos acolheram famílias desalojadas, colchões circularam entre casas, comida foi compartilhada e redes locais de doação se formaram para garantir o mínimo necessário.
Muitas vezes, a própria população constrói sua infraestrutura de sobrevivência, aterrando áreas com caroço de açaí, entulho, lixo e restos de construção.
Décadas antes da COP30, Dalcídio Jurandir já retratava Belém como a desconstrução de uma ideia vazia de progresso. Talvez esse ainda seja o caminho necessário para compreender do que essa população realmente precisa.
Como escreveu Milton Santos, “cada homem vale pelo lugar onde está”. E os moradores das baixadas seguem tentando mostrar ao poder público o valor de suas vidas, enfrentando as chuvas e lembrando constantemente que a Amazônia não virou tendência: ela continua em disputa.
Afinal, quem montou a cobra grande não se escancha em puraqué.
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