Economia

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Mr. Magoo e os economistas

Ortodoxos ou heterodoxos, os arautos da economia de manual se recusam a enxergar a realidade

Mr. Magoo e os economistas
Mr. Magoo e os economistas
Nossos Magoos veem o sistema financeiro e o rentismo como anomalias do sistema, um tumor, uma metástase disfuncional – Imagem: UPA/Kaufman-Hubley
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Mr. Magoo, personagem de desenho animado nos bons tempos da televisão. Um velhinho bem de vida, teimoso e com deficiência visual, se recusava a usar óculos. Sua péssima visão, causada pela miopia, o colocava sempre em situações perigosas e engraçadas. Onde sempre escapava ileso. Nossos ­Magoos da macroeconomia de manual também se recusam a usar óculos. Sua deficiência não é visual, é uma miopia em relação à realidade e às relações econômicas. A deficiência visual é democrática, essa miopia se estende aos ortodoxos e heterodoxos. Ambos têm seus campos de visão estreitos e dividem a economia, enxergando-a em blocos. O sistema financeiro e o rentismo são vistos como anomalias do sistema, um tumor, uma metástase disfuncional.

E nossos Magoos não conseguem nem querem enxergar a economia como um todo. Combatem a especulação financeira, como uma questão moral. O capital fictício (capital financeiro), nessa visão, não produz nada além de dinheiro. Perguntar não ofende: nas várias atividades econômicas do capitalismo, o objetivo não é ganhar dinheiro? Segmentam o capital em capital produtivo e capital financeiro, mas ambos estão submetidos ao conceito de capital.

No capitalismo, as decisões sobre a posse da riqueza são movidas pelos “espíritos animais” e supõem a especulação permanente sobre o futuro, o que envolve a contínua reavaliação do presente. Tais decisões estão apoiadas no crédito e se baseiam, portanto, num certo “estado de confiança”, isto é, não há fundamentos que possam livrá-las da incerteza e da possibilidade de risco sistêmico. Apoiados em convenções e constrangidos pela concorrência, os detentores de riqueza não podem escapar dos estados de euforia e de apetite pelo risco, que, não raro, culminam na decepção, na crise e na desvalorização da riqueza.

Outra dúvida aos nossos Magoos: aquela pessoa que produz bolo para vender na porta de uma estação de metrô não é especuladora? Quando sai de casa, acredita que vai vender todos os bolos, portanto, especula. Especular está na genética do capitalismo.

Me desculpem os leitores, vamos recorrer a Marx, Keynes e Schumpeter, para tentar curar a miopia de nossos Magoos a respeito do dinheiro.

Recorremos a Karl Marx: “O capital a juros compostos sobre cada uma das partes do capital poupado é tão assombroso que toda a riqueza produtiva de renda que há no mundo converteu-se, há muito tempo, em juros do capital… dinheiro que engendra mais dinheiro, valor que valoriza a si mesmo… para todos os capitalistas ativos, operem eles com capital próprio ou com capital emprestado”.

No capitalismo, as decisões sobre a posse da riqueza supõem a especulação permanente sobre o futuro

Vamos convocar Keynes: “Quando comecei a escrever meu Tratado Sobre a Moeda, eu ainda estava me movendo ao longo das linhas tradicionais, encarando a influência da moeda como algo, por assim dizer, separado da teoria geral da oferta e da demanda. Quando terminei de escrever o livro, tinha feito algum progresso na tentativa de encaminhar a teoria monetária no sentido de se tornar uma teoria da produção como um todo”.

Schumpeter afirma: “Assim sendo, não podemos nos afastar da base monetária do juro. Isso constitui uma prova indireta de que se deve preferir uma segunda interpretação do significado da forma-dinheiro em que o juro nos chega, a saber, de que essa forma-dinheiro não é uma casca, mas o cerne”.

Nos modelos Magoos, não existe dinheiro, só preços, porque o dinheiro atrapalha. Existe renda, mas, pasmem, não é monetária. Separam o mundo em dois blocos, o lado real e o lado monetário da economia. Nosso trio de economistas citados ficaria estarrecido, o lado produtivo não tem dinheiro. O principal objetivo de uma empresa ao investir em máquinas é fabricar produtos como meio de ganhar dinheiro. Nosso produtor de máquinas não é especulador porque não é rentista. Investir é pensar no que vai acontecer daqui para a frente. Isso não é especular?

Na miopia de nossos Magoos, não existe tempo, tudo é automático, racional e causa-efeito, afinal, nesse mundo criado por eles, tudo se equilibra. Talvez essa seja a causa do desprezo que têm pelo mercado futuro e pelos derivativos. Um derivativo ou contrato futuro pode trazer qualquer prazo futuro para o presente.

O jurista português Helder Mourato ensina: o derivativo é uma situação jurídica a prazo (por oposição a situações jurídicas à vista), em que o tempo é elemento essencial do negócio, quer para a determinação do preço, quer para o cumprimento de prestações, quer ainda para a transmissão da titularidade dos ativos.

Trata-se de instrumentos que permitem a chamada alavancagem (ou ­leverage) de preços, uma vez que o investimento inicial necessário para a subscrição do produto financeiro derivado equivale a uma pequena parte do investimento a prazo.

De tal modo que a exposição ao risco é muito superior ao capital inicialmente investido, o que significa que, no fim do prazo, o investidor pode ser presenteado com uma quantia financeira (dinheiro ou ativos) de valor muito superior ao capital investido ou, pelo contrário, ver-se a braços com uma dívida também de valor muito superior ao capital inicialmente investido.

Os swaps de taxa de juro representam atualmente cerca de 80% do volume total dos negócios de swap, mas a verdade é que nem sempre foi assim. Os primeiros swaps foram de divisas: operações financeiras complexas, montadas com o intuito de contornar barreiras nacionais relativas ao câmbio.

Diferente de nosso velhinho do desenho animado, que se nega a usar óculos para enxergar. O derivativo é a expressão máxima do capital fictício (financeiro). Ele permite determinar o preço de qualquer coisa e o prazo a qualquer momento. Impedem que nós, economistas, deixemos de ser magos e continuemos a reproduzir uma macroeconomia obsoleta. Uma visão míope da rea­lidade e da economia!

Em terra de cego quem tem um olho é rei. •

Publicado na edição n° 1413 de CartaCapital, em 20 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Mr. Magoo e os economistas’

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