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Um pioneiro dos estudos afro

Às portas dos 84 anos, o sambista e escritor Nei Lopes diz desejar ser lembrado como “um homem bom”

Um pioneiro dos estudos afro
Um pioneiro dos estudos afro
Composições. Letrista e poeta, teve canções gravadas por artistas como Alcione, Beth Carvalho e Clara Nunes – Imagem: Jefferson Melo
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Ao ingressar na Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro, em 1962, Nei Lopes percebeu a ausência de negros naquele respeitado universo acadêmico. Ali ele também via colegas oriundos de famílias ricas da ex-capital federal serem bajulados até por professores.

A vivência nesse ambiente marcado pela exclusão o fez despertar para os estudos do papel dos africanos e afrodescendentes na construção da sociedade brasileira. Mas isso só se estabeleceria de fato na sua vida alguns anos mais tarde.

Lopes exerceu a advocacia por algum tempo e, no início dos anos 1970, ingressou em uma agência de publicidade. Na agência, conta ele, foi dado o gatilho para que começasse a desenvolver suas almejadas atividades artísticas e literárias.

Nei Lopes relata essa e outras histórias ligadas à sua pesquisa sobre a diáspora africana na autobiografia O Robusto Menino de Irajá: Doces Lembranças, Eternas Saudades. O livro tem um lançamento na sexta-feira 8 de maio no Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro, e outro na Feira do Livro, que começa na Praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo, no dia 30.

Prestes a completar 84 anos, Nei Lopes soma 53 livros lançados. Dentre eles há tanto obras de referência quanto livros de ficção e poesia – mas todos expressam sua luta contra o apagamento da memória negra no País.

O Robusto Menino de Irajá: Doces Lembranças, Eternas Saudades. Nei Lopes. Mórula Editorial e Editora Expressão Popular (392 págs., 85 reais)

Sua primeira publicação foi O Samba na Realidade (Codecri, 1981). “Era um livro que se queixava das mudanças ocorridas nas escolas de samba, elas que foram meu despertar como sambista”, diz Lopes em entrevista a CartaCapital.

Um dos grandes destaques na sua extensa obra literária é a Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana (Selo Negro, 2004), disponível hoje na versão digital. O trabalho, um catatau de 752 páginas, é por ele definido como “um mergulho de vários anos nas afinidades entre o continente africano e a história do nosso país”.

Outro livro seu que se tornou referência é O Dicionário da História Social do Samba (Civilização Brasileira, 2015), feito em coautoria com Luiz Antônio Simas e ganhador do Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção. A pesquisa expressa o valor do negro, que, mesmo sofrendo perseguição e racismo por séculos, transformou o samba em identidade nacional e gênese da cultura brasileira.

É no samba, aliás, que Nei Lopes inicia sua autobiografia. Criado em uma família operária, ele, na pré-adolescência, fundaria com o irmão um pequeno bloco de carnaval no bairro em que primeiro viveu, o Irajá, na Zona Norte do Rio. Dez anos depois, em 1963, desfilaria no Salgueiro, escola com a qual acabaria por estabelecer uma relação visceral.

Embora o gosto pela composição tenha surgido cedo, foi apenas na segunda metade dos anos 1970 que veio o reconhecimento de sua qualidade como letrista. São de sua lavra sucessos como Gostoso Veneno, com Alcione; Senhora Liberdade, com Zezé Motta; Goiabada Cascão, com Beth Carvalho; Coisa da Antiga, com Clara Nunes; e Gotas de Veneno, com Jair Rodrigues.

Todas essas músicas são assinadas com o melodista Wilson Moreira ­(1936-2018), seu parceiro mais constante nas cerca de 400 composições que teve gravadas. Juntos, os dois lançaram, em 1980, o ­álbum A Arte Negra de Wilson Moreira e Nei Lopes, considerado um marco para a valorização da cultura afro no Brasil.

Dos nove discos lançados por Nei Lopes, merece destaque também De Letra e Música (2000), com excelentes arranjos e participação do primeiro time da música brasileira. Nele, o artista faz duos com João Bosco, Chico Buarque, Zeca Pagodinho e Joyce Moreno, entre outros.

Na autobiografia, Lopes afirma orgulhar-se do fato de sua Senhora Liberdade ter se tornado um dos hinos das Diretas Já, em 1984, devido à emblemática estrofe: Por caridade/ Ó liberdade/ Abre as asas sobre mim.

Seja em dicionários, seja na ficção, sua obra sempre foi marcada pela luta contra o apagamento da memória dos negros no País

Ele dedica ainda um capítulo ao seu envolvimento com a tradição Ifá, uma espécie de “matriarca” de todas as religiões afro-americanas. O sistema divinatório da África, oculto no Brasil durante várias décadas, segundo o escritor, foi trazido de volta por babalaôs cubanos imigrados para o país a partir dos anos 1990.

“Minha aproximação com a tradição de Ifá está sendo um grande marco na minha busca do conhecimento. Ela está acima de tudo aquilo que eu tinha aprendido antes em termos de espiritualidade”, explica. Em 2020, Nei Lopes publicou o livro Ifá Lucumí: O Resgate da Tradição para divulgar e esclarecer sobre a religião.

Apesar da contribuição à literatura e à música sobre a cultura negra, Nei Lopes não se vê como ativista. Com quatro títulos de Doutor Honoris Causa concedidos por universidades públicas como reconhecimento à vasta obra referencial sobre a memória da diáspora africana nas Américas, ele diz preferir ser lembrado, simplesmente, como um “homem bom”.

O cantor, compositor e escritor – que, na autobiografia, descobrimos ser também, desde a escola, ilustrador – afirma continuar “trabalhando muito” em suas pesquisas de afro-brasilidade, sem deixar de lado a vida de poeta e músico. Para ele, tudo isso está entrelaçado e “se nutre das mesmas fontes”.

A única nota de lamento na conversa ele reserva ao registro da enorme falta que sente da “amadíssima esposa”, Sonia Brilhante, falecida em dezembro de 2024. Mas, em relação a isso, uma certeza ele tem: “Sei que ela está me iluminando e isto me dá força para continuar”. •

Publicado na edição n° 1413 de CartaCapital, em 20 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Um pioneiro dos estudos afro’

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