Política

O que falta explicar sobre o alcance da relação entre Vorcaro e o clã Bolsonaro

Uma das principais dúvidas recai sobre o destino dos cerca de 61 milhões de reais que, segundo o ‘Intercept’, foram efetivamente pagos pelo banqueiro

O que falta explicar sobre o alcance da relação entre Vorcaro e o clã Bolsonaro
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Coletiva de imprensa com Flávio Bolsonaro e aliados, em 9 de maio de 2026. Foto: Vitor Souza/AFP
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A revelação de intimidade com o banqueiro Daniel Vorcaro sacudiu a pré-campanha à Presidência de Flávio Bolsonaro (PL). Aliados do senador tiveram de entrar em campo rapidamente para iniciar uma “operação abafa” e tentar minimizar os fatos, de olho em salvar uma candidatura que se afigura competitiva. Restam, porém, pontos de interrogação capazes de ampliar o desgaste do filho “zero um” de Jair.

Flávio admitiu ainda na quarta-feira 13 ter pedido dinheiro a Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, encampado pela extrema-direita como uma peça de propaganda pró-Jair Bolsonaro. A admissão só ocorreu após o site The Intercept Brasil divulgar as mensagens trocadas entre o senador e o banqueiro — horas antes, Flávio havia negado a solicitação e tachado de “mentira” a pergunta de uma repórter do veículo.

Uma das principais dúvidas recai sobre o destino dos cerca de 61 milhões de reais que, segundo o Intercept, foram efetivamente pagos entre fevereiro e maio de 2025 para financiar o filme. O veículo informou que Vorcaro se comprometeu a repassar aproximadamente 134 milhões de reais.

Uma das responsáveis pela produção do filme, a produtora GoUp Entertainment nega ter embolsado “um único centavo” de Vorcaro ou do Master para Dark Horse. O rastro do dinheiro, portanto, passa a ser um ponto central na investigação. Embora a apareça formalmente como produtora estrangeira, trata-se de uma empresa brasileira ligada à produtora Karina Ferreira da Gama, beneficiária recorrente de contratos com recursos públicos.

Segundo o blog da jornalista Andreia Sadi no G1, a Polícia Federal apura se parte do dinheiro serviu para bancar despesas do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos. O Intercept revelou que pelo menos uma fatia dos recursos saiu da Entre Investimentos e Participações e chegou ao fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e sob suspeita de ser controlado por aliados de Eduardo.

Também há dúvidas sobre por que o filme precisaria de um aporte tão polpudo: 134 milhões de reais de Vorcaro, sem contar outras fontes de custeio. Sucessos recentes de crítica e público custaram bem menos. Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto custaram, respectivamente, 45 milhões e 28 milhões de reais. Valor Sentimental, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional neste ano, teve um orçamento de 7,8 milhões de dólares, equivalente a 39 milhões de reais na cotação atual.

Além do aspecto financeiro, pesam questionamentos sobre a extensão da intimidade entre Flávio e Vorcaro. Até aqui, o senador negava contato com o banqueiro e tentava ligar o escândalo do Master ao governo Lula (PT), a fim de colher dividendos eleitorais. No WhatsApp, entretanto, se referia reiteradamente a Vorcaro como “irmão”, a quem prometeu: “Estou e estarei contigo sempre. Não tem meia conversa entre a gente”.

No vídeo que publicou para dar sua versão dos fatos, Flávio alegou se tratar do caso de “um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”, com “zero de dinheiro público”. Há uma dúvida de ordem prática, contudo, a respeito da firmeza do argumento, uma vez que o Master só cresceu devido a um modelo de negócios cujo rombo terá, provavelmente, de ser coberto por dinheiro público — vide os exemplos de fundos de previdência estaduais e do Banco Regional de Brasília, o BRB.

Horas antes de os diálogos virem à tona na quinta-feira, a Polícia Federal deflagrou uma operação contra aportes vultosos do Instituto de Previdência Social dos Servidores de Cajamar, na Grande São Paulo, no Master. Seriam 87 milhões de reais em letras financeiras no banco de Vorcaro.

Eventuais implicações legais a partir da relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro são imprevisíveis, mas o desgaste político é imediato. Longe de esclarecer os fatos, as explicações iniciais mantêm um cenário nebuloso, enquanto aliados do senador tateiam no escuro para conservar a competitividade de sua candidatura em um momento no qual o presidente Lula (PT) ensaia uma recuperação na corrida pelo quarto mandato.

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