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Os oceanos são uma das condições para a existência humana, diz a cientista Leticia Reis de Carvalho
Uma das maiores autoridades globais, a brasileira Leticia Reis de Carvalho, secretária-geral da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA, na sigla em inglês), corre o mundo para falar sobre a importância da gestão dos oceanos. Durante sua passagem pelo Brasil no início de maio, quando participou de reuniões ministeriais e foi uma das palestrantes da Aula Magna da Academia Brasileira de Ciências, a oceanóloga conversou com o repórter Maurício Thuswohl sobre os riscos para as áreas com profundidade entre mil e 10 mil metros, 54% dos oceanos. “Os fundos marinhos são considerados patrimônio comum da humanidade. Ou seja, seus recursos pertencem a todos nós.”
CartaCapital: Qual a importância dos oceanos para o equilíbrio climático?
Leticia Reis de Carvalho: Os oceanos são uma das condições para a vida humana, pois conectam continentes, alimentam populações, impulsionam a ciência, inspiram culturas e, cada vez mais, concentram algumas das grandes questões estratégicas do nosso tempo. Cobrem mais de 70% da superfície da Terra, regulam o clima e impulsionam o ciclo hidrológico. São o maior reservatório de biodiversidade do planeta. Absorvem mais de um quarto do gás carbônico que emitimos e geram mais da metade do oxigênio que respiramos. Mais de 3 bilhões de seres humanos dependem dos oceanos para obter fontes de proteína.
CC: A mineração no fundo do mar é um risco ao meio ambiente?
LRC: A proteção ambiental é uma obrigação prevista na Convenção da ONU sobre o Direito do Mar. Cada contrato prevê estudos ambientais obrigatórios. Essas informações formam a base para as Avaliações de Impacto Ambiental exigidas legalmente para qualquer futura operação de mineração, bem como para os Planos Regionais de Gestão Ambiental, que estabelecem abordagens padronizadas e preventivas para a proteção do meio ambiente.
CC: Qual a consequência da atual tendência de intensificação da exploração mineral em leito marinho?
LRC: Ter regras e regulamentações é a melhor maneira de mitigar qualquer impacto numa futura exploração dos recursos minerais nos assoalhos dos oceanos. A Convenção da ONU sobre o Direito do Mar determina que a maior parte dos oceanos não será apropriada, mas compartilhada. Não será explorada pelos mais poderosos, mas governada em benefício de todos. Essa visão depende do que fizermos nos próximos anos e aí o multilateralismo tem papel central. Quando um marco regulatório é claro, consistente e previsível, cria as condições necessárias para investimentos de longo prazo em ciência, tecnologia e em sistemas capazes de reduzir impactos e melhorar o desempenho ambiental. O que importa agora é como transformar essa visão em realidade.
Os mares “concentram algumas das grandes questões estratégicas”
CC: O acúmulo de material plástico é hoje o maior dano à saúde dos oceanos?
LRC: A poluição causada por plásticos é um grande desafio global. Parte da literatura científica sugere que o assoalho oceânico possa atuar como um reservatório de plásticos, mas as evidências científicas robustas sobre o tema ainda são limitadas. A ISA lançou no ano passado um documento que trata do assunto, focado em como enfrentar a poluição por plásticos no mar profundo e quais contribuições podemos fornecer para ampliar as evidências científicas. Se considerarmos que o mar pode atuar como uma área de acumulação de resíduos plásticos e ampliarmos a compreensão sobre a abundância de plásticos no oceano profundo e seus impactos, isso contribuirá para fortalecer a interface entre ciência e políticas públicas, além de subsidiar respostas em águas nacionais e internacionais. Acredito que esse tema apresenta um potencial significativo para colaborações futuras.
CC: Qual tem sido a principal contribuição científica?
LRC: Os cientistas estão completamente antenados e trabalhando em prol de oceanos sustentáveis. A ciência é uma condição para a boa decisão pública. Sem a contribuição científica, a governança do oceano profundo não tem base. Os contratantes da ISA que têm licença de exploração e pesquisa nos leitos marinhos profundos apoiaram 255 cruzeiros de pesquisa desde 2001 e supervisionaram investimentos superiores a 2,26 bilhões de dólares em atividades de exploração, incluindo 413 milhões de dólares dedicados especificamente a estudos ambientais. Temos também o DeepData, o banco de dados global da ISA, de acesso aberto, que reúne mais de 200 mil registros de observação de espécies, mais de 6,1 milhões de leituras de sensores CTD com dados sobre condutividade, temperatura e profundidade, 659 mil registros geotécnicos e mais de 5 milhões de dados de propriedade da água. E esse acervo continua crescendo, com mais de 65 mil novos registros submetidos anualmente desde 2015.
CC: A maioria dos países dá a devida importância à questão dos oceanos?
LRC: Certamente. A ISA existe há 31 anos e conta atualmente com 171 Estados membros, mais a União Europeia. Todos os países estão comprometidos com o mandato da autoridade. Os países que formam o conselho da instituição, da qual o Brasil faz parte, têm defendido fortemente a importância do multilateralismo e de não haver nenhuma decisão unilateral que vá contra o mandato da ISA e a própria Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. No ano passado, quando os EUA anunciaram a sua Ordem Executiva, todos os Estados membros apoiaram o mandato da ISA e foram uníssonos em afirmar que não pode existir nenhuma ação que vá contra o que prevê a Unclos. A ISA existe justamente para evitar uma corrida desordenada a esses recursos minerais no mar profundo. O nosso papel é construir regras, proteger o meio ambiente marinho e assegurar que os recursos da área sejam tratados como patrimônio comum da humanidade. •
Publicado na edição n° 1413 de CartaCapital, em 20 de maio de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Fonte de vida’
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